Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 2 – Se no culto de Deus pode haver supérfluo.

O segundo discute–se assim. – Parece que nada pode haver de supérfluo no culto de Deus.

1. – Pois, diz a Escritura: Por mais que glorifiqueis ao Senhor quanto puderdes, nunca lhe dareis a competente glória. Ora, o culto divino se ordena à glorificação de Deus. Logo, nada pode haver nele de supérfluo.

2. Demais. – O culto externo é uma manifestação do culto interno, pelo qual adoramos a Deus com fé, esperança e caridade, como diz Agostinho. Ora, a fé, a esperança e a caridade nada podem ter de supérfluo. Logo, nem o culto divino.

3. Demais. – O culto divino nos leva a dar a Deus o que dele recebemos. Ora, todos os nossos bens nós os recebemos de Deus. Logo, fazendo tudo o que pudermos para reverenciar a Deus nada de supérfluo haverá no culto divino.

Mas, em contrário, Agostinho diz, que o bom cristão e verdadeiro repele as ficções supersticiosas, mesmo das Sagradas Letras. Ora, as Sagradas Letras nos ensinam a cultuar a Deus. Logo, mesmo no culto divino pode haver alguma supérflua superstição.

SOLUÇÃO. – Uma coisa pode ser supérflua de dois modos. – Primeiro considerado na sua quantidade absoluta. E, neste sentido, nada pode ter de supérfluo o culto divino, pois não podemos fazer nada que não seja menos do que devemos a Deus. De outro modo, pode haver supérfluo por quantidade proporcional, quando uma causa não é proporcionada ao seu fim. Ora, o fim do culto divino consiste em o homem cultuar a Deus e se lhe sujeitar de alma e corpo. Portanto, nada terá de supérfluo o culto divino sempre que obrarmos para glorificar a Deus, para lhe sujeitarmos o nosso espírito e também o corpo, refreando as nossas concupiscências, conforme aos mandamentos de Deus e da Igreja, e ao costume daqueles com quem convivemos. Mas podemos também praticar atos, que em si mesmo não contribuem para a glória de Deus, nem para a elevação do nosso espírito para ele, nem para refrear a concupiscência desordenada da carne. Ou que estão em desacordo dos mandamentos de Deus e da Igreja; ou vão contra o costume comum, que, segundo Agostinho, deve ser tido como lei. E então tudo isso deve ser considerado supérfluo e supersticioso; pois, consistindo só em práticas externas, não constitui o culto divino interno. Por isso, Agostinho aplica o dito da Escritura – Está o reino de Deus dentro de vós – aos supersticiosos, que se ocupam principalmente com o exterior.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – A glorificação de Deus, em si mesma, implica em trabalharmos para a sua glória: o que exclui a superfluidade ela superstição.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Pela fé, pela esperança e pela caridade, a alma se sujeita a Deus; por isso nada pode haver nelas de supérfluo. Mas o mesmo não se dá com Os atos externos, que às vezes não as incluem.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A objeção colhe quanto ao supérfluo considerado na sua quantidade absoluta.