Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 2 – Se as virtudes morais pertencem à vida contemplativa.

O segundo discute–se assim. – Parece que as virtudes morais pertencem à vida contemplativa.

1. – Pois, diz Gregório, que a vida contemplativa consiste em praticarmos com toda a alma a caridade para com Deus e o próximo. Ora, todas as virtudes morais, cujos atos são regulados pelos preceitos da lei, reduzem–se ao amor de Deus e ao do próximo; pois, como diz o Apóstolo, a caridade é o complemento da lei. Logo, parece que as virtudes morais pertencem à vida contemplativa.

2. Demais. – A vida contemplativa sobretudo se ordena à contemplação de Deus; assim, diz Gregório, que ela nos faz desprezar todos os cuidados e arder em desejos de contemplar o Criador face a face. Ora, a isso ninguém pode chegar senão pela pureza, produzida pela virtude moral. Pois, diz o Evangelho: Bem–aventurados os limpos de coração porque eles verão a Deus. E o Apóstolo: Segui a paz com todos e a santidade, sem a qual ninguém verá a Deus. Logo, parece que as virtudes morais pertencem à vida contemplativa.

3. Demais, – Gregório diz, que a vida contemplativa é a vida da beleza, na alma, sendo por isso Raquel quem, na Escritura, a significa, quando diz que era formosa de rosto. Ora a beleza da alma lhe advém das virtudes morais e sobretudo da temperança, como diz Ambrósio. Logo, parece que as virtudes morais pertencem à vida contemplativa.

Mas, em contrário, as virtudes morais se ordenam às ações exteriores. Ora, Gregório diz, que a vida contemplativa consiste na quietude de toda ação exterior. Logo, as virtudes morais não pertencem à vida contemplativa.

SOLUÇÃO. – O que pertence à vida contemplativa de dois modos pode lhe pertencer: essencialmente ou dispositivamente.

Essencialmente, as virtudes morais não pertencem à vida contemplativa, por ser o fim dela a contemplação da verdade. Ora, o saber, que respeita o conhecimento da verdade, vale pouco para adquirirmos as virtudes morais, como ensina o Filósofo. Por isso, diz ele também que pelas virtudes morais obtemos a felicidade ativa e não a contemplativa.

Mas, dispositivamente, as virtudes morais pertencem à vida contemplativa. Pois, o ato da contemplação, no que essencialmente consiste a vida contemplativa, fica impedido tanto pela veemência das paixões, que abstraem a intenção da alma, do Inteligível, para o sensível, como pela agitação externa. Ora, as virtudes morais impedem a veemência das paixões e acalmam a agitação produzida pela nossa preocupação com as coisas externas. Logo, as virtudes morais pertencem, dispositivamente, à vida contemplativa.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. ­ Como dissemos, a vida contemplativa tem o seu motivo na potência afetiva; e então ela supõe o amor de Deus e o do próximo. Ora, as causas motoras não atingem a essência das coisas, mas a dispõem e a aperfeiçoam. Donde se colige, que as virtudes morais pertençam essencialmente à vida contemplativa.

RESPOSTA À SEGUNDA. – A santidade, isto é, a pureza é causada pelas virtudes reguladoras das paixões, que impedem a pureza da razão. Ora, a paz é causada pela justiça, que tem por objeto os nossos atos, segundo aquilo da Escritura: A paz é a obra da justiça. No sentido em que quem se abstém de danificar os outros elimina ocasiões de litígios e perturbações. E assim as virtudes morais dispõem para a vida contemplativa, por causarem a paz e a pureza.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Como dissemos, a beleza consiste num certo esplendor e proporção devida. Ora, tanto um como outra radical mente existem na razão, à qual pertence fazer brilhar a luz e ordenar à proporção devida das cousas. Por onde, na vida contemplativa, consistente num ato da razão, existe em si e essencialmente a beleza. Por isso a Escritura diz da contemplação da sabedoria: Fiz–me amador da sua formosura. As virtudes morais, porém, só participam da beleza, na medida ela que participam da ordem da razão. E sobre tudo a temperança, repressora das concupiscências que mais obscurecem o lume da razão. Donde vem o ser a virtude da castidade a que mais torna o homem capaz da contemplação, porque são os prazeres venéreos os que mais lhe imergem a alma na matéria, como adverte Agostinho.