Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 8 – Se a justiça particular tem matéria especial.

O oitavo discute-se assim. – Parece que a justiça particular não tem matéria especial.

1. – Pois, aquilo da Escritura – O quarto destes rios é o Eufrates – diz a Glosa: Eufrales quer dizer frugífero; nem se diz para que ponto ele corre, porque a justiça pertence a todas as partes da alma. Ora, isto não seria, se ela tivesse matéria especial; porque toda matéria especial pertence a alguma potência especial. Logo, a justiça particular não tem matéria especial.

2. Demais. – Agostinho diz que são quatro as virtudes da alma, que constituem a nossa vida espiritual, a saber: a temperança, a prudência, a fortaleza e a justiça; e diz ser a quarta a justiça, que se encontra em todas as outras. Logo, a justiça particular, que é uma das quatro virtudes cardeais, não tem matéria especial.

3. Demais. – A justiça dirige suficientemente o homem nas suas relações com outrem. Ora, por todas as coisas desta vida o homem pode ordenar-se a outrem. Logo, a matéria da justiça é geral e não, especial.

Mas, em contrário, o Filósofo diz que há uma justiça particular, que respeita especialmente às relações da vida.

SOLUÇÃO. – Tudo o que pode ser retificado pela razão constitui matéria da virtude moral, que é definida pela razão reta, como está claro no Filósofo. Ora, a razão pode retificar tanto as paixões inferiores da alma, como as ações exteriores e as coisas externas que servem ao uso do homem. Mas, nas ações exteriores e nas coisas externas, pelas quais os homens estabelecem relações entre si, o que se leva em conta é a relação entre um homem e outro; nas paixões interiores, porém, o que se considera é a retificação do homem, em si mesmo. Por onde, a justiça, ordenando-nos para outrem, não abrange toda a matéria da virtude moral, mas, só a que respeita às seções exteriores e às coisas, encarando-as no ponto de vista especial de fundarem as relações dos homens entre si.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ A justiça pertence, certo, a uma parte da alma na qual tem o seu sujeito, a saber, à vontade que, pelo seu império, move todas as artes da alma. E assim, a justiça, não diretamente, mas por uma como redundância, pertence a todas as outras partes da alma.

RESPOSTA A SEGUNDA. – Como já dissemos, as virtudes cardeais tem uma dupla acepção: ora, são consideradas virtudes especiais relativas a matérias determinadas; ora, significam certos modos gerais da virtude. E é neste último sentido que fala Agostinho. Pois, diz que a prudência é o conhecimento das coisas que devemos desejar e das que devemos evitar; a temperança consiste em refreiar a cobiça na busca do que deleita temporalmente; a fortaleza é a firmeza da alma na luta contra os sofrimentos temporais; a justiça abrange-as a todas, é o amor de Deus e do próximo, amor que é a raiz comum de todos os nossos atos relativos a outrem.

RESPOSTA À TERCEIRA. – As paixões interiores, que são parte da matéria moral, não se ordenam, em si mesmas, para outrem, ordenação que implica a ideia especial de justiça. Mas, os efeitos delas, isto é, as operações exteriores, se ordenam para outrem. Donde não se conclui que a matéria da justiça seja geral.