Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 9 ─ Se o fogo da conflagração final há de envolver os réprobos.

O nono discute-se assim. ─ Parece que o fogo da conflagração final não há de envolver os réprobos.

1. – Pois, àquilo da Escritura ─ Purificará os filhos de Levi ─ diz a Glosa: Conforme lemos na Escritura, haverá duas espécies de fogo ─ o purificador dos eleitos, que precederá ao juízo; e o que cruciará os réprobos. Ora, este último é o fogo do inferno, que envolverá os maus; e o primeiro é o da conflagração final. Logo, o fogo da conflagração final não será o que há de envolver os réprobos.

2. Demais. ─ O fogo do juízo final servirá a Deus, purificando o mundo. Logo, merecerá, como todos os outros elementos, uma recompensa: tanto mais quanto é o nobilíssimo deles. Portanto, parece que não se lhe deveria atribuir a função de ser no inferno a pena dos condenados.

3. Demais. ─ O fogo, que envolverá os maus, será o do inferno. Ora, foi ele preparado para os condenados, desde o princípio do mundo. Por isso diz o Evangelho: Ide, malditos, para o fogo eterno, que esta aparelhado para o diabo. E noutro lugar da Escritura: Aparelhado está o lugar de Tophet desde ontem, aparelhado pelo rei. Comenta a Glosa: Desde ontem, i. é, desde o princípio; Tophet, i. é, o Vale da Geena. Ora, o fogo da conflagração final não foi preparado desde o principio, mas será gerado com concurso do fogo natural. Logo, não será ele fogo do inferno, que envolverá os réprobos.

Mas, em contrário, desse fogo diz a Escritura: O fogo abrasará em derredor os seus inimigos.

2. Demais. ─ A Escritura diz: De diante dele saia um rio de fogo e arrebatado. E a Glosa: Para arrastar os pecadores à geena. Ora, a autoridade citada se refere ao fogo da conflagração universal, como o demonstra uma glosa do lugar aludido: para punir os maus e purificar os bons. Logo, o fogo da conflagração universal será precipitado no inferno com os réprobos.

SOLUCÃO. ─ A purificação e a renovação do mundo totalmente se ordenará à purificação e à renovação do homem. Portanto, a purificação e a renovação do mundo há de necessariamente corresponder à purificação e à renovação do gênero humano. Ora, esta última terá lugar quando forem os maus separados dos bons. Donde o dizer o Evangelho: cujo pá está na sua mão; e ele alimpará a sua eira e recolherá o trigo no seu celeiro; i. é, os eleitos; e queimará as palhas, i. é, os réprobos, em um fogo que nunca se apaga. Por onde, nessa purificação universal, tudo o torpe e contaminado será precipitado com os réprobos no inferno; do contrário, tudo o que for belo e nobre será reservado à glória dos eleitos no céu. Assim, o mesmo se dará com o fogo da conflagração final, como diz Basílio aquilo da Escritura: Voz do Senhor que divide a chama do fogo. Pois, tudo o que o fogo tiver de ardência e de comburente e de grosseiro descerá aos infernos como pena dos réprobos; o que porém for nele súbtil e lúcido ficará no céu para glória dos eleitos.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. ─ O fogo purificador dos eleitos, antes do juízo, será idêntico ao da conflagração do mundo, embora muitos digam o contrário. Pois, a conveniência exige que, sendo parte do mundo, o homem seja purificado pelo mesmo fogo que ao mundo purificará. E quando se distinguem dois fogos ─ o purificador dos bons e o atormentador dos maus ─ distintos tanto pela sua função como, de certo modo, pela substância, isso é porque o fogo purificador não será precipitado no inferno, na totalidade da sua substância, como se disse.

RESPOSTA À SEGUNDA. ─ A recompensa do referido fogo estará em que perderá a sua parte grosseira, que será precipitada no inferno.

RESPOSTA À TERCEIRA. ─ Assim como a glória dos eleitos, depois do juízo, será maior que antes, assim também a pena dos réprobos. Por onde, assim como a luminosidade será acrescentada à parte superior para aumentar a glória dos eleitos, assim também tudo quanto as criaturas tiverem de impuro será precipitado no inferno para aumentar a miséria dos condenados. Por onde, nenhum inconveniente há em ao fogo dos condenados no inferno, preparado desde o início, se lhes acrescentar outro fogo.