Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 – Se toda simulação é pecado.

O primeiro discute–se assim. – Parece que nem toda simulação é pecado.

1. – Pois, diz o Evangelho, que o Senhor fingiu que ia para mais longe. E Ambrósio escreve que Abraão falava capciosamente com os escravos, quando disse: Eu e meu filho, apressando–nos por chegar acolá, depois que adorarmos voltaremos a vós. Ora, fingir e falar capciosamente supõe simulação. Mas, não se pode dizer que em Cristo e em Abraão houve pecado. Logo, nem toda simulação é pecado.

2. Demais. – Nenhum pecado é útil. Ora, diz Jerônimo, comentando um lugar do Apóstolo: Jeú rei de Israel, que matou os sacerdotes de Baal, fingindo querer adorar os ídolos, nos dê o exemplo da simulação útil e feita em tempo oportuno. E, como se lê também na Escritura, Davi demudou o seu rosto diante de Aquis, rei de Geth. Logo, nem toda simulação é pecado.

3. Demais. – O bem é contrário ao mal. Logo, se simular o bem é mal, simular o mal será bem.

4. Demais. – A Escritura diz, contra certos: Fizeram, como os de Sodoma. pública ostentação do seu pecado e não no encobriram. Ora, o encobrir o pecado supõe a simulação. Logo, não usar de simulação às vezes é repreensível. Ao contrário, evitar o pecado nunca é repreensível. Portanto, nem sempre a simulação é pecado.

Mas, em contrário, aqui dos dois males, é menos grave pecar abertamente do que simular santidade. Ora, pecar abertamente é sempre pecado. Logo, a simulação sempre é pecado.

SOLUÇÃO. – Como se disse, pela virtude da verdade devemos nos manifestar por sinais externos, tais como somos. Ora, sinais externos não são só as palavras, mas também Os atos. Ora, assim como é contrário à verdade e constitui mentira, dizermos uma coisa e pensarmos outra, assim também a contraria e constitui propriamente simulação, exprimirmos por sinais, atos ou coisas ao contrário do que pensarmos. Por onde, a simulação propriamente é uma mentira, que consiste em sinais significativos de atos externos. Nem importa que se minta por palavras ou por qualquer outro ato, como dissemos. Por onde, sendo toda mentira pecado, como estabelecemos consequentemente, também toda simulação o é.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Diz Agostinho: Nem tudo o que fingimos é mentira, senão só o que fingimos sem significação; pois, quando o que fingimos tem alguma significação, não há mentira mas, verdade figurada. E acrescenta o exemplo das figuras de linguagem, ideias quais imaginamos uma coisa não para dá–Ia como tal, mas para exprimir outra causa, que queremos significar. – Assim, pois, o Senhor fingiu ir para mais longe, porque dispôs os seus movimentos como os ele quem queria assim agir, para significar figuradamente, outra coisa, a saber, que estava longe da fé que eles professavam, como diz Gregório. Ou segundo explica Agostinho, havendo de ir para mais longe, ao subir ao céu, conservava–se retido na terra, como se fosse hóspede. – Quanto a Abraão também ele falou figuradamente. Por isso, Ambrósio diz que Abraão profetizou o que ignorava; pois, por si, dispunha–se a voltar, depois de imolado o filho, mas, o Senhor, pela boca de Abraão, revelou o que preparava. – Por onde, é claro que nenhum deles simulou.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Jerônimo usa da palavra simulação em sentido lato, para significar qualquer ficção. – Quanto à demudação do rosto ele Davi, deve ser compreendida como ficção figurada, conforme o expõe a Glosa, no título do salmo que começa – Bendizei o Senhor em todo o tempo. – Quanto à simulação de Jeú, não há necessidade de escusá.Ia do pecado ou da mentira; porque procedeu mal não abandonando a idolatria de Jeroboão. Mas a Escritura o louva e Deus o remunerou temporalmente, não pela simulação mas, pelo zelo com que destruiu o culto de Baal.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Certos dizem que ninguém pode simular que é mau; porque, praticando boas obras, ninguém pode simular a maldade; e se praticar o mal, será mau. – Mas, esta razão nada vale. Pois, podemos simular o mal praticando obras que, não sendo em si mesmas más, incluem, entretanto uma espécie de mal. E, contudo, a simulação em si mesma é um mal, quer em razão da mentira, quer, em razão do escândalo, Embora, pois, quem simula se torne mau pela sua simulação, não se torna mau entretanto pela malícia com que dissimula. E como a dissimulação em si mesma é má, e não por causa do seu conteúdo, quer tenha por objeto o bem, quer o mal constitui recado.

RESPOSTA À QUARTA. – Assim como mentimos proferindo palavras que não exprimem a realidade, mas não, quando calamos a verdade, o que às vezes é lícito, assim também há simulação quando por atos ou por meios materiais exprimimos o que não é; mas não, se deixamos de exprimir o que é. Por onde, é possível ocultar o pecado cometido, sem simulação. E neste sentido devemos entender as palavras de Jerônimo, no mesmo lugar, quando diz que o segundo remédio, depois do naufrágio é ocultar o pecado, para, que os outros não tirem daí ocasião de escândalo.