Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 6 — Se o homem pode tornar-se feliz por obra de uma criatura superior, o anjo.

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O sexto discute-se assim. — Parece que o homem pode tornar-se feliz por ato de uma criatura superior, como o anjo.

1. — Havendo nas coisas dupla ordem — uma, a das partes do universo entre si; a outra, a de todo o universo em relação ao bem que lhe é exterior — a primeira se ordena à segunda, como ao seu fim, conforme diz Aristóteles1. Assim como a ordem das partes do exército, entre si, é para a de todo o exército, relativamente ao chefe. Ora, a ordem das partes do universo, entre si, funda-se em que as criaturas superiores agem sobre as inferiores, como na primeira parte se disse2. Ora, a beatitude consiste na ordem do homem ao bem que está fora do universo e que é Deus. Logo, por ação sobre o homem de uma criatura superior, como o anjo, o homem pode tornar-se feliz.

2. Demais. — O que é potencialmente tal pode atualizar-se pelo que é tal atualmente; assim o cálido potencial vem a atualizar-se pelo que atualmente já o é. Ora, o homem tem a felicidade em potência. Logo, pode tornar-se feliz em ato, por meio do anjo, que o é atualmente.

3. Demais. — A beatitude consiste, como já se disse3, na operação do intelecto. Ora, o anjo pode iluminar o intelecto do homem, conforme se estabeleceu na primeira parte4. Logo, pode tornar o homem feliz.

Mas, em contrário, diz a Escritura (Sl 83, 12): O senhor dará a graça e a glória.

SOLUÇÃO. — Estando todas as criaturas da natureza sujeitas a leis, por terem virtude e ação limitada, o que excede a natureza criada não pode ser feito por virtude de nenhuma criatura. E portanto, o que há de fazer-se, de superior à natureza, há de sê-lo imediatamente por Deus, como a ressurreição de um morto, o dar vista a um cego e coisas semelhantes. Ora, como já se demonstrou5, a beatitude é bem excedente à natureza criada. Por onde, é impossível seja conferida pela ação de qualquer criatura; e portanto, o homem torna-se feliz pela só ação de Deus, se nos referimos à beatitude perfeita. — Se porém nos referimos à imperfeita, então ela tem a mesma essência da virtude, em cujo ato consiste.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Quase sempre se dá nas potências ativas ordenadas, que levar ao fim último pertence à suprema potência; e as potências inferiores coadjuvam, dispondo, à consecução desse último fim. Assim, à arte de pilotar, que rege a de construir navios, pertence o uso do navio, e para ela é que o navio é feito. Por onde, na ordem do universo, o homem é seguramente ajudado pelos anjos, na consecução do último fim, supostos certos elementos precedentes, pelos quais se dispõe a tal consecução. Mas o fim último em si é alcançado pelo primeiro agente mesmo, que é Deus.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Quando a forma de um ser existe, atual, perfeita e naturalmente, pode ser-lhe princípio de ação; assim o cálido aquece pelo calor. Mas se a forma do ser é imperfeita e não natural, não pode ser princípio de comunicar-se com outra coisa; assim, a intenção da cor, na pupila, não pode causar o branco; e todas as coisas iluminadas ou aquecidas não podem aquecer ou iluminar outras, porque então a iluminação e o aquecimento iriam ao infinito. Ora, o lume da glória, pelo qual se vê a Deus, nele existe, certo, perfeita e naturalmente; em qualquer criatura, porém, imperfeita, similitudinária e participativamente. Por onde, nenhuma criatura feliz pode comunicar a outra a sua felicidade.

RESPOSTA À TERCEIRA. — O anjo beato ilumina o intelecto do homem ou mesmo do anjo inferior, quanto a certas razões das obras divinas, não porém quanto à visão da divina essência, como na primeira parte se disse6. Pois, para vê-la, todos são iluminados imediatamente por Deus.
1. XII Metaphys.
2. Q. 19 a. 5 ad 2; q. 48 a. 1 ad 5; q. 109 a. 2.
3. Q. 3 a. 4.
4. Q. 111 a. 1.
5. Q. 5, a. 5.
6. Q. 106 a. 1.