Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 – Se a mentira sempre se opõe à verdade.

O primeiro discute–se assim. – Parece que a mentira nem sempre se opõe à verdade.

1. – Pois, termos opostos não podem coexistir. Ora, a mentira pode coexistir com a verdade; assim, quem fala verdade pensando dizer uma falsidade, mente, como diz Agostinho. Logo, a mentira não se opõe à verdade.

2. Demais. – A virtude da verdade não consiste só em palavras, mas também, em atos; pois, segundo o Filósofo, essa virtude é a que nos leva a exprimir a verdade pelas nossas palavras e pela nossa vida. Ora, a mentira só consiste em palavras; pois, diz Agostinho, que a mentira consiste em dar uma significação falsa às palavras. Logo, parece que a mentira não se opõe diretamente à virtude da verdade.

3. Demais. – Agostinho diz, que a culpa de quem mente está no desejo de enganar. Ora, isto não se opõe à verdade, mas antes, à benevolência ou à justiça. Logo, a mentira não se opõe à verdade.

Mas, em contrário, diz Agostinho: Não duvidamos que mente quem diz uma falsidade com a intenção de enganar. Por isso, uma afirmação falsa proferida com intenção de enganar é manifesta mentira. Ora, isto se opõe à verdade. Logo, a mentira se opõe à verdade.

SOLUÇÃO. – Os atos morais se especificam de dois modos: pelo objeto e pelo fim; pois, o fim é objeto da vontade, que é o primeiro motor na ordem dos referidos atos. Ora, o objeto da potência, movida pela vontade, é o objeto próximo do ato voluntário e está, relativamente ao ato da vontade, para o fim, como o material, para o formal, conforme do sobredito resulta. Mas, segundo dissemos, a virtude da verdade, e os vícios opostos implicam a manifestação por meio de sinais. E essa manifestação ou enunciado é um ato da razão, que relaciona o sinal com a coisa assinalada; pois, toda representação consiste numa comparação de natureza propriamente racional. Por onde, embora os brutos também possam manifestar–se, não visam a manifestação. em si mesma; mas, agem por instinto natural, de tal modo que daí resulta a manifestação. Na medida, pois, em que a manifestação ou o enunciado é um ato moral, nessa mesma há de este ser voluntário e dependente da intenção da vontade. Ora, o objeto próprio da manifestação ou da enunciação é a verdade ou a falsidade. A intenção, porém, da vontade desordenada é susceptível de dupla consequência: a enunciação falsa e o efeito próprio dessa enunciação, que consiste em enganar a outrem. Se, pois, esses três fatores concorrerem enunciação falsa, vontade de fazê–la e, enfim, intenção de enganar ­ então, há falsidade material, por que dizemos uma falsidade; formal, pela vontade de a dizermos; e efetiva, pela vontade de a inculcar. Contudo, a noção da mentira deriva da falsidade formal, isto é, da vontade de enunciarmos uma falsidade. Por isso, a mentira é assim chamada por ser uma locução contra a mente.

Por onde, quem enuncia uma falsidade, crendo–a verdadeira, diz uma falsidade material mas não, formal, porque a falsidade não está na sua intenção e, portanto, o que diz não é mentira, na sua noção perfeita. Pois, o que está fora da nossa intenção é acidental e portanto não funda uma diferença específica. Quanto a quem profere uma mentira formal, tendo a vontade de dizer uma falsidade, embora diga verdade, contudo esse ato é voluntário e moral, é essencialmente falso e acidentalmente verdadeiro; e portanto constitui uma espécie de mentira. Mas, o ato de quem pretende induzir em falsidade a opinião alheia, enganando, não constitui uma espécie de mentira, mas, a plenitude desta. Tal o caso dos seres naturais, que se especificam pela forma, mesmo se esta não produzir o seu efeito, como se dá com o corpo pesado, por exemplo, conservado em suspensão e assim violentamente impedido de cair conforme à exigência da sua forma.

Por onde, é claro que a mentira, direta e formalmente, se opõe à verdade.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÁO. – Uma coisa é julgada, mais pelo que tem de formal e essencial, do que pelo que tem de material e acidental. Por onde, mais se opõe à verdade, como virtude moral, quem fala verdade com intenção de mentir, do que quem mente com a intenção de falar verdade.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Como diz Agostinho, as palavras ocupam o lugar principal entre os sinais. Por isso, quando se diz que a mentira é uma palavra com significação falsa, pela designação de palavra se entende qualquer sinal. Por onde, não estaria isento de mentira quem tivesse a intenção de significar uma falsidade por meio de sinais.

RESPOSTA À TERCEIRA. – O desejo de enganar constitui a mentira na sua plenitude e não uma espécie dela; assim como nenhum efeito pertence à espécie da sua causa.