Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 4 ─ Se ao menos à pena dos cristãos porá termo a divina misericórdia.

O quarto discute-se assim. ─ Parece que ao menos à pena dos cristãos porá termo a divina misericórdia.

1. ─ Pois, diz o Evangelho: O que crer e for batizado será salvo. Ora, isto se aplica a todos os cristãos. Logo, todos os cristãos serão finalmente salvos.

2. Demais. ─ Diz o Evangelho: O que come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna. Ora, essa é uma comida e uma bebida comum a todos os cristãos. Logo, todos os cristãos serão finalmente salvos.

3. Demais. ─ Diz o Apóstolo: Se a obra de alguém se queimar, padecerá ele detrimento; mas o tal será salvo, se bem desta maneira por intervenção do fogo. E se refere aqueles que tiveram o fundamento da fé cristã. Logo, todos esses serão finalmente salvos.

Mas, em contrário, o Apóstolo: Os iníquos não hão de possuir o reino de Deus. Ora, certos cristãos são iníquos. Logo, nem todos os cristãos alcançarão o reino celeste. Portanto, serão eternamente castigados.

2. Demais. ─ Diz a Escritura: Melhor lhes era não ter conhecido o caminho da justiça, do que depois de o ter conhecido, tornar para trás, deixando aquele mandamento santo que te fora dado. Ora, os que não conhecem o caminho da verdade serão punidos eternamente. Logo, também os cristãos que retrocederam do caminho conhecido.

SOLUÇÃO. ─ Como refere Agostinho, na obra citada, certos foram de opinião que, não todos os homens, mas só os cristãos, serão os perdoados da pena eterna. Mas essa opinião tem modalidades diversas.

Assim, uns ensinaram que todos os que receberam os sacramentos da fé serão imunes da pena eterna. ─ Mas isto é contrário à verdade, porque certos recebem os sacramentos da fé sem na terem, e sem ela é impossível agradar a Deus. Por isso pretenderam outros, que só aqueles ficarão livres da pena eterna que receberam os sacramentos da fé e conservaram a fé católica. ─ Mas contra isso vai o fato de certos, que professaram a fé católica, abandonarem-na em seguida. E esses, longe de merecerem uma pena menor, são dignos de um castigo maior, conforme o lugar da Escritura: Melhor lhes era não ter conhecido o caminho da justiça, do que depois de o ter conhecido, tornarem para trás. ─ Além disso, é claro que os heresíarcas que, abandonando a fé católica, ensinaram novas heresias, que aqueles que desde o princípio seguiram uma heresia determinada.

Por isso opinaram outros que só aqueles são imunes da pena eterna, que perseveraram na fé católica até a morte, por mais pecados que tivessem cometido. ─ Mas isto contraria manifestamente à Escritura, que diz: A fé sem obras é morta. E noutro lugar: Nem todo o que me diz ─ Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus. ─ E em muitos outros lugares onde ameaça os pecadores com as penas eternas. Por onde, nem todos os que perseverarem na fé até à morte ficarão isentos da pena eterna, salvo se, na hora de morrerem, forem finalmente absolvidos dos pecados cometidos.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. ─ O Senhor, no lugar citado, se refere à fé formada, que obra pelo amor; e quem nessa morrer será salvo. Ora, a essa fé se opõe, não somente o erro da infidelidade, mas também qualquer pecado mortal.

RESPOSTA À SEGUNDA. ─ Essas palavras do Senhor se entendem, não daqueles que lhe comem sacramentalmente a carne e que, tomando-a indignamente, comem e bebem para si a condenação, como diz o Apóstolo. Mas se referem aos que a comem espiritualmente, unidos a Cristo pela caridade; união essa operada pela manducação sacramental, quando dignamente recebemos o sacramento. Por onde, considerada em si mesma a virtude do sacramento, conduz à vida eterna, embora possa um, mesmo depois de o ter recebido dignamente, ser privado do fruto da eterna vida, pelo pecado.

RESPOSTA À TERCEIRA. ─ Por fundamento, nas palavras do Apóstolo, se entende a fé formada. E quem eleva um edifício de pecados veniais sobre esse fundamento padecerá detrimento, porque Deus há de puni-lo por eles; mas o tal será salvo finalmente, se bem desta maneira por intervenção do fogo, ou das tribulações temporais, ou das penas do purgatório, depois da morte.