Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 4 — Se a tristeza é o sumo mal.

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O quarto discute-se assim. ― Parece que a tristeza é o sumo mal.

1. ― Pois, ao ótimo opõe-se o péssimo, como diz Aristóteles1. Ora, há um certo prazer ótimo, e é o que respeita a felicidade. Logo, há alguma tristeza que é o sumo mal.

2. Demais. ― A beatitude é o sumo bem do homem, porque é o seu último fim. Ora, ela consiste em termos tudo o que queremos e em não querermos mais nada, como já dissemos2. Logo, o sumo bem do homem é a satisfação completa da sua vontade. Ora, a tristeza é causada pelo que acontece contra a nossa vontade, como está claro em Agostinho3. Logo, a tristeza é o sumo mal do homem.

3. Demais. ― Agostinho argumenta assim: Somos compostos de duas partes ― a alma e o corpo, sendo este a inferior. Ora, o sumo bem é o que, na melhor parte é ótimo; e o sumo mal o que, na pior, é péssimo. Ora, o que tem de ótimo a alma é a sabedoria; e o que tem de péssimo o corpo é a dor. Logo o sumo bem do homem é saber e o sumo mal, sofrer a dor4.

Mas, em contrário. ― A culpa é maior que a pena, como estabelecemos na primeira parte5. Ora, a tristeza ou dor respeita a pena do pecado, assim como gozar das coisas mutáveis é o mal da culpa. Pois, diz Agostinho: Que se chama dor da alma senão o estar privado das coisas mutáveis, que gozava ou que esperava gozar? E nisto consiste totalmente o chamado mal, i. é, o pecado e a pena do pecado6. Logo, a tristeza ou dor não é o sumo mal do homem.

SOLUÇÃO. ― É impossível seja qualquer tristeza ou dor o sumo mal do homem. Pois, toda tristeza ou dor é causada por um verdadeiro mal ou por um mal aparente que é, na realidade, bem. Ora, a dor ou tristeza provocada pelo verdadeiro mal não pode ser o sumo mal, pois há algo de pior que ela, a saber, não considerar mal o que verdadeiramente o é, ou não lhe oferecer resistência. Por outro lado, a tristeza ou dor causada pelo mal aparente, que é um verdadeiro bem, não pode ser o sumo mal, porque, pior seria alheiar-mo-nos de todo do verdadeiro bem. Por onde, é impossível a tristeza ou dor ser o sumo mal do homem.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. ― Há dois bens comuns ao prazer e à tristeza, a saber: o verdadeiro juízo sobre o bem e o mal, e a ordem devida da vontade que aprova aquele e rejeita este. Por onde é claro que há, na dor ou tristeza, algum bem, cuja privação a tornaria pior; mas nem todo prazer encerra um mal cuja remoção o tornasse melhor. E por isso há algum prazer capaz de ser o sumo bem do homem, do modo pelo qual já dissemos7; ao passo que a tristeza não lhe pode ser o sumo mal.

RESPOSTA À SEGUNDA. ― O mesmo repugnar da vontade ao mal é um bem. E por isso, a tristeza ou dor não pode ser o sumo mal, por haver nela mescla de bem.

RESPOSTA À TERCEIRA. ― O nocivo ao melhor encerra maior mal do que o nocivo ao pior. Pois, chama-se mal ao nocivo, como diz Agostinho8. Por onde, o mal da alma é pior que o do corpo. E portanto, não colhe o raciocínio introduzido por Agostinho, de acordo, não com o seu sentir, mas com o de outrem.
1. VIII Ethic. (lect. X).
2. Q. 3, a. 4 arg. 5; q. 5, a. 8, arg. 3.
3. XIV De civitate Dei (cap. XV).
4. Soliloq. I (c. XII).
5. Q. 48, a. 6.
6. De Vera religione (cap. XII).
7. Q. 34, a. 3.
8. Enchir. Cap. XII.