Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 3 — Se o batismo deve livrar das penalidades da vida presente.

O terceiro discute-se assim. — Parece que o batismo deve livrar das penalidades da vida presente.

1. — Pois, como diz o Apóstolo, o dom de Cristo é mais forte que o pecado de Adão. Ora, pelo pecado de Adão, como diz ainda ele no mesmo lugar, a morte entrou neste mundo e por consequência todas as outras penalidades da vida presente. Logo e com muito maior razão, pelo dom de Cristo, recebido no batismo, devíamos ser liberados de todas as penalidades da vida presente.

2. Demais. — O batismo dele a culpa ori­ginal e a atual como se disse. Ora, dele a culpa atual liberando-nos totalmente do reato da pena a ela consequente. Logo, também nos libera das penalidades da vida presente, que são a pena do pecado original.

3. Demais. — Removida a causa, removido fica o efeito. Ora, a causa das referidas penali­dades é o pecado original, delido pelo batismo. Logo, não devem tais penalidades permanecer.

Mas, em contrário, aquilo do Apóstolo – Seja destruído o corpo do pecado – diz a Glosa: O batismo produz o efeito de crucificar o homem velho e destruir o corpo do pecado; não de ma­neira que a concupiscência enraizada na carne viva, com a qual nasceu, fique logo consumida e desapareça; mas de modo, que presente em nós ao nascermos, já não nos possa fazer mal quando morremos. Logo, pela mesma razão, o batismo tira as outras penalidades.

SOLUÇÃO. — O batismo tem a virtude de nos livrar das penalidades da vida presente. Não as tira porém já nesta vida, mas, pela sua virtude são tiradas ao justo, na ressurreição, quando este corpo mortal se revestir da imortalidade, na frase do Apóstolo. E isto racionalmente. – Pri­meiro, porque o batismo nos incorpora com Cristo, tornando-nos membro dele, como dissemos. Por isso deve dar-se com o membro incorporado os que deu com o chefe. Ora, Cristo desde o momento da sua concepção teve a plenitude da graça e da verdade; mas teve um corpo passível, ressusci­tado depois da paixão e da morte à vida glorio­sa. Por isto também o cristão no batismo alcança a graça para a alma, mas tem um corpo passível no qual pode sofrer por Cristo. Ressus­citará porem para uma vida impassível. Por isso diz o Apóstolo: Aquele que ressuscitou dos mor­tos a Jesus Cristo também dará vida aos vossos corpos mortais pelo seu Espírito, que habita em vós. E mais abaixo: Herdeiros verdadeiramente de Deus e coerdeiros de Cristo, se é que, todavia nós padecemos com ele para que sejamos tam­bém com ele glorificados. – Segundo, em bene­fício do exercício espiritual; isto é, a fim de, lutando contra a concupiscência e as outras paixões recebermos; a coroa da glória. Por isso, àquilo do Apóstolo: – Para que seja destruído o corpo do pecado, – diz a Glosa: Se, uma vez batizado, o homem continua a viver na carne, terá que combater a concupiscência e a vencerá com o auxílio de Deus. Luta que está simbolizada na Escritura: Estas são as gentes que o Senhor deixou para instruir por meio delas a Israel, para que depois aprendessem seus filhos a com­bater contra seus inimigos e se avezassem a pe­lejar. – Terceiro, a fim de que ninguém se apresentasse ao batismo levado do desejo de fugir aos sofrimentos desta vida, em lugar de ter em mira a glória da vida eterna. Donde o dizer o Após­tolo: Se nesta vida tão somente esperemos em Cristo, somos nós os mais infelizes de todos os homens.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Aquilo do Apóstolo – Não sirvamos, jamais ao pecado – diz a Glosa: Assim como quem se apo­dera de um inimigo atrocíssimo não o mata logo, mas o deixa viver algum tempo na vergonha e na dor, assim Cristo começou limitando primeiro a pena, para fazê-la desaparecer de todo no futuro.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Como diz a Glosa no mesmo lugar, dupla é a pena do pecado – a da geena e a temporal. A da geena Cristo aboliu completamente, de modo que os batizados e os verdadeiramente penitentes não a sintam. Quan­to à temporal, não a aboliu ainda de todo, pois, aí estão a sede, a fome e a morte. Mas, tirou-­lhe o domínio e o reinado, fazendo o homem não na temer; e por fim, no último dia, a extermi­nara de todo.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Como dissemos na Segunda Parte, o pecado original produz um contágio tal, que foi primeiro a pessoa a conta­minar a natureza, e depois a natureza, a pes­soa. Mas Cristo, na ordem inversa, restaura em primeiro lugar a pessoa para depois restaurar em todos ao mesmo tempo a natureza. Por isso, o batismo faz-nos desaparecer imediatamente a culpa do pecado original e também a pena da privação da visão de Deus, concernentes à pes­soa. As penalidades da vida presente, porém, como a morte, a fome, a sede e outras semelhan­tes respeitam a natureza, de cujos princípios são causadas por ter ela decaído da justiça original. Por isso essas deficiências só desaparece­rão na restauração derradeira da natureza, pela ressurreição gloriosa.