Ninguém sabe o duro que eu não dei

Marcos Cotrim

No último 28 de janeiro, festa de São Tomás de Aquino, morreu Dom Lourenço de Almeida Prado. Era médico antes de entrar no Mosteiro de São Bento no Rio. Como Dom Marcos Barbosa, que o precedeu na eternidade, fez parte do grupo de profissionais liberais que foi atraído pela vida espiritual e alta cultura, fomentada pelo grande abade, Dom Thomas Keller.

Dirigiu o Colégio São Bento, de 1958 a 2001, com uma visão maritainiana da educação, centrada na afirmação da dignidade da pessoa humana. Foi um crítico dos excessos do pedagogismo contemporâneo, da ideologização da escola à la Paulo Freire e Rubem Alves. Talvez sua direção tenha algo a ver com o excelente desempenho do colégio nas avaliações do MEC. De fato, num país que consegue aliar três instituições políticas inimigas da educação liberal (a revolução, o populismo e o mercado) num só projeto de poder partidário, é um milagre de santa Escolástica!

Em triste contraste, aliás, a julgar pelos dados recém divulgados pelo IBGE, com o setor público, que continua investindo rios de nosso suado dinheirinho para tentar fazer a cabeça dos mais pobres, aproveitando-se de serem reféns do estômago, em mais uma demonstração de profundo apreço pela humanidade. Assim, é oportuno recordar, em homenagem Dom Lourenço:

1) O debate teórico sobre as cotas não chegará a parte alguma. O problema é prático. Falta prudência aos governantes, cegos pelo planejamento “científico da sociedade”. Retrocedem quando transformam nossos crônicos problemas sociais em “questões raciais”.

2) A escola como um todo, e não a universidade enquanto ponte para o mercado, precisa ser de fato reformulada. Isso passa pela qualificação da educação básica, pela remuneração do professor etc. Mas não só. O prestígio da carreira foi arranhado pelo aviltamento da educação, que atrela os sistemas escolares à lógica de mercado. O professor virou um funcionário no sentido mais infeliz do termo: é um subalterno de alunos-consumidores, bedel de desajustados sociais, enfermeiro de jovens candidatos a psicopatas.

3) Não há como evitar que se associe a dignidade do status acadêmico à elitização de todo processo educacional. É da natureza de toda a dinâmica de aperfeiçoamento, selecionar os melhores e premiar o mérito.  Além de nem todos terem aptidão para a educação escolar, não será recompensando a preguiça e o desmazelo com aprovações automáticas nem dando saltos históricos com políticas pseudo-afirmativas que se há de lograr justiça distributiva.

O que se deve mais ressaltar, porém, penso ser a observação de Dom Lourenço a respeito da estreiteza de nossos cientistas políticos e sociais, dos líderes populistas que des-governam este país, do presidente a outros semoventes, ao afirmar que estamos doentes, num estado terminal de pragmatismo, ao elegermos a eficiência a todo custo como meta da educação. Mesmo que seja uma eficiência sem qualidade efetiva. O que torna nosso homenageado mais um honrado defensor do ócio, que assim adverte num de seus últimos livros:

“Vivemos realmente sob as mais diversas ameaças de que o homem acabe pondo fim à sua existência na Terra. Energia atômica, ozônio atmosférico, engenharia genética são apenas alguns dos caminhos humanos de autodestruição ou de tornar o planeta terra incompatível com a vida humana e, até, com a própria vida .

Ameaça mais grave e não menos assustadora e iminente é a que, sem tirar a vida, tira-lhe a dignidade e a nobreza humana, pela instalação do admirável mundo novo, em que, dominado pela técnica e pela busca da eficiência (ser ineficiente, no mundo de hoje, é, como diz Huxley, o grande crime contra o Espírito Santo), o homem não só consinta em ser escravo, mas se sinta honrado em sê-lo e dignificado por ser servo de um grande chefe.” (O Eterno no Tempo, 1994)

 

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