Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 1 – Se a alegria é um efeito da caridade em nós.

O primeiro discute-se assim. – Parece que a alegria não é efeito da caridade em nós.

1. – Pois, da ausência da coisa amada resulta antes a tristeza que a alegria. Ora, Deus, que amamos com caridade, está ausente de nós, enquanto vivemos nesta vida; pois, enquanto estamos no corpo, vivemos ausentes do Senhor, como diz a Escritura. Logo, a caridade não nos causa, mais a tristeza que a alegria.

2. Demais. – Pela caridade, sobretudo merecemos a bem-aventurança. Ora, entre as condições pelas quais merecemos a bem-aventurança está o pranto, próprio da tristeza, conforme a Escritura: Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados, Logo, é efeito da caridade antes a tristeza, que a alegria.

3. Demais. – A caridade é uma virtude distinta da esperança, como do sobredito resulta. Ora, a alegria é causada pela esperança, conforme aquilo da Escritura: Na esperança, alegres. Logo, não é causada pela caridade.

Mas, em contrário, a Escritura: A caridade de Deus esta derramada em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado. Ora, a alegria é causada em nós pelo Espírito Santo, conforme a Escritura: O reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça e paz e gozo no Espírito Santo. Logo, a caridade é causa de alegria.

SOLUÇÃO. – Como já dissemos, quando tratamos das paixões, do amor procede a alegria e a tristeza, mas de modo contrário. Pois, a alegria é causada pelo amor, quer por causa da presença do bem amado, quer porque no bem amado mesmo existe e é conservado o bem próprio dele. E este segundo amor é o que constitui por excelência o amor de benevolência, que leva anos alegrarmos com o amigo próspero, embora ausente. Ao contrário, porém, do amor resulta a tristeza, quer pela ausência do amado, ou porque o amado, a quem queremos o bem, está dele privado, ou é de qualquer modo deprimido. Ora, a caridade é o amor de Deus, cujo bem é imutável, porque ele é a sua bondade mesma. E por isso mesmo que é amado, está no amante por um nobilíssimo efeito seu, conforme aquilo da Escritura: Aquele que permanece na caridade permanece em Deus e Deus nele. Logo, a alegria espiritual que temos relativamente a Deus é causada pela caridade.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ Enquanto estamos no corpo, somos considerados como vivendo ausentes do Senhor, por comparação com a presença que o manifesta a certos, por uma espécie de visão. Por isso, o Apóstolo acrescenta, no mesmo lugar: Porque andamos por fé, e não na visão. Mas, ele está presente aos que o amam, mesmo nesta vida, habitando neles pela graça.

RESPOSTA À SEGUNDA. – O pranto, que merece a bem-aventurança, refere-se aquilo que é a ela contrário. Por onde, a mesma razão que leva a caridade a causar esse pranto, produz a alegria espiritual que tem Deus como objeto; pois, pela mesma razão por que gozamos de um bem, contristamo-nos com o que lhe é contrário.

RESPOSTA À TERCEIRA. – De dois modos podemos ter alegria espiritual fundada em Deus: gozando do bem divino em si mesmo considerado; ou gozando-o enquanto participado por nós. A primeira alegria é a melhor e procede principalmente da caridade. Mas, a segunda procede também da esperança, que nos dá a expectativa da fruição do bem divino; embora também essa fruição, perfeita ou imperfeita, seja obtida conforme a medida da caridade.