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Milenarismo e messianismo no pensamento político do Padre Antônio Vieira

Postado em 15-11-2012

(Comunicação dirigida à primeira Semana de Ciências Morais e Religiosas promovida pela Fafisma no auditório da UEG aos 24 de março de 2003)

 

Tendo tido há alguns anos a oportunidade de estudar a obra missionária do Pe. Antônio Vieira em defesa dos índios e negros com enfoque especial em seus argumentos bíblicos e patrísticos, é com grande prazer que hoje, nesta primeira Semana de Ciências Morais e Religiosas, proponho-me analisar o milenarismo e messianismo do Pe. Vieira, um aspecto de sua personalidade tão complexa que me parece em contradição com seu combate pelo reconhecimento da dignidade dos índios e negros escravizados e dos judeus perseguidos por uma inquisição que se havia reduzido a mera instituição política de uma monarquia absolutista.

Desejaria desenvolver o tema do milenarismo e do messianismo político do Pe. Vieira  tão ricos de lições de grande atualidade, observando a seguinte ordem: inicialmente, convém examinar aspectos da formação intelectual e espiritual do Pe. Vieira bem como alguns episódios marcantes da sua vida, em seguida, apresentar e analisar suas idéias milenaristas mais importantes e, finalmente, comparar sua pregação política com sua pregação estritamente religiosa, de modo que compreendamos por que Vieira foi, por um lado, um missionário admirável, um defensor heróico dos índios e negros escravizados, mas, por outro lado, incorreu em equívocos lamentáveis em suas atividades políticas.

O Pe. Antônio Vieira nasceu em Lisboa em 1608. De origem modesta, sua avó paterna era uma serviçal mulata da casa dos condes de Unhão. Somente mais tarde, em atenção aos merecimentos do Pe. Vieira, é que o rei Dom João IV elevaria seu pai, Cristóvão Vieira Ravasco, a fidalgo da Casa Real.

Aos oito anos de idade Antônio Vieira transmigra para o Brasil, pois seu pai obtém o cargo de escrivão na Bahia. Aí foi educado no colégio dos jesuítas, onde nasceu sua vocação religiosa. Nesse período ocorreu um fato que reputo de grande importância para entendermos bem a personalidade do Pe. Vieira. Ao contrário do que se poderia imaginar, a princípio Antônio Vieira foi um aluno medíocre, teve grandes dificuldades no estudo. Dizem os seus melhores biógrafos que com isso se afligiu muitíssimo, pois tinha um caráter brioso (cf. Lúcio de Azevedo, História do Pe. Vieira). Conta André de Barros, seu primeiro biógrafo, que Antônio Vieira suplicou a Deus por intercessão de Nossa Senhora das Maravilhas lhe alcançasse a graça de ser um bom aluno e, durante uma dessas preces, sentiu como estalar qualquer coisa no cérebro, com uma dor vivíssima, e pensou que fosse morrer. A partir de então tudo o que lhe parecia antes obscuro e inacessível à memória se tornou lúcido e fixo na retentiva. (cf. André de Barros, A vida do Padre Vieira).

O que podemos inferir desse episódio é que independentemente da graça extraordinária que lhe transformou a inteligência, Antônio Vieira era um homem de uma força de vontade descomunal, que o levou a arrostar obstáculos de toda ordem. Já pequeno, em vez de se conformar com seus minguados dotes, como que arrancou das mãos de Deus os dons de espírito que lhe permitissem triunfar nos estudos, então realizados em clima de emulação entre os jovens estudantes. Mas, de qualquer modo, sua inteligência privilegiada foi sempre uma inteligência a serviço da vontade. Sua inteligência, sempre avassalada por uma imaginação vivaz, foi apenas, em sua atividade política, um instrumento dos seus projetos, ou melhor, dos seus sonhos, da sua utopia. Os traços mais salientes do seu caráter que despontam em toda sua carreira política e diplomática que chegou ao cume como conselheiro do rei Dom João IV e da rainha Cristina da Suécia, são os de um homem voluntarioso, pragmático, teimoso, e, diria, maquiavélico. Uma teimosia que só se rendeu quando lhe disseram que a sentença condenatória proferida pelo Santo Ofício de Lisboa fora confirmada pelo papa Alexandre VII.

