Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 — Se os anjos são enviados para ministério.

(Hebr., cap. I, lect. VI).

O primeiro discute-se assim. — Parece que os anjos não são enviados para ministério.

1. — Pois, qualquer missão é para algum determinado lugar. Ora, os atos intelectuais não determinam lugar, porque o intelecto abstrai deste e do tempo. E como os atos angélicos são intelectuais, resulta que os anjos não são enviados, para realizar os seus atos.

2. Demais. — O céu empírico é lugar pertencente à dignidade dos anjos. Se pois, eles nos são mandados, em ministério, resulta que algo lhes perece da dignidade, o que é inadmissível.

3. Demais. — As ocupações exteriores impedem a contemplação da sabedoria e por isso diz a Escritura: O que menos se distrai com outra qualquer ocupação alcançará a sabedoria. Se pois os anjos são enviados para ministérios exteriores, resulta que se desviam da contemplação. Ora, toda a felicidade deles consiste na contemplação de Deus. Se portanto, fossem enviados, diminuir-se-lhes-ia a beatitude, o que é inadmissível.

4. Demais. — É próprio do inferior ministrar, dizendo por isso Escritura: Qual é maior, o que está sentado à mesa, ou o que serve? Não é maior o que está sentado à mesa? Ora, os anjos são superiores a nós, na ordem da natureza. Logo, não são enviados para o nosso ministério.

Mas, em contrário, diz a Escritura: Eis que eu enviarei o meu anjo, que vá adiante de ti.

SOLUÇÃO. — Do sobredito pode ser manifesto, que certos anjos são enviados por Deus para ministério. Pois, como já se estabeleceu, quando se tratou da missão das Pessoas divinas, diz-se que é enviado aquele que de algum modo, procede de alguém, de maneira que comece a estar onde antes não estava, ou, onde antes já estava, mas de outro modo. Assim, diz-se que o Filho é enviado, bem como o Espírito Santo, por ser procedente, originariamente, do Padre; de maneira que começa a ser, de novo, i. é, pela graça ou pela natureza assumida, onde já antes estava, pela presença da Deidade. Pois, é próprio de Deus estar em toda parte; sendo agente universal, a sua virtude atinge todos os entes, estando por isso em todas as cousas, como antes já se disse. Ao passo que a virtude do anjo, agente particular, não atinge todo o universo, mas, atingindo um ponto, não atinge outro, e assim, estando num lugar, está em outro. Ora, é manifesto, pelo que já se disse, que a criatura corpórea é administrada pelos anjos. Por onde, quando alguma cousa se deve fazer por algum dos anjos, em relação a alguma criatura corpórea, nessa ocasião é que o anjo aplica a esse corpo a sua virtude e, então nele começa a estar. Mas como tudo isso procede de ordem divina, resulta, conforme o que foi dito, que o anjo é enviado por Deus. A ação porém que o anjo enviado por Deus, exerce, procede de Deus, como do primeiro princípio, por cuja vontade e autoridade os anjos operam, reduz-se a Deus, como ao último fim. E essa é a razão de ser do ministro, que é um como instrumento inteligente; ora, o instrumento é movido por outro e a sua ação se ordena para outro. Por onde, as ações dos anjos chamam-se ministérios, e por isso se diz que eles são enviados em ministério.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — De dois modos se diz que uma operação é intelectual. De um modo, consistindo como que no próprio intelecto, p. ex., a contemplação; e, tal operação não tem determinado lugar; antes, segundo Agostinho, também nós, enquanto temos pela mente, algo de externo, não estamos neste mundo. De outro modo, diz-se que uma ação é intelectual, quando regulada e ordenada por algum intelecto. E assim, é manifesto, que as operações intelectuais às vezes, tem lugares determinados.

RESPOSTA À SEGUNDA. — O céu empíreo pertence à dignidade do anjo, por certa congruência; pois, é congruente que o corpo supremo seja atribuído à natureza, que está acima de todos os corpos. Mas nem por isso o anjo recebe qualquer dignidade, do céu empíreo. Por onde, quando neste não está atualmente, nada se subtrai à dignidade angélica; assim como nada perde o rei, quando não está atualmente sentado no sólio real, que lhe é congruente à dignidade.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Em nós a ocupação exterior impede a pureza da contemplação, porque nos aplicamos à ação pelas virtudes sensitivas, cujos atos, quando praticados, retardam a atividade da virtude intelectiva. Mas a atividade exterior do anjo, regulada só pela operação intelectual, de nenhum modo lhe impede a contemplação; pois, a atividade que é regra e razão de outra não impede a esta última, mas a coadjuva. E por isso Gregório diz, que os anjos não se exteriorizam de modo a serem privados das alegrias da contemplação interna.

RESPOSTA À QUARTA. — Os anjos, nas suas ações externas, servem principalmente a Deus e, secundariamente a nós. Não porque nós lhe sejamos superiores, absolutamente falando, mas porque qualquer homem ou anjo é superior a toda criatura, quando, aderindo a Deus, torna-se, com Deus, um só espírito. Donde o dizer a Escritura: Tendo cada um aos outros por superiores.