Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 3 – Se as observâncias ordenadas a nos fazerem prever certos fortúnios ou infortúnios são ilícitas.

O terceiro discute–se assim. – Parece que as observâncias ordenadas a nos fazerem conhecer certos fortúnios ou infortúnios não são ilícitas.

1. – Pois, entre os infortúnios do homem estão também as suas enfermidades. Ora, estas são precedidas por certos sinais que os médicos observam. Logo, praticar essas observâncias não parece ilícito.

2. Demais. – É irracional negar aquilo que constitui a, experiência comum de todos. Ora, quase todos experimentam que certos tempos ou lugares, ou palavras ouvidas, ou encontro de homens ou de animais, ou atos insólitos ou desordenados, pressagiam de certo modo algum bem ou mal futuro. Logo, praticar essas observâncias não parece ilícito.

3. Demais. – Os atos e os acontecimentos humanos são dispostos pela providência divina segundo uma certa ordem, em virtude da qual o que precede é sinal do que se segue. Por isso, o que aconteceu aos antigos padres é sinal do que se realiza em nós, como está claro no Apóstolo. Ora, observar a ordem procedente da divina providência não é ilícito. Logo, parece que também não o é observar os referidos presságios.

Mas, em contrário, Agostinho diz: Os pactos feitos com os demônios encerram mil observâncias vãs; por exemplo, se um membro saltar, se a dois amigos passeando juntos se lhes interpuser uma pedra, um cão ou uma criança; calcar o limiar quando se passa na frente da casa; voltar à cama depois de, enquanto se calça, ter espirrado; voltar à casa quando se tropeçou ao sair; quando a roupa é roída pelos ratos temer mais a suspeita de um mal futuro do que sofrer com o dano presente.

SOLUÇÃO. – Os homens praticam essas observâncias, não como causas determinadas, mas, como uns sinais dos acontecimentos futuros bons ou maus. Mas, não são praticadas como sinais dados por Deus, por não se fundarem na autoridade divina, mas provirem antes da vaidade humana com a cooperação da malícia dos demônios, que se esforçam por enredar as almas dos homens com tais causas vãs. Por onde, é manifesto que todas essas observâncias são supersticiosas e ilícitas. E parecem uns restos das observâncias idolátricas dos augúrios e dos dias faustos e infaustos. O que de certo modo pertence à adivinhação feita por meio dos astros, nos quais se fundava essa classificação dos dias. A menos que essas observâncias não escapem à razão e à arte, sendo antes, por isso, vãs e superticiosas.

DONDE.A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – As causas das doenças preexistem em nós; donde, certos sinais de moléstias futuras, que os médicos podem licitamente observar. Por isso, nada haverá de ilícito em pressagiarmos acontecimentos futuros, baseando–nos na causa deles; tal o caso do escravo que teme os açoites, quando vê o senhor encolerizado. E o mesmo poderia acontecer com quem receasse que olhos fascinantes viessem a fazer mal a uma criança – do que já tratamos no Livro Primeiro. Ora, tal não é o caso das observâncias, que agora se discutem.

RESPOSTA À SEGUNDA. – É resultado do acaso se, a princípio, a experiência ensinou aos homens que tais observâncias contêm alguma verdade. Mas, depois, quando eles se deixam enredar o espírito por essas observâncias, os demônios se aproveitam delas para enganá–las, fazendo com que se tornem cada vez mais curiosos delas e se deixem mais e mais prender pelos múltiplos laços dos seus perniciosos erros, como diz Agostinho.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Não só as palavras, mas também os atos do povo Judeu, do qual Cristo havia de nascer, foram proféticos, como diz Agostinho. Por isso nos é lícito aproveitar deles, para nossa instrução, como sinais dados por Deus. Mas, nem tudo o que é feito pela divina providência se ordena a significar o futuro. Portanto, a objeção não colhe.