Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 ─ Se haverá um juízo universal.

O primeiro discute-se assim. ─ Parece que não haverá nenhum juízo universal.

1. ─ Pois, como diz a Escritura, não julgará Deus duas vezes a mesma cousa. Ora, presentemente Deus julga as obras de cada um; pois, depois da morte atribui a cada qual penas ou recompensas, conforme o mérito; e também premeia ou pune a certos nesta vida, pelas suas boas ou más obras. Logo, parece que não haverá outro juízo.

2. Demais. ─ Nenhum juízo é precedido pela execução da sentença. Ora, a sentença do juízo divino discerne entre os que devem alcançar o Reino ou ser dele excluídos, como lemos no Evangelho. Logo, como depois da morte já uns alcançaram o reino eterno e outros foram excluídos dele para sempre, parece que não haverá outro juízo.

3. Demais. ─ É necessário levar uma questão a juízo quando não se sabe como decidi-la. Ora, antes do fim do mundo, cada condenado já teve proferida a sua condenação, e a cada santo a sua beatitude. Logo, parece não haver necessidade de nenhum outro juízo.

Mas, em contrário. ─ O Evangelho diz: Os habitantes de Nínive se levantarão no dia do juízo com esta geração e a condenarão. Logo, depois da ressurreição haverá o juízo.

2. Demais. ─ O Evangelho diz: Os que obraram bem sairão para a ressurreição da vida; mas os que obraram mal sairão ressuscitados para a condenação. Logo, parece que depois da ressurreição haverá ainda o juízo.

SOLUÇÃO. – Assim como a operação concerne ao princípio que dá às cousas o ser, assim o juízo concerne à condução delas ao seu termo final. Ora, há duas espécies de obras de Deus. Uma pela qual deu, no princípio, o ser as cousas, instituindo a natureza e determinando tudo o necessário ao complemento dela; e dessa obra diz a Escritura que Deus descansou. Outra obra de Deus é a pela qual governa as criaturas, da qual diz o Evangelho: Meu Pai até agora não cessa de obrar, e eu obro também incessantemente. Do mesmo modo também se distingue em duplo juízo divino, mas em ordem inversa. Um, correspondente à obra do governo, que não pode existir sem o juízo. E por esse juízo cada qual é julgado pelas suas obras, cada uma em particular, não só no concernente a cada indivíduo, mas também no concernente ao governo universal. Donde o ser diferido o prêmio de um em utilidade dos outros, como diz o Apóstolo, e o redundar a pena de um em benefício dos demais. Daí a necessidade de um outro juízo, o universal, correspondente, por oposição, à produção primeira do ser das cousas; de modo que, assim como então tudo proveio imediatamente de Deus, assim também no juízo receberá o mundo o seu último complemento, cada um recebendo finalmente o que lhe é estritamente devido. Por isso no juízo final a justiça divina se manifestará em todo o seu esplendor e universalidade, pondo em evidência o que agora fica oculto, porque às vezes os atos de um são aplicados em utilidade de outro, mais do que o permitiriam as exigências das obras aparentes. E assim também haverá então a separação completa entre os bons e os maus, porque depois já não será possível concorrerem aqueles para o proveito destes, nem ao inverso, proveito que, nesta vida, justifica provisoriamente a mistura dos bons com os maus, enquanto as cousas deste mundo são governadas pela providência divina.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. ─ Todo homem ao mesmo tempo é uma pessoa singular e faz parte de todo o gênero humano. Por isso será objeto de um duplo juízo. Um particular, a que responderá depois da morte, e pelo qual receberá a recompensa do que fez neste mundo, embora não totalmente, porque só a alma, sem o corpo, é que terá essa recompensa. A outro juízo responderá como parte de todo o gênero humano, no mesmo sentido em que dizemos de alguém que é julgado pela justiça humana quando o é a comunidade a que pertence. Portanto, também cada um será julgado então quando, no juízo universal de todo o gênero humano, se fizer a completa separação entre os bons e os maus. Nem por isso Deus julgará duas vezes a mesma causa, porque não infligirá duas penas ao mesmo pecado; mas a pena não completamente infligida antes do juízo será completada no juízo final depois que os ímpios forem punidos tanto no corpo como na alma simultaneamente.

RESPOSTA À SEGUNDA. ─ A sentença própria proferida no juízo universal será a separação completa entre os bons e os maus, que não se realizará antes dele. Mas nem quanto a sentença particular de cada um, o juízo produzirá plenamente o seu efeito; porque também os bons, depois do juízo universal serão mais plenamente premiados, quer pela glória de que participará o corpo, quer por estar completo o número dos santos; assim como os maus sofrerão maiores tormentos pela pena infligida também ao corpo e por estar completo o número dos condenados a serem punidos, pois, quanto maior o número dos que arderem tanto mais arderão.

RESPOSTA À TERCEIRA. ─ O juízo universal concerne mais diretamente à universalidade dos homens que a cada um deles em particular, como dissemos. Pois, embora cada um, antes do juízo, tenha já um conhecimento certo da sua condenação ou do seu prêmio, contudo nem todos lhe conhecem a condenação ou a recompensa que recebeu. Daí a necessidade do juízo universal.