Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 2 ─ Se os cabelos e as unhas ressurgirão com o corpo.

O segundo discute-se assim. ─ Parece que os cabelos e as unhas não ressurgirão com o corpo.

1. ─ Pois, assim como os cabelos e as unhas são gerados pela superfluidade da nutrição, assim também a urina, o suor e fezes semelhantes. Ora, estas não ressurgirão com o corpo. Logo, nem os cabelos e as unhas.

2. Demais. ─ Entre as outras superfluidades geradas pela alimentação, constitui por excelência a natureza humana, em sua realidade, o sêmen, superfluidade necessária. Ora, o corpo humano não ressurgirá com o sêmen. Logo e com muito maior razão, não hão de ressurgir os cabelos e as unhas.

3. Demais. ─ Nenhuma perfeição tem a alma racional que não tenha também a alma sensível. Ora, os cabelos e as unhas não tem a perfeição da alma sensível, pois por eles não sentimos, como o explica Aristóteles. Logo, como o corpo não ressurgirá senão para as perfeições da alma racional, parece que os cabelos e as unhas não ressurgirão.

Mas, em contrário, o Evangelho: Não se perderá um cabelo da vossa cabeça.

2. Demais. ─ Os cabelos e as unhas foram dados como ornato para o homem. Ora, os corpos humanos, sobretudo os dos eleitos, devem ressurgir com todos os seus ornatos. Logo, devem ressurgir com os cabelos.

SOLUÇÃO. ─ A alma está para o corpo animado como a arte para o artificiado, e para as partes dele como a arte para os seus instrumentos; por isso o corpo animado se chama orgânico. Ora, a arte usa de certos instrumentos para executar a obra intencionada; e esses são os que lhe servem primariamente à intenção. Mas também se serve de outros instrumentos para a conservação dos instrumentos principais; e esses lhe servem secundariamente à intenção. Assim, a arte militar se serve da espada para a guerra; e da bainha, para a conservação da espada. Do mesmo modo, das partes do corpo animado umas ─ como o coração, o fígado, as mãos e os pés ─ se ordenam a executar as operações da alma; outras porém, à conservação das demais partes, como as folhas servem para cobrir os frutos. Assim também os cabelos e as unhas servem para resguardar as outras partes do corpo humano. Por isso pertencem secundariamente à perfeição do corpo humano, embora não primariamente. E como o corpo ressurgirá em toda a perfeição da sua natureza, por isso também os cabelos e as unhas hão de ressurgir com ele.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. ─ A natureza expulsa aquelas superfluidades que para nada são úteis e portanto não contribuem para a perfeição do corpo humano. Mas procede diferentemente com aquelas superfluidades que conserva para a geração dos cabelos e das unhas, de que precisa para a conservação dos membros.

RESPOSTA À SEGUNDA. ─ O sêmen não é necessário, como os cabelos e as unhas, para a perfeição do indivíduo, mas só para a da espécie.

RESPOSTA À TERCEIRA. ─ Os cabelos e as unhas se nutrem e crescem; por onde é claro que participam de uma certa, perfeição. O que não poderia dar-se se não fossem de algum modo partes perfeitas da alma. E como o homem não tem senão uma alma única, que é a racional, resulta que as unhas e os cabelos recebem da alma racional a sua perfeição. Embora não a ponto de participarem da atividade sensível, como também se dá com os ossos, dos quais sabemos que ressurgirão e que pertencem à integridade do indivíduo.