O pão da angústia e a água da tribulação

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Invariavelmente nossas conversas sobre a situação política do Brasil terminam com a lamúria: no Brasil não há oposição! As explicações sobre o deserto político nacional dominado pelos chacais do Congresso e pelas suçuaranas do Planalto são as mais diversas, mas todas expressam um esgotamento da família brasileira que, se pudesse, mandaria às favas todos os políticos.

E a situação agravou-se ainda mais nos últimos dias, com a notícia de uma aliança indecorosa entre os senadores da República José Serra e Renan Calheiros (ex-ministro de FHC),  a aprovação de um defensor do MST para o Supremo Tribunal Federal, o respeitável sr. Fachin, o engavetamento do pedido de investigação da exma. sra. Rousseff, e a recusa da “oposição” de abrir um processo de destituição da presidente por causa de um mais que suspeito financiamento de sua campanha eleitoral pelo esquema de corrupção da Petrobrás.

É bem verdade que não é de hoje que se sabe que o Congresso Nacional é um grande balcão de negócios, um covil de trapaceiros demagogos que vivem à custa da ignorância do povo, sem nenhum título legítimo para representá-lo a não ser o resultado das urnas oriundo de um sistema político falido. Esses parlamentares muito menos ainda têm  qualificação para ser legisladores. O país vive uma crise financeira enorme que impõe aos brasileiros um sacrifício pesadíssimo, medidas urgentes que precisam ser tomadas acabam adiadas e só se vê uma discussão inútil, um blablablá de vaidades que não passa de fingimento de transações escusas.

Realmente, como explicar, por exemplo, que o sr. kassab, ministro de um governo de esquerda, tenha agora o apoio do Planalto para fundar um partido liberal? Como explicar que o PSDB opte por abrir uma ação para apurar a responsabilidade da Sra. Rousseff pelas “pedaladas fiscais” e rejeite a tese do “impeachment”? A explicação só pode ser uma: todos têm culpa no cartório, todos têm o rabo preso! Não se pode esquecer a denúncia de roubalheira na Petrobrás que data dos tempos do presidente FHC, feita pelo saudoso jornalista Paulo Francis. O qual foi, então, ameaçado de ter de pagar uma indenização astronômica simplesmente por ter reproduzido o que uma fonte fidedigna lhe disse: É um mito dizer que os bons correntistas dos bancos suíços são os xeques árabes da indústria do petróleo, bons correntistas, na verdade, são os diretores da Petrobrás!

Tudo isso nos remete ao que conta o historiador da Antiga Grécia, Heródoto, que atribui a Dario da Pérsia as seguintes reflexões:

“É, pois, impossível que no governo popular se não insinue boa dose de corrupção. E, introduzida a corrupção num Estado, os autores do mal não se fazem oposição de modo algum, mas antes vivem em estreita amizade; pois que os metidos em estragar a coisa pública sempre conspiram juntos; e o mal dura, até que alguém, metendo-se à frente do povo, faça cessar tanta desordem. Esse homem, porém, tornar-se-á imediatamente objecto da admiração universal, e ei-lo de fato e repentinamente convertido em monarca. Assim a minha opinião sobre o principado recebe também outra confirmação luminosa. Finalmente, e resumindo tudo em poucas palavras, pergunto: donde vem a nossa liberdade? Quem no-la deu? somos devedores dela à democracia, à oligarquia ou ao principado? A minha opinião, portanto, uma vez que ao governo dum só devemos a nossa liberdade, é conservarmos a forma monárquica, visto como não poderia conformar-me em abolir uma instituição que já fez prova excelente” (Apud De Regimine principum, Santo Tomás de Aquino, tradução e notas de Arlindo Veiga dos Santos, São Paulo, 1956).

Hoje em dia os democratas liberais e toda a súcia esquerdista zombam daqueles que, inconformados com o descalabro das instituições políticas baseadas nos dogmas do igualitarismo e do individualismo, lutam pelo restabelecimento de um regime realmente ético que salvaguarde o princípio de autoridade para o bem de toda a sociedade. Esses adeptos da balbúrdia democrática denigrem seus opositores em tom sarcástico dizendo que eles querem um “Salvador da Pátria”. Longe de nós clamar por trastes do tipo Vargas, Lula, Maduro, Chavez, Hitler ou Stalin. Isso é o que sempre quis e quer ainda a esquerda. O que queremos é que as forças vivas da Nação, a reserva moral que ainda há (não é possível que nas diversas instituições intermediárias da sociedade que vivem longe do Planalto e do Congresso não haja ainda homens dignos), se unam em um esforço comum para restabelecer a ordem, a justiça, a paz, a segurança sem o que não pode haver progresso no país.

Dentro do quadro orgânico da sociedade, dentre diversas forças produtivas, e longe da putrefação da partidocracia deve haver liderança responsável e prudente capaz de examinar com sisudez e circunspecção a oportunidade de libertar o Brasil da tirania democrática que nos infelicita. Liderança com visão e coragem para reduzir o Estado às dimensões mínimas e necessárias e aliviar assim a sociedade para que esta possa, por conta própria, trabalhar, produzir riqueza, desempenhar, enfim, as tarefas que lhe competem sem os tentáculos do Estado Leviatã.

Entrementes, roguemos a Padroeira do Brasil   interceda junto a seu Divino Filho  Rei das Nações, e nos obtenha força e paciência, a fim de que, comendo o pão da angústia e bebendo a água da tribulação (que bem merecemos), nos purifiquemos de todos os crimes e blasfêmias que maculam a nossa sociedade e, no futuro, alcancemos da misericórdia divina dias melhores para o Brasil.

Anápolis, 27 de maio de 2015.

São Beda o Venerável.

Dentro da Oitava de Pentecostes.