Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Por que meditar?

Postado em 24-04-2018

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Com certa frequência algumas pessoas me pedem uma palavra sobre a oração mental, sobre o melhor modo de fazê-la, se há um método acessível às pessoas comuns, que querem unir-se a Deus por meio da oração, a fim de conhecer melhor sua santa vontade,  ter força para cumprir seus mandamentos e , por fim, pela sua graça, vir a constituir com Deus um só espírito (1 Cor. 6, 17).

Em consideração a essas pessoas que me confiaram em algumas ocasiões o seu desejo de que lhes desse uma orientação a respeito, proponho-me a reproduzir a seguir, puxando pela memória, o que aprendi nos tempos de seminário, durante o ano de espiritualidade. E confesso que é o que sempre apreciei e tentei observar ao longo destes anos.

Em primeiro lugar, é oportuno esclarecer que quem deseja adquirir o hábito de uma boa meditação, que realmente dê frutos de reforma dos costumes para ajustar-se à santa lei de Deus, deve, antes de tudo, ter uma reta intenção, evitando uma busca indiscreta da meditação como meio de alcançar, por exemplo, fenômenos místicos extraordinários. A boa meditação deve ter por fim, simplesmente, ajudar o cristão a ter uma consciência clara da vontade de Deus a seu respeito, ajudá-lo a cumprir fielmente seus deveres de estado, a fim de agradar a Trindade Santíssima em tudo, pela obediência aos divinos mandamentos no dia a dia. Os dons extraordinários, as consolações, as iluminações, tudo isto é realmente extraordinário. Deus dá quando quer e a quem quer. Ninguém se ponha a meditar para ser um “místico iluminado”. Ou pior ainda para vir a ser guru de uma seita de eleitos que clandestinamente chegaram à plena verdade desconhecida daqueles que trilham o caminho ordinário.

Dito isto, reproduzo o método por mim adotado, aprendido no Seminário Nossa Senhora Corredentora, da Fraternidade São Pio X, nas aulas de Espiritualidade. Se não me falha a memória, chama-se método de meditação segundo São Sulpício, porque era o método ensinado naquele célebre seminário francês.

O método consiste:

Preparação:1) pôr-se na presença de Deus, dizendo, por exemplo, ó meu Deus, que com vossa imensidão encheis céus e terra, eu me humilho em vossa presença e vos peço perdão dos meus pecados; 2) em seguida, procura-se uma sincera contrição das próprias faltas; 3) invocação do Espírito Santo e de Nossa Senhora.

 

Corpo da meditação: 1) Adoração de Nosso Senhor Jesus Cristo, considerando, por exemplo, sua bondade e sabedoria; 2) Considerações: convencer-nos da verdade meditada, convencer-nos dos nossos deveres, excitar nossa vontade, elevar-nos a Deus; 3) Afeições e orações (atos de fé, de esperança e de caridade); 4) Resolução (particular e geral)

 

Conclusão: 1) agradecimento; 2) contrição pelas negligências e distrações; 3) ramalhete espiritual (escolher algumas palavras para nos recordar os frutos da meditação durante o dia)

 

Nota: o tempo ideal de uma meditação é de 30 a 40 minutos diariamente, se possível logo pela manhã. É recomendável que na noite anterior se escolha um texto, principalmente da Sagrada Escritura (os Santos Evangelhos, as epístolas ou os livros sapienciais do Antigo Testamento), que sirva de subsídio para as reflexões.

Pode-se fazer a meditação em forma de exame de consciência, verificando se nossa vida se conforma com uma verdade evangélica ou mandamento da lei de Deus (por exemplo, espírito de desapego dos bens terrenos, temperança, etc)

O fim da meditação é conhecer a Deus, evitar o pecado e praticar a virtude. Não é transformar-se em guru ou mago ou astrólogo caldeu!

Outro método muito bom de meditação é aquele ensinado pelo grande Dom Chautard, que consite em:

  1. Representar-me uma cena viva para substituir às distrações e preocupações: por exemplo, representar em nossa mente uma cena da vida de Jesus, de Nossa Senhora, dos santos apóstolos ou de algum outro santo, como São João Batista etc. Pôr, então, minha razão, fé e coração diante de Nosso Senhor ensinando uma verdade ou virtude.
  2. Excitar minha vontade de harmonizar minha vida com o ideal entrevisto e deplorar o que for contrário.
  3. Prevendo os obstáculos, decidir-me a quebrá-los, suplicando o auxílio da graça divina. Para desenvolver esta meditação, é recomendável utilizar-se, como subsídio, do capítulo X do Evangelho segundo São Mateus que nos ajuda a tomar consciência dos deveres de discípulo do Senhor.

Para remate destas instruções traduzo o parágrafo 9 do Breve Catecismo da vida de oração, do Pe. Gabriel de Santa M. Mag., O.C.D. :

Por que meditar?

A meditação ou reflexão pessoal que fazemos sobre o dom divino ou sobre o mistério que escolhemos na leitura serve para um duplo objeto: um intelectual e outro afetivo.

O objeto intelectual é compreender melhor o amor de Deus por nós, segundo se manifesta no mistério ou no dom que consideramos, e assim convencer-nos cada vez mais do chamamento ao amor que Deus dirige a nossa alma.

O objeto afetivo é mover a vontade ao exercício do amor e a sua manifestação, respondendo ao convite divino.

A meditação afigura-se assim como a preparação imediata para a conversação afetuosa com o Senhor. (Burgos, Editorial Monte Carmelo, 1989)

 

É despiciendo dizer que hoje, mais que em outros tempos, a oração é mais necessária que nunca. É, com efeito, o único recurso que nos resta em uma sociedade que voltou as costas para Deus. O homem, hoje, considera-se senhor absoluto de tudo, quer manipular todas as criaturas para sua utilidade. Mas esqueceu-se que só saberá utilizá-las bem, colocá-las realmente a seu serviço, se se convencer de que todo bem perfeito vem do alto e descende do Pai das luzes (São Tiago, 1, 17).

Anápolis, 24 de abril de 2018.

Festa de São Fiel de Sigmaringen.

Mártir capuchinho.