Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 4 – Se o temor escusa do pecado.

O quarto discute–se assim. – Parece que o temor não escusa do pecado.

1. – Pois, o temor é um pecado, como se disse. Ora, o pecado não escusa do pecado, mas, ao contrário, agrava–o. Logo, o temor não escusa do pecado.

2. Demais. – Se algum temor escusasse do pecado, o temor da morte é que sobretudo o faria, temor que ataca mesmo quem tem firmeza. Ora, parece que esse temor não escusa, porque a morte, ameaçando necessariamente a todos, não deve ser temida. Logo, o temor não escusa do pecado.

3. Demais. – Todo temor o é de um mal temporal ou espiritual. Ora, o temor de um mal espiritual não pode escusar do pecado, porque longe de nos levar ao pecado, antes, nos afasta dele. Também não escusa do pecado o temor de um mal temporal; pois, como diz o Filósofo, não devemos temer a pobreza, nem a doença, nem o que quer que não proceda da nossa malícia. Logo, parece que de nenhum modo o temor escusa do pecado.

Mas, em contrário, diz uma Decretal: Quem sofreu violência e contra a vontade foi ordenado por heréticos, tem motivo para ser escusado.

SOLUÇÃO. – Como dissemos, o temor é pecado na medida em que contraria a ordem da razão. Ora a razão julga que certos males devem ser evitados, mais que outros. Por onde, quem evita os males que a razão considera como devendo ser por excelência, evitados e não evita os que são menos para se evitarem, não incorre em pecado. Assim, devemos fugir, antes, à morte do corpo do que à perda dos bens temporais. Portanto, fica isento de pecado quem prometeu ou deu alguma cousa aos ladrões, por temor da morte; mas, incorreria em pecado se desse a pecadores, deixando de lado, sem causa legítima, os bons a quem, sobretudo devia dar. Mas, não poderia ficar de todo isento de pecado quem fugindo, por medo, de males que a razão não considera como se devendo, sobretudo evitar, viesse a cair em outros que ela considera como devendo ser, sobretudo evitados. Porque esse temor seria desordenado. Ora, mais que os males do corpo, devemos evitar os da alma; e os do corpo mais que o das coisas externas. Portanto, não fica totalmente isento de pecado quem cometa pecados, que são o mal da alma, para fugir aos males do corpo, como os açoites ou a morte, ou os males das coisas externas, como a perda de dinheiro, ou de sofrer os males do corpo para evitar perder dinheiro. Mas, de certo modo, esse pecado fica diminuído; porque o ato praticado por temor é menos voluntário porque nos impõe uma certa necessidade de pratica–lo pelo medo que ameaça. Por isso, o Filósofo considera os atos praticados por medo não absolutamente voluntários mas, mistos de voluntário e involuntário.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – O temor não é escusado como pecado, mas, como involuntário.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Embora todos devamos necessariamente sofrer a morte, contudo, o fato mesmo de se nos acabar a vida do corpo é um mal e, portanto, temível.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Segundo os Estóicos, que não consideravam os bens temporais como bens do homem, resulta consequentemente que males humanos também não são os males temporais, nem por isso devem ser temidos. Mas, segundo Agostinho, esses bens temporais são os mínimos dos bens. O que também pensavam os Peripatéticos. Por isso; o que os contraria deve ser temido; não porém muito a ponto de, por amor deles, abandonarmos o bem da virtude