Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 4 — Se o sujeito próprio da penitência é a vontade.

O quarto discute-se assim. — Parece que o sujeito próprio da penitência não é a vontade.

1. — Pois, a penitência é uma espécie de tristeza. Ora, a tristeza como a alegria, pertence ao apetite concupiscível. Logo, a penitên­cia pertence ao concupiscível.

2. Demais. — A penitência é uma sorte de vindicta, como diz Agostinho. Ora a vindicta pertence ao irascível, porque a ira é o desejo da vindicta. Logo, parece que a penitência perten­ce ao irascível.

3. Demais. — O passado é o objeto próprio da memória, segundo o prova o Filósofo. Ora a penitência tem por objeto o passado, como se disse. Logo, a penitência tem na memória o seu sujeito.

4. Demais. — Nenhum ser age onde não está. Ora a penitência exclui os pecados de to­das as potências da alma. Logo, a penitência está em qualquer potência da alma, e não só na vontade.

Mas, em contrário. – A penitência é uma espécie de sacrifício, segundo aquilo da Escritu­ra: Sacrifício para Deus é o espírito atribulado. Ora, oferecer um sacrifício é ato da vontade, segundo ainda a Escritura: Eu te oferecerei um sacrifício voluntário. Logo, a penitência está na vontade.

SOLUÇÃO. — Podemos encarar a penitência à dupla luz. – Primeiro como paixão. E assim, sendo uma espécie de tristeza, tem no concupis­cível o seu sujeito. – Segundo como virtude. E então, como dissemos, é uma espécie de jus­tiça. Ora, o sujeito da justiça como estabele­cemos na Segunda Parte, é a vontade, apetite racional. Por onde é manifesto, que a penitên­cia, enquanto virtude tem na vontade o seu su­jeito. E o seu ato próprio é o propósito feito a Deus de emendarmos o que contra ele come­temos.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — A objeção colhe considerando-se a penitência como paixão.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Tomar por paixão, vingança de outrem é próprio do irascível. Mas desejar ou tirar vingança, racionalmente, de nós mesmos ou de outrem, é próprio da vontade.

RESPOSTA À TERCEIRA. — A memória é uma potência apreensiva do passado. Ora, a penitência não pertence à potência apreensiva, mas à apetitiva, que supõe o ato da apreensiva. Por onde, a penitência não reside na memória, mas a pressupõe.

RESPOSTA À QUARTA. — A vontade, como esta­belecemos na Primeira Parte, move todas as outras potências da alma. Não há pois nenhu­ma contrariedade se a penitência, tendo na von­tade o seu sujeito, produza certos efeitos em cada uma das potências da alma.