Com efeito, em sua vida há lances que provam os epítetos que lhe atribuo. Neste trabalho não há lugar para enumerá-los; bastaria recordar aquele episódio de sua viagem ao Reino de Nápoles a fim de urdir uma sublevação popular contra o domínio espanhol, de forma que o rei da Espanha, embaraçado com os acontecimentos políticos na península itálica, renunciasse às suas pretensões sobre Portugal. Creio que o testemunho do papa Clemente X  corrobora o que digo. Disse Clemente X a respeito de Vieira: “Devemos dar muitas graças a Deus por fazer este homem católico, porque se o não fosse poderia dar muito cuidado a Igreja de Deus.” (1670-76). Mas a bem da verdade e da justiça deve-se dizer que Vieira foi um homem abnegado que não buscou vantagens pessoais.

Essas informações são necessárias para entendermos suas idéias milenaristas e seu confronto com o Santo Ofício.

Mas antes de expor as quimeras sebastianistas do Pe. Antônio Vieira, é útil levar em conta a situação política de Portugal. Como se sabe, em 1580, em razão da morte do jovem rei Dom Sebastião na batalha de Alcácer-Quibir sem deixar sucessor, o trono de Portugal passou a ser ocupado pelo rei da Espanha Filipe II (Filipe I de Portugal), cujos direitos foram reconhecidos pelas Cortes de Tomar. Essa anexação de Portugal perdurou até 1640, quando ocorreu a restauração do trono português, sendo o duque de Bragança aclamado rei de Portugal com o nome de Dom João IV. A propósito, é interessante observar que, durante o eclipse da monarquia lusitana, o Pe. Vieira mostrou-se excessivamente submisso aos espanhóis dominadores de sua pátria, chegando mesmo a apoiar o rei Filipe IV em sua repressão contra os levantes de portugueses sebastianistas que almejavam a independência de Portugal da coroa espanhola.

De modo surpreendente, o Pe. Vieira em 1642 revelou-se o grande arauto do sebastianismo quando pronunciou na capela real, a 1º de janeiro, o sermão dos Bons Anos e se disse partidário não daquela seita ou desesperação dos que esperavam por el rei Dom Sebastião, de gloriosa e lamentável memória, mas sim daqueles que souberam amar, e com muita ventura que talvez buscando a um rei morto, se vêm a encontrar com um rei vivo. No mesmo sermão, aludiu à reconquista das terras ultra-marinas e à formação do Quinto Império. Pode-se dizer que com esse sermão Vieira foi consagrado o orador da restauração, sendo depois nomeado pregador e conselheiro do rei.

Entretanto, para analisarmos com propriedade o conteúdo utópico da visão milenarista do Pe. Vieira, que, aliás, se depreende da sua mesma defesa perante o tribunal do Santo Ofício a despeito da sua argumentação especiosa, é necessário que consideremos a sua fonte.

O Pe. Vieira recopilou suas idéias messiânicas em duas obras Clavis Prophetarum  e Esperanças de Portugal ou Quinto Império (Amazonas, 1659), nas quais comenta e desenvolve as falsas profecias de Gonçalo Anes Bandarra (1500-1566), o pseudo-profeta do messianismo patriótico lusitano, figura de capital importância para a compreensão do assunto que nos ocupa.

Bandarra é autor de trovas de significado enigmático, inspiradas nos livros escatológicos da Sagrada Escritura. Homem de grande fortuna, perdeu todos seus cabeais, viveu como sapateiro e granjeou grande popularidade, sobretudo entre os judeus perseguidos. Suas exegeses peregrinas da Bíblia, feitas em círculos ocultistas, despertaram a preocupação do Santo Ofício. Acabou processado pela Santa Inquisição, mas saiu-se bem.

Dizem os estudiosos que as trovas de Bandarra são aplicáveis a qualquer cataclismo religioso ou político-social. Por exemplo, a transmigração da família real para o Brasil em 1808, segundo alguns, teria sido profetizada por Bandarra.

Apesar de incluídas no Index, as trovas de Bandarra foram divulgadas e aceitas até mesmo por homens cultos, como o marquês de Niza que as fez editar em Nantes.

Dizem também os estudiosos que as trovas de Bandarra constituem um elemento catalisador de preocupações psicossociais, quer dizer, sob a capa de um misticismo religioso, são uma amostra de mistificação nacionalista que subsiste no decurso dos séculos. Podemos dizer que no Brasil, após a Proclamação da República, houve um fenômeno semelhante em Canudos, em torno de Antônio Conselheiro e seus discípulos, pessoas humildes que se sentiam angustiadas e abandonadas e ansiavam por uma ordem política consoante com a tradição nacional.

