Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 ─ Se o mundo será renovado.

O primeiro discute-se assim. ─ Parece que o mundo não será nunca renovado.

1. ─ Nada existirá senão o que já antes existia especificamente, conforme aquilo da Escritura: Que é o que foi? É o mesmo que o que há de ser. Ora, o mundo não teve nunca outra disposição, diferente da atual, quanto às suas partes essenciais, aos gêneros e às espécies. Logo, nunca será renovado.

2. Demais. ─ Toda inovação é uma alteração. Ora, é impossível o universo alterar-se; porque todo alterado se reduz ao ser alterante, mas não alterado, sujeito contudo ao movimento local e impossível de ser colocado fora do universo. Logo, não é mundo susceptível de alteração.

3. Demais. ─ A Escritura diz: Deus descansou no sétimo dia de toda a obra, que fizera; o que significa, expõe os Santos Padres, que cessou de criar novos seres. Ora, nessa primeira Instituição não impôs às criaturas um modo de ser diverso do que agora tem naturalmente. Logo, nunca tiveram outro modo de ser.

4. Demais. ─ A atual disposição dos seres do universo é natural. Se, portanto, fossem mudados para outra disposição, esta última lhes contrariaria a natureza. Ora, o que não é natural e é acidental não pode ser perpétuo, como o demonstra Aristóteles. Por consequência, essa nova disposição as criaturas teriam de a perder. Daí a necessidade de se admitir, com Empédoeles e Orígenes, uma transformação circular do mundo: depois deste mundo haveria outro, e em seguida outro e assim por diante.

5. Demais. ─ A glória da renovação é dada como prêmio à criatura racional. Ora, onde não há mérito, não pode haver prêmio. Logo, como as criaturas insensíveis não podem merecer, resulta que não serão renovadas.

Mas, em contrário, a Escritura: Eis aqui estou eu que crio uns céus novos e uma terra nova, e não persistirá na memória o que antes existiu. E noutro lugar: Vi um céu novo e uma terra nova; porque o primeiro céu e a primeira terra se foram.

2. Demais. ─ Uma habitação deve ser adaptada ao habitante. Ora, o mundo foi feito para ser habitação do homem. Logo, deve-lhe ser adaptada. Ora, o homem será renovado. Portanto, também o mundo.

3. Demais. ─ Todo animal ama ao seu semelhante, diz a Escritura; donde se conclui ser a semelhança a causa do amor. Ora, o homem tem certa semelhança com o universo, sendo por isso chamado pequeno mundo. Logo, o homem ama naturalmente o mundo universo. Portanto, lhe deseja o bem. Logo, para o desejo do homem ser satisfeito, também o universo deve ser renovado.

SOLUÇÃO. ─ Cremos que todos os seres corpóreos foram feitos para o homem, e por isso dizemos que todos lhe estão sujeitos. Ora, podem lhe servir de dois modos: sustentando-lhe a vida do corpo e fazendo-o progredir no conhecimento de Deus, pois, as cousas de Deus invisíveis ele as vê consideradas pelas obras que foram feitas, como diz o Apóstolo. Ora, do primeiro serviço prestado pelas criaturas o homem glorificado de nenhum modo precisará; pois, o poder divino, glorificando-lhe imediatamente a alma, tornar-lhe-á o corpo, por meio dela, absolutamente incorruptível. Do segundo ministério também não precisará, para o conhecimento intelectual, porque com esse conhecimento os santos verão imediatamente a essência de Deus. Mas, os olhos carnais não poderão alcançar essa visão da essência. Por isso, a fim de terem a consolação de gozarem, na medida do que lhes for possível, da visão divina, contemplarão a divindade nos seus efeitos corporais, onde aparecerão indícios manifestos da majestade divina; sobretudo na carne de Cristo, depois nos corpos dos santos e enfim em todos os mais corpos. Será portanto necessário todos os corpos receberem maior influência da bondade divina, que neste mundo; não para os fazer variar de espécie, mas para lhes acrescentar à perfeição da glória. E tal será a renovação do mundo. Por onde, ao mesmo tempo será o mundo renovado e o homem glorificado.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. ─ Salomão se refere, nesse lugar, ao curso natural das cousas, como se vê pelo que acrescenta: Nada de novo debaixo do sol. Ora, como o sol se move circularmente, por força o que lhe está sujeito a ação deve também de certo modo mover-se em círculo. E isso consiste em o que já existir voltar de novo à existência, na mesma espécie, mas com individualidade diferente, como diz Aristóteles. Ora, o que já está na vida da glória não depende do sol.

RESPOSTA À SEGUNDA. ─ Essa objeção se funda na alteração natural, produzida por um agente natural, cuja ação se produz fatalmente. Pois, tal agente não pode infundir nenhuma disposição nova nos seres que lhe estão sujeitos, salvo se for modificado no mesmo sentido. Ora, o que Deus faz procede da sua livre vontade por onde, sem haver em Deus mudança nenhuma, sua vontade pode introduzir no universo ora uma ora outra alteração, que, portanto, não se reduzirão a nenhum princípio movido, mas a Deus, princípio imóvel.

RESPOSTA À TERCEIRA. ─ Quando se diz que Deus no sétimo dia cessou de fazer novas criaturas, significa isso que nada depois foi feito que já antes – não preexistisse por alguma semelhança genérica ou específica; ou pelo menos no seu principio seminal; ou enfim em potência virtual. Ora, afirmo que a futura renovação do mundo já preexistia nas obras dos seis dias, numa como remota semelhança, na glória e na graça dos anjos. Preexistiu também em potência virtual, então infundida na criatura, para receber da ação divina essa renovação.

RESPOSTA À QUARTA. ─ Essa nova disposição não será natural nem contra a natureza; mas superior à natureza, como a graça e a glória são superiores à natureza da alma. E emanará de um agente eterno que eternamente a fará subsistir.

RESPOSTA À QUINTA. ─ Embora os corpos insensíveis não possam merecer essa glória, propriamente falando, o homem contudo mereceu que ela fosse conferida a todo o universo, redundando-lhe isso em aumento da sua glória. Assim como pode um merecer vestir-se de roupas mais ornadas, sem que essas vestes de nenhum modo merecessem tais ornatos.