Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 – Se alguma graça gratuita se ordena à operação de milagres.

O primeiro discute–se assim. – Parece que nenhuma graça gratuita se ordena à operação de milagres.

1. – Pois, toda graça acrescenta alguma cousa aquele a quem é dada. Ora, a operação de milagres nada acrescenta à alma daquele a quem é conferida; pois, o simples contato com um corpo morto pode operar milagres, como no caso referido pela Escritura: Lançaram o cadáver no sepulcro de Eliseu e tanto que o cadáver tocou os ossos de Eliseu, ressuscitou o homem e se levantou sobre os seus pés. Logo, a operação de milagres não constitui nenhuma graça gratuita.

2. Demais. – As graças gratuitas, é o Espírito Santo quem as dá, conforme o Apóstolo: Há repartição de graças, mas um mesmo é o Espírito. Ora, milagres também os faz o espírito imundo, segundo o Evangelho: Levantar–se–ão falsos Cristos e falsos profetas que farão grandes sinais e prodígios. Logo, parece que a operação de milagres não constitui uma graça gratuita.

3. Demais. – Os milagres se distinguem em sinais e prodígios ou portentos, e virtudes. Logo, inconvenientemente se fala em operação de virtudes, como graça gratuita, antes que em operação de prodígios ou de sinais.

4. Demais. – A recuperação milagrosa da saúde é obra da virtude divina. Logo, não se deve distinguir a graça de curar as doenças, da operação de virtudes.

5. Demais. – A realização de milagres provém da fé, quer da fé de quem os faz, conforme aquilo do Apóstolo – Se eu tiver toda a fé até o ponto de transportar montes; quer da fé dos beneficiários dos milagres, donde o dito do Evangelho – E não fez ali muitos milagres, por causa da incredualidade dos seus naturais. Logo, se é a fé considerada uma graça gratuita, é supérfluo se lhe acrescentar a outra graça gratuita de operar sinais.

Mas, em contrário, o Apóstolo enumera entre as graças gratuitas: A outro a graça de curar as doenças, a outro a operação de milagres.

SOLUÇÃO. – Como dissemos, o Espírito Santo assiste suficientemente a Igreja nas coisas úteis à salvação à qual se ordenam as graças gratuitas. E como a ciência que alguém adquiriu, por obra divina, é necessário que chegue ao conhecimento dos outros por meio do dom das línguas e pela graça da palavra, assim também é necessário que a palavra proferida seja provada para ser acreditada. Ora, tal se realiza pela operação de milagres, segundo o Evangelho: Confirmando a sua pregação, com os milagres que a acompanhavam. E isto é racional. Pois, é natural ao homem depreender dos efeitos sensíveis a verdade inteligível. Por onde, assim como o homem, guiado pela razão natural. pode chegar a um certo conhecimento de

Deus, por meio dos efeitos naturais, assim também, por meio de certos efeitos sobrenaturais, chamados milagres, é levado a um certo conhecimento daquilo que deve crer. Por onde, a operação de milagres constituí uma graça gratuita.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Assim como a profecia se estende a tudo o que pode ser sobrenaturalmente conhecido. assim a operação de virtudes se estende a tudo o que pode ser sobrenaturalmente feito. A causa do que, é a omnipotência divina, que não pode ser comunicada a nenhuma criatura. Por onde é impossível que o principia de fazer milagres seja uma qualidade habitualmente existente na alma. Contudo, pode acontecer que. assim como a mente do profeta é levada por inspiração divina a um conhecimento sobrenatural, assim também a alma do que faz milagres seja levada a praticar um ato donde resulta um efeito milagroso, que Deus faz com o seu poder. E isso às vezes se dá depois da oração como quando Pedro ressuscitou Tabita morta, segundo se lê na Escritura. Outras vezes, sem preceder oração manifesta, mas porque Deus obra conforme a vontade do homem, como quando Pedro, censurando–lhes a sua mentira a Ananias e a Safira, deu–os à morte, segundo a Escritura. Por isso diz Gregório que às vezes, os santos fazem milagres pelos poderes, outras, por pedirem. Ora. Deus, por sua própria virtude, obra de um e de outro modo. pois usa como instrumento dos movimentos interiores do homem ou da sua palavra ou de qualquer dos seus atos externos ou ainda de qualquer contado material de um corpo, mesmo já morto. Por isso, a Escritura, depois de referir o dito de Josué – Sol detém–te sobre Gabaon – acrescenta: Não houve antes nem depois dia tão comprido, obedecendo o Senhor à voz de um homem.

RESPOSTA À SEGUNDA. – No lugar aduzido o Senhor se refere aos milagres que se farão no tempo do anticristo: deles diz o Apóstolo, que a vinda do anticristo é segundo a obra de Satanás em todo poder e em sinais e em prodígios mentirosos. E diz Agostinho: Costuma–se por em dúvida se os referidos sinais e prodígios mentirosos são assim chamados por haverem de iludir, pelas suas aparências, os sentidos dos mortais, fazendo–os crer como realizado o que não o é; ou se, sendo verdadeiros prodígios, irão iludirem–se os que neles acreditarem. Verdadeiros porém são chamados, porque a realidade mesma será verdadeira do mesmo modo que os magos do Faraó fizeram rãs e serpentes verdadeiras. Mas, não constituirão verdadeiros milagres, porque se realizarão em virtude de causas naturais, como dissemos na Primeira Parte. Ao contrário, a operação dos milagres atribuídos à graça gratuita vem da virtude divina, para utilidade dos homens.

RESPOSTA A TERCEIRA. – Duas coisas podemos considerar no milagre. – A obra feita, superior à capacidade da natureza. E neste sentido os milagres se chamam virtudes. – Depois, a razão pela qual os milagres são feitos – a manifestação de alguma verdade sobrenatural. E neste sentido se chamam comumente sinais; mas por causa da sua excelência se denominam portentos ou prodígios, quase reveladores do que está distante.

RESPOSTA À QUARTA. – A graça de curar as doenças é enumerada à parte, porque ela confere ao homem o benefício da saúde do corpo, além do benefício comum resultante de todos os milagres, que é levar os homens ao conhecimento de Deus.

RESPOSTA À QUINTA. – A realização de milagres é atribuída à fé por duas razões. Primeiro, porque se ordena à confirmação dela. Segundo, porque procede da omnipotência de Deus, em que se funda a fé. E, contudo, assim como além da graça da fé é necessária a graça da palavra para instruir na fé, assim também, é necessária a operação de milagres para confirmar nela.