Mas o fato que nos interessa no momento é que o Pe. Antônio Vieira creu piamente nas profecias de Bandarra. Teria sido uma temeridade, uma desobediência às orientações eclesiásticas? Não me parece. Quando houve a restauração do trono português uma estátua de Bandarra foi colocada sobre o altar mor da catedral de Lisboa., em reconhecimento do pleno cumprimento de suas supostas profecias. Compartilha a mesma opinião o ilustre jesuíta português Pedro Romano Rocha, professor da Universidade Gregoriana e orientador de meu trabalho sobre Vieira, que diz que o Pe. Antônio Vieira, dando crédito às profecias de Bandarra, simplesmente seguiu o sentir comum de então. Quer dizer, as causas das sérias dificuldades de Vieira com o Santo Ofício, que lhe custariam dois anos de prisão em custódia e seis meses de reclusão, não seriam os erros doutrinários de Bandarra que aceitara – erros, aliás, inegáveis – mas as maquinações e intrigas de seus inúmeros inimigos.

A minha opinião é que Vieira quis conquistar o apoio de todos os portugueses em favor do trono recem-restaurado. Assim como buscou apoio dos mercadores judeus expulsos de Portugal, defendendo seu regresso ao reino porque suas riquezas ajudariam a consolidar a monarquia, assim também procurou atrair a simpatia dos sebastianistas para a nova dinastia de Bragança. A princípio foi um projeto político, mas com o passar do tempo foi se arraigando em seu espírito a confiança nas profecias de Bandarra, a ponto de dizer, apoiado em ditas profecias, que o rei Dom João IV, ressuscitado, realizaria aquilo que em vida não pudera cumprir, isto é, instaurar o Quinto Império – império simultaneamente espiritual e temporal –, a cuja fundação Deus destinava Portugal.

Vejamos agora a visão milenarista de Vieira, conforme a expõe Jean Delumeau em sua obra Mille ans de bonheu- une histoire du paradis (Fayard, Paris, 1995). Valemo-nos de sua obra, em razão da brevidade e objetividade com que expõe os devaneios sebastianistas de Vieira.

Diz Delumeau:

 

“Na concepção de Vieira, Cristo não reinará diretamente sobre o mundo regenerado, mas exercerá sua soberania por seus dois representantes, o Papa e o rei de Portugal, tendo então a Igreja chegado ao seu último estado de perfeição. Os ritos judaicos serão restabelecidos então e Jerusalém será restaurada em toda a sua glória. O pecado desaparecerá da terra pela conversão de todos os infiéis e a morte antecipada de todos os pecadores empedernidos. Todos os que sobreviverem serão salvos. No quinto Império a vida continuará como hoje, com agricultura, comércio e indústria, mas sem guerra. A paz reinará no rebanho enfim reunido. As pessoas habitarão em casas construídas por elas mesmas e apreciarão o fruto das vinhas que cultivarem. Terão vida longa, vivendo mais de cem anos, e os mais longevos chegarão a mil anos e poderão, então, combater o Anti-Cristo e dele triunfar. Pois o estado de perfeição da Igreja de Cristo durará mil anos.”

 

Deve-se observar que a expressão “estado de perfeição da Igreja” utilizada por Vieira parece tributária da doutrina do monge cisterciense Joaquim de Fiore, pai do milenarismo, (século XII, falecido em 1202), o qual  excogitou uma esdrúxula teologia trinitária, segundo a qual o ritmo da história estava dividido em três períodos, o primeiro correspondente a Deus Pai, o segundo a Deus Filho e o terceiro ao Espírito Santo. Esse terceiro período seria o estado de perfeição da Igreja, no qual seria abolido o sacerdócio e não haveria mais sacramentos. Toda essa doutrina foi condenada pelo IV Concílio Lateranense. E a propósito, faria ainda notar que não entendo como pôde o douto embaixador José Osvaldo Meira Penna dizer em artigo publicado na revista Convivium (maio-junho de 1985) que Santo Tomás ficou embevecido com a obra de Joaquim de Fiore, pois na Suma Teológica I II q. 106, art. 4, diz que a nova lei  sucede à antiga como o perfeito ao imperfeito e que nesta vida nada pode ser mais perfeito que a nova lei.

