Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 3 ─ Se um corpo glorioso é necessariamente visto por um corpo não glorioso.

O terceiro discute-se assim. ─ Parece que um corpo glorioso será necessariamente visto por um corpo não-glorioso.

1. ─ Pois, os corpos gloriosos serão lúcidos. Ora, um corpo lúcido ao mesmo tempo que se manifesta também manifesta os outros corpos. Logo, os corpos gloriosos serão necessariamente vistos.

2. Demais. ─ Todo corpo, que oculta os corpos colocados por trás de si, é necessariamente visto, por isso mesmo que oculta os referidos corpos colocados por detrás. Ora, os corpos gloriosos ocultarão à vista tudo o que lhes estiver colocado por trás; pois, serão corpos dotados de cor. Logo, serão necessariamente vistos.

3. Demais. ─ Como a quantidade é inerente ao corpo, assim a qualidade, que o torna visível. Ora, a quantidade não dependerá da vontade, a ponto de um corpo glorioso poder tê-la maior ou menor, a seu talante. Logo, nem a qualidade, que o torna visível, pode, a seu bel prazer, ser invisível.

Mas, em contrário. ─ Nosso corpo será glorificado à semelhança do de Cristo, depois da ressurreição. Ora, o corpo de Cristo ressurrecto não era necessariamente visto; ao contrário, em Emaús desapareceu à vista dos discípulos, como o refere o Evangelho. Logo, também um corpo glorificado não será necessariamente visto.

2. Demais. ─ Os ressurgidos terão o corpo plenamente obediente à alma. Logo, um corpo glorioso poderá deixar-se ver ou não, conformo lhe aprouver.

SOLUÇÃO. ─ A visibilidade de um objeto depende da sua ação sobre a vista. Mas o fato mesmo de um objeto agir ou não sobre outro, que lhe é estranho, não lhe acarreta nenhuma alteração. Por onde, sem mudar nenhuma propriedade pertencente à perfeição de um corpo glorificado, pode ele deixar-se ver ou não. Por isso, no poder da alma glorificada estará deixar ver ou não o seu corpo, assim como a alma pode exercer sobre o corpo qualquer ação que quiser; do contrário, o corpo glorioso não seria um instrumento totalmente obediente ao agente principal.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. ─ A claridade em questão dependerá do corpo glorioso de modo que ele possa manifestá-la ou ocultá-la.

RESPOSTA À SEGUNDA. ─ A cor de um corpo não lhe impede a transparência senão modificando a vista; porque a vista não pode ser modificada ao mesmo tempo por duas cores de modo a percebê-las ambas perfeitamente. Ora, a cor de um corpo glorioso dependerá perfeitamente da alma, que poderá, por meio da cor, modificar ou não a vista, como lh’o aprouver. Por onde, no poder do corpo glorioso estará ocultar ou não outro corpo que lhe esteja atrás.

RESPOSTA À TERCEIRA. ─ A quantidade é um atributo inerente ao corpo glorioso; nem poderia ela alterar-se por vontade da alma, sem alterar-se intrinsecamente o corpo glorioso, o que lhe repugnaria à impassibilidade. Não há, pois, símil entre a quantidade e a visibilidade, porque também a qualidade que o torna visível não lh’o pode a alma subtrair conforme lhe aprouver; só a sua ação é que pode ser suspensa, podendo então ocultar-se o corpo, conforme o quiser a alma.