Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 3 – Se Deus pode reduzir algum ser ao nada.

O terceiro discute–se assim. – Parece que Deus não pode reduzir nenhum ser ao nada.

1. – Pois, diz Agostinho, Deus não é causa da tendência para o não ser. Ora, tal se daria se reduzisse ao nada qualquer criatura. Logo, Deus não pode reduzir nenhum ser ao nada.

2. Demais. – Deus, pela sua bondade, é a causa da existência das coisas, pois, como diz Agostinho, nós existimos porque Deus é bom. Ora, Deus não pode deixar de ser bom. Logo, não pode fazer com que as coisas deixem de existir, o que se daria se as reduzisse ao nada.

3. Demais. – Por alguma ação é que Deus haveria de reduzir seres ao nada. Ora, tal não é possível; pois, como toda ação tem como termo algum ser, também a ação do corruptor teria como termo um ser gerado, porque a geração de um é a corrupção de outro. Logo, Deus não pode reduzir nenhum ser ao nada.

Mas, em contrário, diz a Escritura: Castiga–me, Senhor; porém seja isto segundo o teu juízo, e não no teu furor, para que não suceda que tu me reduzas a nada.

SOLUÇÃO. – Alguns ensinaram que Deus produziu as coisas agindo por necessidade de natureza. E a ser isso verdade, Ele não poderia reduzir nenhum ser ao nada, assim como não pode sofrer mutação na sua natureza. Mas, como já se demonstrou antes, essa posição é falsa e absolutamente contrária à fé católica, que ensina que Deus produziu os seres por livre vontade, conforme a Escritura: quantas coisas quis, todas fez o Senhor. Logo, o comunicar Deus a existência à criatura depende da sua vontade; nem, como já se disse, conserva a existência das coisas de modo diverso do pelo qual continuamente lhas dá. Por onde, assim como, antes de as coisas existirem, podia não lhes outorgar a existência e, assim, não as fazer; do mesmo modo, depois de havê–las feito, pode deixar de lhes influir a existência e, então elas deixariam de existir, o que seria reduzi–las ao nada.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. O não ser não tem, por si, causa; porque nada pode ser causa senão na medida em que é ente, pois este, propriamente falando, é a causa da existência. Por onde, Deus não pode ser a causa da tendência para o não ser; essa tendência as criaturas a trazem em si mesmas, como vindas do nada. Mas, por acidente, Deus pode ser causa da redução das coisas ao nada, subtraindo–lhes a sua ação.

RESPOSTA À SEGUNDA. – A bondade de Deus é causa das coisas, não por necessidade de natureza, porque essa bondade não depende das coisas criadas; mas age por livre vontade. Por onde, assim como Deus podia, sem prejuízo da sua bondade, não dar a existência às coisas; assim também, sem detrimento da mesma, pode não lhas conservar.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Não por uma ação, mas por cessar de agir, é que Deus reduziria um ser ao nada.