Tentemos agora, com base na defesa de Vieira perante o Santo Ofício, examinar alguns pontos das acusações que lhe eram formuladas.

Vieira foi acusado de defender uma concepção demasiado temporal e em sentido judaico do reino de Cristo em sua obra O quinto Império, em que se baseia nas profecias canônicas de Daniel, capítulos II e VII, em que o profeta interpreta os sonhos de Nabucodonosor  e tem a visão de quatro bestas. Trata-se, com efeito, de passagens enigmáticas da Bíblia, acerca das quais, segundo Mons. Straubinger, não há interpretação homogênea. Vieira foi igualmente acusado de interpretar erroneamente o capítulo 20 do Apocalipse, que fala de um período de mil anos em que Satanás seria aprisionado. É interessante notar que Vieira se defende da acusação de milenarista dizendo que estes foram condenados por afirmarem que Cristo há de vir ao mundo naqueles mil anos para fins meramente temporais e corporais menos decentes à pessoa de Cristo.

Quanto à idéia de um imperador cristão exemplar, que fosse realmente o braço secular da Igreja auxiliando a obra de evangelização e assegurando a manutenção da ordem, é notável a argumentação de Vieira diante do Santo Ofício. Cita inúmeros autores antigos e contemporâneos, entre eles alguns de nomeada como São Justino, São João Crisóstomo e Santo Hilário, que, segundo ele, falam de um imperador virtuosíssimo que Deus haveria de dar à sua Igreja. De modo que ele, Vieira, se limitou a dizer que esse imperador deveria ser um rei de Portugal, baseando-se numa suposta revelação de Nosso Senhor a el-rei Dom Afonso Henriques: volo in te et in semine tuo imperium mihi stabilire.

Cumpre assinalar um aspecto importante do milenarismo do Pe. Antônio Vieira, que só se esclareceu há poucos anos. A sua obra maior Clavis prophetarum, por diversas razões, permaneceu inédita até o ano 2000, e mesmo assim apenas o capítulo terceiro foi publicado. Clavis prophetarum, ao que tudo indica, é uma obra que Vieira concebeu e trabalhou durante muitos anos de sua longa vida de 89 anos e só ficou pronta pouco antes de sua morte.

Na referida obra Vieira nos surpreende com uma mudança radical de sua visão milenarista, defendendo idéias utópicas próprias dos nossos dias, mas que contradizem o que havia sonhado antes. Em Clavis prophetarum Vieira abandona o milenarismo nacionalista português, propugnando o reino de Cristo consumado na terra numa perspectiva ecumênica. A Igreja do futuro com que sonha é uma igreja completamente ecumênica, sem fronteiras, que se identifica com a humanidade e fomenta o diálogo inter-religioso e  intercultural. Embora buscando uma fundamentação bíblica para o seu milenarismo, Vieira, em Clavis prophetarum,  incorre  num naturalismo, numa soteriologia heteródoxa e chega a considerar os autores pagãos como enviados por Deus para o seu tempo, quase do mesmo modo que Moisés o foi para os judeus e Cristo para os cristãos.

Não haveria tempo suficiente para expor toda a defesa de Vieira. Mas são dignos de especial menção seus argumentos relativos ao Messias esperado pelos judeus. Reprovado por afirmar que o Messias esperado pelos judeus é fictício e imaginário, Vieira diz que “é de fé que os judeus hão de receber o Anti-Cristo por Messias, e que o Anti-Cristo há de ser verdadeiro homem e que o Messias que os judeus esperam é fingido e imaginado pelos mesmos judeus; porque o verdadeiro Messias já veio, e o que eles esperam nunca há de vir, nem existir, e que ainda que os ditos judeus hão de receber o Anti-Cristo por seu Messias, não é porque o Anti-Cristo seja o Messias esperado por eles, senão porque eles vendo os milagres aparentes, que por obra e arte diabólica fizer, hão de cuidar que aquele é o seu Messias esperado, do qual erro se desenganarão, depois que virem que ele não tem nenhuma propriedade que atribuíam ao seu Messias, das quais a perpetuidade, sendo breve o império e desastrosa a morte do Anti-Cristo.”

Gostaria de concluir este trabalho sobre as idéias milenaristas e messiânicas do Pe. Antônio Vieira com algumas observações.

