Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 3 — Se este sacramento é de necessidade para a salvação.

O terceiro discute-se assim. — Parece que este sacramento é de necessidade para a sal­vação.

1. — Pois, diz o Senhor: Se não comerdes a carne do filho do homem e beberdes o seu san­gue, não tereis a vida em vós. Ora, neste sacra­mento comemos a carne de Cristo e bebemos o seu sangue. Logo, sem ele não podemos ter a saúde da vida espiritual.

2. Demais. — Este sacramento é um alimen­to espiritual. Ora, o alimento corporal é necessário à saúde do corpo. Logo, também este sacramento é necessário à vida espiritual.

3. Demais. — Assim como o batismo é o sacramento da paixão do Senhor, sem o qual não pode haver salvação, assim também a Eucaris­tia. Por isso diz o Apóstolo: Todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciareis a morte do Senhor até que ele venha. Logo, como o batismo é de necessidade para a salvação, assim também a Eucaristia.

Mas, em contrário, escreve Agostinho à Bonifácio: Nem penseis que as crianças, que não receberam o corpo e o sangue de Cristo, não pos­sam ter a vida.

SOLUÇÃO. — Neste sacramento duas causas podemos considerar: o sacramento em si mesmo e a realidade dele. Ora, como dissemos, a realidade deste sacramento é a unidade do corpo místico, sem a qual não pode haver salvação. Pois, nenhum outro caminho há para a salva­ção fora da Igreja, assim como nem no dilúvio, fora da Arca de Noé, símbolo da Igreja, confor­me lemos na Escritura. Mas, como dissemos. podemos ter a realidade de um sacramento, antes de a receber, pelo desejo mesmo de o re­ceber. Por onde, antes de receber a Eucaristia, podemos alcançar a salvação, pelo desejo de a receber; assim como o batismo, pelo desejo dele, conforme foi dito. Mas há uma dupla diferença entre a Eucaristia e o batismo. — Primeiro, porque o batismo é o princípio da vida espiri­tual e a porta dos sacramentos. Ao passo que a Eucaristia é quase a consumação da vida espiri­tual e o fim de todos os sacramentos, como dis­semos; pois, pelas santificações de todos os sa­cramentos se faz a preparação para receber ou consagrar a Eucaristia. Por onde, a recepção do batismo é necessária para entrarmos na vida espiritual; enquanto que a recepção da Euca­ristia o é, para consumá-la; não para possuí-la. em absoluto, bastando que a tenhamos pelo desejo, assim como alcançamos o fim pelo desejo e pela intenção. — A outra diferença está em o batismo nos preparar para a Eucaristia. Por onde, o fato mesmo de serem as crianças ba­tizadas as dispõe, pela Igreja, a receber a Euca­ristia. E assim, do mesmo modo que crêem pela fé da Igreja, também pela intenção da Igreja desejam a Eucaristia e, por conseqüência, rece­bem-lhe a realidade. Mas ao batismo não se preparam por outro sacramento precedente. Por isso, antes de receberem o batismo, as crianças de nenhum modo o receberam em desejo, o que só o podem os adultos. Portanto, não podem receber a realidade do sacramento sem recebe­rem o sacramento. Logo, a Eucaristia não é de necessidade para a salvação do mesmo modo por que o é o batismo.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — ­Expondo as palavras do Evangelho – Esta co­mida e esta bebida, isto é, da carne e do sangue, diz Agostinho: Quer referir-se ao conjunto do corpo e dos seus membros, que é a Igreja, nos seus santos e fiéis predestinados, eleitos, justi­ficados e glorificados. E por isso o mesmo Dou­tor diz: Ninguém deve de nenhum modo pôr em dúvida que os fiéis então se tornam participantes do corpo e do sangue do Senhor quando se fazem pelo batismo membros do corpo de Cris­to e que não se lhes solve a união com esse pão e esse cálice mesmo se, antes de comerem desse pão e beberem desse cálice, partirem desta vida constituídos na unidade do corpo de Cristo.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Entre o alimento corporal e o espiritual há a diferença seguinte. O corporal se converte na substância de quem dele te nutre; e portanto tal alimento não pode concorrer para a conservação da nossa vida, se não o tomarmos realmente. Ao contrário, o alimento espiritual nos converte nele, segundo as palavras de Agostinho, onde diz que ouviu a voz de Cristo falando: Nem tu me mudarás em ti, como se fosse eu o alimento do teu corpo, mas tu é que te mudarás em mim. Podemos po­rém nos mudar em Cristo e com ele nos incorporarmos pelo desejo do coração, mesmo sem termos recebido a Eucaristia. Logo, a comparação não colhe.

RESPOSTA À TERCEIRA. — O batismo é o sa­cramento da morte e da paixão de Cristo, pois nos regenera em Cristo, por virtude da sua paixão. Ao passo que a Eucaristia é o sacra­mento da paixão de Cristo, enquanto nos faz unir perfeitamente com os sofrimentos que Cristo padeceu. Por onde, assim como o batis­mo se chama sacramento da fé, fundamento da vida espiritual, assim a Eucaristia se chama sacramento da caridade, que é o vinculo da per­feição, na frase do Apóstolo.