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Do falso ecumenismo ao neoceticismo e suas consequências no Brasil

Postado em 31-05-2013

Há poucos dias dois professores de filosofia, das mais respeitadas universidades do Brasil, foram convidados por um jornal de grande circulação a tecer considerações sobre a surpreendente repercussão dos rumores sobre o fim do  famigerado “bolsa família”.

Ambos pensadores ressaltaram o problema do ceticismo na política, da falta de confiança ou de crença nas intituições democráticas. Discorreram sobre o lugar da verdade na política, a fim de saber se esta se rege pela verdade ou pela mentira. Todavia, chegaram a conclusões antagônicas. Enquanto um disse que é bom que na política haja certa dose de ceticismo ( que asseguraria uma cultura de tolerância e respeito às diferenças evitando os males do dogmatismo), o outro disse que é necessário fomentar a confiança nos valores democráticos. O pensador que sublinhou a necessidade de uma dose de ceticismo na política disse que o ceticismo combina perfeitamente com a democracia e que, de fato, hoje, o homem   está cada vez mais cético. Disse também que hoje há uma visão renovada do ceticismo.

Essas palavras de ilutres professores universitários nos sugerem algumas reflexões.

Como se sabe, o ceticismo não é um fenômeno cultural inédito. Na antiguidade, surgiu em consequência de um processo de exaustão e decadência da filosofia que perdia o vigor na busca e defesa da verdade. Tal processo desaguou no ecletismo, que tentava conciliar sistemas opostos que deteriam verdades parciais. E o ecletismo, finalmente, degenerou no ceticismo, suicídio da filosofia.

Pois bem. No mundo contemporâneo, quais serão as causas de um neoceticismo? Arrisco-me a apontar algumas.

Creio que uma das causas dessa mentalidade pirronista de nossos dias advém do falso ecumenismo reinante nos últimos anos. A prática do diálogo interreligioso, tentando conciliar religiões divergentes em benefício do homem e relegando a segundo plano o problema da verdade como um divisor dos homens (Santo Agostinho dizia: veritas parit odium), certamente contribuiu muito para a desconfiança do homem dos nossos dias na capacidade da inteligência de conhecer a verdade. Igualmente, a falsa idéia de que a Igreja de Cristo não se identifica com a Igreja Católica, mas subsiste nas várias denominações que caminham juntas em demanda de uma união perfeita que se realizará só no futuro quando, então, sim, haverá a verdadeira Igreja Católica, esta idéia tão deletéria e tão difusa hoje sem dúvida foi um dos germes do neoceticismo. É preciso também mencionar o pacifismo, que promoveu não só desarmamento mas ainda a renúncia ao combate doutrinário. Pacifismo que no tempo da guerra fria queria estender a mão comunismo. Cumpre, outrossim, acusar como uma das causas da crise cética que nos assola o abandono da filosofia de Santo Tomás que, sem ignorar as dificuldades do problema da busca da verdade e o perigo real do erro, demonstra a possibilidade de o intelecto humano chegar à verdade como seu objeto próprio: ipsa ratio boni appetibilis, a verdade que se funda no ser da coisa. Cumpre, finalmente, citar entre outras tantas causas que possa haver, o igualitarismo que tenta nivelar bons e maus, condenando qualquer discriminação. Não há comportamento, por aberrante que seja, que não mereça respeito e tutela da lei.

Quais as conseqüências do ceticismo? Será o ceticismo, como disse o referido pensador, uma garantia de uma existência pacífica entre os homens? Ou antes produzirá uma cultura de relativismo em que o vale tudo prevalece na sociedade? Se, de fato, é difícil descobrir a verdade no quotidiano da vida política de uma nação, isto não signfica que o remédio seja o ceticismo, que só poderá gerar a astúcia de cada indivíduo na luta pela sua sobrevivência. O ceticismo aplicado à política, ainda que em dose mínima, só favorece a desconfiança entre os membros de uma sociedade. Desconfiança que leva à inércia de toda uma sociedade. É o que acontece hoje no Brasil do petismo. A presidente desconfia do setor privado, de cujos recursos, porém, necessita para os investimentos em infraestrutra de que o País é tão carente. E o setor privado, por sua vez, também desconfia de um governo tão desorientado, tão sem rumo, que a toda hora muda as regras do jogo. Estes são os frutos do ceticismo aplicado à política no Brasil.

A solução, diante das incertezas inerentes à vida política, não é a postura cética, mas  a virtude moral da prudência. Se de fato a política é o campo fértil da mentira, principalmente a política moderna (Voltaire dizia: menti, menti, que algo ficará), nem por isso se deve viver na astúcia. É a prudência que  guiará  o homem de bem, fazendo-0 inocente, mas não ingênuo.

 A prudência pressupõe o conhecimento da verdade, o conhecimento dos princípios da ordem moral e do fim da ação. É a prudência que conduzirá o estadista, o empresário, o chefe de família, diante das contingências da realidade social, a tomar os meios adequados ao fim. É a prudência que recomenda ao legislador que não mude as leis a toda hora, sem motivo justo, como faz o governo brasileiro, gerando desconfiança em toda a sociedade, levando assim os empreendedores à inação com enorme prejuizo de todo o país.

Que se volte a Santo Tomás, ao seu tratado das virtudes e da lei. Esqueçam-se os anões do ceticismo da antiguidade.  Do contrário, teremos novos maquiáveis a serviço de govenos muitos piores  e mais sanguinários do que aqueles a que serviu o tristemente célebre pensador florentino.

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Anápolis, 31 de maio de 2013.

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