Um confronto entre a atividade missionária do Pe. Vieira e suas atividades políticas permite-nos ver uma grande discrepância quanto ao método de leitura da Sagrada Escritura a que recorria Vieira em suas argumentações. Em suas pregações  estritamente religiosas em que o grande orador se ocupa de questões morais como a defesa da dignidade dos índios e negros oprimidos Vieira usa e abusa do sentido acomodatício da Sagrada Escritura sem, contudo, trair o seu espírito. Mostra que era um religioso habituado à leitura meditada da Bíblia da qual extraía os mais sublimes exemplos que ilustram os seus grandes sermões. Mostra-se também um homem justo e de bom senso que tinha plena convicção de que o problema da justiça  não se resolve apenas com a panacéia de uma declaração universal de direitos do homem, mas que a justiça só encontra um fundamento sólido na consciência de que os homens têm uma natureza comum, são filhos de Deus, são chamados a conhecer o Deus vivo e verdadeiro e a viver como irmãos.

Mas, ao contrário, quando Vieira se deixa seduzir pelas questões políticas, seus argumentos são extraídos da Sagrada Escritura não só com a violação de regras exegéticas mas também com a perda do sentido autêntico do texto sagrado. Neste ponto Vieira se revela um grande paradoxo. O mesmo homem tão realista na luta contra as mazelas do seu tempo se transforma num visionário político que faz uma leitura preconcebida da Sagrada Escritura querendo ajustá-la à sua imaginação.

A Vieira se aplicariam bem as sábias reflexões de Donoso Cortés sobre o poder da palavra de Deus: a palavra de Deus, tomada em seu sentido verdadeiro, é a única que tem o poder de dar a vida, é a única também que, sendo desfigurada, tem o poder de dar a morte. (Ensaios sobre el catolicismo liberalismo y socialismo, Madri, BAC, p.653).

Com efeito, a Sagrada Escritura deturpada pelo milenarismo conduz à morte, pois que mata a virtude sobrenatural da esperança e a substitui pelo otimismo humanista que só deseja um mundo melhor, o paraíso na terra e se esquece do céu.

O milenarismo perdura até hoje com outras roupagens. Diria que não só a teologia da libertação é uma forma de milenarismo e messianismo, mas também que a idéia milenarista perpassa quase todo pensamento teológico contemporâneo. Por exemplo, os parágrafos 54 e 62 da constituição pastoral Gaudium et spes do Concílio Vaticano II sobre a Igreja no mundo cheios de um otimismo  diante do avanço da ciência e da técnica que possibilitaria a reforma do mundo, esses parágrafos, a meu ver, além de desmentidos pelos fatos, constituem a grande utopia dos nossos dias que desvia os católicos da verdadeira luta pelos direitos de Deus sobre as nações.

Outro exemplo  seria a idéia tão em voga nos anos setenta em alguns círculos católicos de que a ONU representava a última esperança de paz para a humanidade, que marchava em direção de uma democracia universal. Houve até quem dissesse que “o mundo tendia rumo à unidade, à justiça, a um equilíbrio e uma perfeição chamada paz(…) e que a paz é o destino do progresso.” (Cf. mensagem para a jornada da paz de 1970, Paulo VI). Outro exemplo atual de milenarismo é a idéia de que se instaurará a Civilização do Amor graças a um diálogo inter-religioso, quer dizer, quando, de fato, as religiões se confraternizarem, quando se entender que todas as religiões dão a salvação contanto que praticadas com sinceridade e tolerância, não haverá mais guerra. É por isso que se tenta hoje superar a oposição entre católicos e judeus, dizendo-se que ambas religiões esperam a vinda do Messias.

É claro que todos devemos lutar para que haja mais justiça no mundo como uma exigência da lei de Deus. Todos devemos trabalhar para que os governos das nações se submetam ao império de Cristo. Mas todos devemos ter plena consciência de que a figura deste mundo passa, que nossa vida tão breve na terra deve se desenrolar em demanda da pátria celeste.

Encerraria esta comunicação, servindo-me de umas palavras de Georges Bernanos: o otimista é um idiota feliz, o pessimista é um idiota triste, só o cristão que tem a esperança sobrenatural é que tem razão para não ser nem otimista nem pessimista, mas realista.

 

Pe. João Batista de Almeida Prado Ferraz Costa