Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 ─ Se a claridade é propriedade dos corpos gloriosos.

O primeiro discute-se assim. ─ Parece que a claridade não é propriedade dos corpos gloriosos.

1. ─ Pois, como diz Avicena, todo corpo luminoso é constituído de partes pérvias. Ora, as partes do corpo glorioso não são pérvias, pois, nuns predomina a terra e noutro as carnes e os ossos. Logo, os corpos gloriosos não serão lúcidos.

2. Demais. ─ Todo corpo lúcido oculta o que lhe está por trás; por isso uma luz eclipsa outros; e uma chama impede ver a que lhe está atrás. Ora, os corpos gloriosos não ocultarão o seu interior; pois, como diz Gregório aquilo de Job ─ Não se lhe igualará o ouro nem o cristal ─ lá, na pátria celeste, a corpulência dos membros não ocultará os pensamentos de um aos olhos dos outros; e também a própria harmonia do corpo será patente aos olhos corpóreos. Logo, os corpos gloriosos não serão lúcidos.

3. Demais. ─ A luz e a cor exigem no seu sujeito disposições contrárias; pois, como o ensina Aristóteles, a luz é a superfície visível de um corpo sem contornos determinados, ao passo que a cor supõe um corpo de limites fixos. Ora, os corpos gloriosos terão cor; porque, como diz Agostinho, a beleza de um corpo consiste na proporção das partes acompanhada de uma certa suavidade de colorido. E da beleza não podem ficar privados os corpos gloriosos. Logo, os corpos gloriosos não serão lúcidos.

4. Demais. ─ Se os corpos gloriosos fossem dotados de claridade, desta deveriam participar igualmente todas as suas partes, assim como todas terão a mesma impassibilidade, subtileza e agilidade. Ora, isto não é possível, porque uma parte terá maior disposição à claridade, que outras, como os olhos, que as mãos, o espírito que os ossos, e os humores que as carnes ou os nervos. Logo, parece que esses corpos não hão de ser lúcidos.

Mas, em contrário, o Evangelho: Refulgirão os justos como o sol, no reino de seu Pai. E noutro lugar da Escritura: Refulgirão os justos e como faíscas por um canavial discorrerão.

2. Demais. ─ Diz o Apóstolo: Semeia-se em vileza, ressuscitará em glória. O que se refere à claridade, como o demonstra: o que está dito antes, quando compara a glória dos ressurrectos à claridade das estrelas. Logo, os corpos dos santos ressurgirão luminosos.

SOLUÇÃO. ─ Que os corpos dos santos hão de ser luminosos depois da ressurreição, devemos admiti-lo baseados na autoridade da Escritura, que assim o promete. A causa porém dessa claridade uns a buscam na quinta essência, que então será predominante na constituição do corpo humano. Mas, como isto é absurdo, consoante dissemos muitas vezes, é melhor dizermos que essa claridade será causada pela redundância da glória da alma no corpo. Pois, uma cousa é recebida ao modo de ser do sujeito e não ao do agente. Por isso, a claridade da alma espiritual será recebida corporalmente pelo corpo. Por onde, conforme a maior claridade da alma, por causa do seu maior mérito, assim diferirá essa claridade da do corpo, como diz o Apóstolo. E assim, pelo corpo glorioso se conhecerá a glória da alma, assim como através de um vaso de vidro vemos a cor do corpo nele contido, como diz Gregório, comentando aquilo de Job. ─ Não lhe igualará o ouro nem o cristal.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. ─ Avicena se refere aqueles corpos cuja claridade resulta da natureza dos seus elementos componentes. Ora, não será essa a do corpo glorioso, luminoso, antes, pelo mérito da virtude.

RESPOSTA À SEGUNDA. ─ Gregório compara os corpos luminosos com o ouro por causa da claridade deles; e ao cristal, porque serão translúcidos. Donde devemos concluir que serão ao mesmo tempo translúcidos e luminosos. E o fato de um corpo luminoso não ser translúcido lhe provém de ser a claridade causada por partes lúcidas densas; ora, a densidade repugna à transparência. Mas a claridade dos corpos gloriosos terá outra causa, como se disse; e a sua densidade não lhes impede serem transparentes, como a densidade do vidro também não o priva de ser translúcido. ─ Mas outros dizem que os corpos gloriosos são comparáveis ao vidro, não por serem transparentes, mas por semelhança. Pois,assim como podemos ver através de um vaso de vidro o seu conteúdo, assim a glória da alma poderá ser vista através do corpo glorioso a que estiver unida. Mas a primeira opinião é mais aceitável, porque explica melhor a dignidade do corpo e é mais consoante às palavras de Gregório.

RESPOSTA À TERCEIRA. ─ A glória do corpo não destrói, mas aperfeiçoa a natureza. Por isso o corpo conservará a cor que lhe é própria, em virtude da natureza das suas partes. Mas será acrescida pela glória da alma, assim como também vemos os corpos coloridos por natureza rebrilharem ao esplendor do sol ou por outra causa extrínseca ou intrínseca.

RESPOSTA À QUARTA. ─ Assim como a claridade da glória redunda da alma no corpo ao modo deste, e nele está de modo diferente por que o está na alma, assim redundará ela em cada uma das partes do corpo ao modo destas. Por onde, não há inconveniente em terem essas diversas partes claridades diversas, enquanto as suas naturezas as tornam diversamente dispostas a recebê-la. Nem há semelhança com os outros dotes do corpo, que não encontram nas diversas partes do corpo disposições diversas.