Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 2 – Se a soberba é um pecado especial.

O segundo discute–se assim. – Parece que a soberba não é um pecado especial.

1. – Pois, diz Agostinho, que nela há pecado ao qual não convenha a denominação de soberba. E Próspero afirma, que nenhum pecado pode, pôde, nem poderá existir, sem a soberba. Logo, a soberba é um pecado geral.

2. Demais. – Aquilo da Escritura – Para apartar o homem da iniquidade – diz a Glosa: que ensoberbecer–se contra o Criador é transgredir lhe os preceitos, pecando. Ora, segundo Ambrósio, todo pecado é uma transgressão da lei divina e desobediência aos preceitos celestes. Logo, todo pecado é soberba.

3. Demais. – Todo pecado especial se opõe a alguma espécie de virtude. Ora, a soberba opõe–se a todas as virtudes; pois, diz Gregório: não é, de nenhum modo, só uma a virtude destruída pela soberba, a qual ataca a alma na sua totalidade e, como pestífera doença, corrompe todo o corpo. E Isidoro diz ser ela a ruína de todas as virtudes. Logo, a soberba não é um pecado especial.

4. Demais. – Todo pecado especial tem matéria especial. Ora. a matéria da soberba é geral; pois, no dizer de Gregório, um se ensoberbece com o ouro; outro, com a palavra; outro, com causas ínfimas e ‘terrenas; outro com virtudes excelsas e celestes. Logo, a soberba não é um pecado especial, mas geral.

Mas, em contrário, diz Agostinho: Quem refletir verá, segundo a lei de Deus, quanto difere dos outros pecados o pecado da soberba. Ora, um gênero não se distingue das suas espécies. Logo, a soberba não é um pecado geral, mas, especial.

SOLUÇÃO. – O pecado da soberba, pode ser considerado a dupla luz. – Primeiro na sua espécie própria fundada essencialmente no seu objeto próprio. E, a esta luz, a soberba é um pecado especial, por ter objeto especial. Pois, é o apetite desordenado da excelência própria, como dissemos. – A outra luz, pode ser considerada quanto a uma certa redundância sua sobre os outros pecados. E, então, implica uma certa generalidade, porquanto, da soberba, podem nascer todos os pecados, por dupla razão. Primeiro, em si mesma considerada; isto é, enquanto os outros pecados se ordenam ao fim da soberba, que é a excelência própria, à qual pode ordenar–se tudo o que desejamos desordenadamente. De outro modo, indiretamente e quase por acidente, isto é, removendo o obstáculo, enquanto que, pela soberba, desprezamos a lei divina, que nos proíbe pecar, segundo aquilo da Escritura: Quebraste o meu jugo, rompeste os meus laços e disseste – não servirei.

Devemos porém saber, que nessa generalidade da soberba está o fundamento de todos os vícios poderem por vezes nascer dela; não porém o de todos nascerem dela sempre. Pois, embora todos os preceitos da lei possam ser transgredidos por qualquer pecado, por causa do desprezo, que implica – desprezo próprio da soberba; contudo, nem sempre se transgride os preceitos divinos por desprezo. Mas, às vezes fazemos por ignorância; outras, por fraqueza. Por isso, diz Agostinho, praticamos muitos atos maus, sem o fazermos por soberba.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Agostinho cita essas palavras, não como sendo sua opinião, mas, a daquele contra quem disputa. Por isso, a seguir as refuta, mostrando como nem sempre pecamos por soberba. – Pode–se porem dizer, que as autoridades citadas se entendem quanto ao efeito exterior da soberba, que é transgredir os preceitos, o que está incluído em qualquer pecado; mas não, quanto ao ato interior da soberba, que é o desprezo do preceito. Pois, nem sempre o pecado implica o desprezo; porque umas vezes pecamos por ignorância e outras, por fraqueza, como dissemos.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Às vezes cometemos um pecado, quanto ao seu efeito, mas não, por afeto; assim quem por ignorância mata o próprio pai, comete um parricídio, quanto ao efeito, mas não, por afeto, por não ter a intenção de praticar. E, assim dizemos que transgredir um preceito de Deus é o nos ensoberbecermos contra Deus – quanto ao efeito, sempre; mas, nem sempre, quanto ao afeto.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Um pecado pode destruir a virtude, de dois modos. –– Primeiro, contrariando–a diretamente. E, neste sentido, a soberba não destrói nenhuma virtude, senão só a humildade; assim como qualquer outro pecado especial destrói a virtude que lhe é especialmente oposta, causando o que lhe é contrário. – De outro modo, um pecado destrói uma virtude, abusando dela. E, assim, a soberba destrói quaisquer virtudes, enquanto que, delas mesmas tira a ocasião de se exercer, como de quaisquer outras cousas que implicam excelência. Donde não se segue seja um pecado geral.

RESPOSTA À QUARTA. – A soberba supõe a noção de um objeto especial, a qual, contudo, pode se aplicar a matérias diversas. Pois, é o amor desordenado da nossa própria excelência; ora a excelência podemos encontrá–la em coisas diversas.