Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 6 – Se a religião que vaca à vida contemplativa, é superior à que exerce as obras da vida ativa.

O sexto discute–se assim. – Parece que a religião; que vaca à vida contemplativa, não é superior à que exerce as obras da vida ativa.

1. – Pois, diz uma decretal: Assim como antepomos a um bem menor um maior, assim, a utilidade geral à particular, E, neste caso, é com razão que preferimos o ensino ao silêncio. a solicitude à contemplação e o trabalho ao repouso. Ora, a melhor religião é a ordenada ao maior bem. Logo, parece que as religiões ordenadas à vida ativa são superiores às ordenadas à vida contemplativa.

2. Demais. – Toda religião se ordena à perfeição da caridade, como se estabeleceu. Ora, àquilo do Apóstolo – Ainda não tendes resistido até derramar o sangue – diz a Glosa: Não há nesta vida amor mais perfeito que o dos santos mártires, que lutaram contra o pecado até a efusão do sangue. Ora, combater até derramar sangue é próprio das religiões ordenadas à vida militar, o que constitui porém vida ativa. Logo, parece que essas religiões são as mais perfeitas.

3. Demais. – Uma religião é tanto mais perfeita, quanto mais apertada. Ora, nada impede certas religiões ordenadas à vida ativa serem de uma observância mais apertada do que as ordenadas à vida contemplativa. Logo, são superiores.

Mas, em contrário, o Senhor diz: Maria escolheu a melhor parte, significando com isso a vida contemplativa.

SOLUÇÃO. – Como dissemos, a diferença entre uma religião e outra se funda principalmente no fim, e secundariamente, no exercício. Ora, corno não pode uma coisa ser dita superior a outra senão pelo que desta difere, por isso a excelência de uma religião sobre outra se funda principalmente no fim que visa; e secundariamente, no exercício. Mas, essa dupla comparação é susceptível de ser diversamente apreciada. Assim, a fundada no fim é absoluta, porque o fim é buscado em si mesmo. Mas, a fundada no exercício é relativa, pois o exercício não é buscado em si mesmo, mas enquanto conducente a um fim. Por onde, é aquela religião superior à outra, que se ordena a um fim absolutamente superior, o qual ou é um bem maior ou abrange mais numerosos bens. Mas, as religiões que tiverem o mesmo fim, secundariamente a preeminência de uma sobre outra se funda, não na multiplicidade dos exercícios, mas na proporção destes com o fim intencionado. E assim se diz, que S. Antão opinava como devendo ter preferência o discernimento – que nos dá a moderação em tudo ­ sobre os jejuns, as vigílias e todas as observâncias semelhantes.

E portanto, devemos concluir que a obra da vida ativa é dupla. – Uma é derivada da plenitude da contemplação, como a doutrina e a pregação. Por isso, Gregório ensina que é dos varões perfeitos, que se diz, ao saírem da contemplação: Farão memória da abundância da tua suavidade. E isto é preferível à simples contemplação. Pois, assim como é mais o iluminar do que somente luzir, assim, é mais transmitir aos outros o fruto da contemplação que somente contemplar. – Mas há outra obra da vida ativa consistente totalmente nas ocupações exteriores; como dar esmolas, receber hóspedes e semelhantes, menores que a atividade contemplativa, salvo nalgum caso de necessidade, como do sobre dito se colhe.

Por onde, ocupam o sumo grau as religiões ordenadas ao ensino e à pregação. E são as mais próximas à perfeição dos bispos; pois, como nas outras coisas, o fim das primeiras se une ao princípio das segundas, conforme diz Dionísio. No segundo grau estão as religiões ordenadas à contemplação. E no terceiro, as que se ocupam com as obras externas.

Ora, em cada um desses graus, a preeminência de uma religião sobre outra depende do ato mais elevado, num mesmo gênero, a que se ela ordene. Assim, entre as obras da vida ativa, redimir cativos tem preeminência sobre dar hospitalidade e nas obras da vida contemplativa é mais importante a oração do que a lição. Pode também ter preeminência a que se ordena a mais atos que outra; ou se tiver regras mais adequadas à consecução do fim proposto.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – A decretal citada se refere à vida ativa enquanto ordenada à salvação das almas.

RESPOSTA À SEGUNDA. – As religiões instituídas para o fim da vida militar se ordenam mais diretamente à efusão do sangue dos inimigos, que à do sangue dos seus religiosos – o que sobretudo é próprio dos mártires. Mas nada impede esses religiosos, num determinado caso, alcançarem o mérito do martírio e, então, ter preferência sobre os outros; assim como, às vezes, num determinado caso, as obras da vida ativa são preferíveis à contemplação.

RESPOSTA À TERCEIRA. – O rigor das observâncias não é sobretudo o que torna uma religião recomendável, como diz S. Antão. E a Escritura pergunta: Acaso o jejum que eu escolhi consiste em afligir um homem a sua alma por um dia? Mas, à religião é contudo necessário esse rigor para macerar a carne; o que, feito sem discernimento, traz consigo o perigo de ser contraproducente, como ensina S. Antão. Por isso, não é mais perfeita uma religião por serem as suas observâncias mais rigorosas, mas por se ordenarem, com mais discernimento, ao fim que tem em vista. Assim como à continência mais eficazmente se ordena a maceração da carne pela abstinência da comida e da bebida, que satisfazem a fome e a sede, que pela privação da roupa, que nos protege contra o frio e a humidade, e do que pelo trabalho corpóreo.