Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 4 – Se é o homem a causa da idolatria.

O quarto discute–se assim. – Parece que o homem não é a causa da idolatria.

1. – Pois, o que há no homem é a natureza, ou a virtude, ou a culpa. Ora, a natureza humana não pode ser a causa da idolatria, porque a natureza racional do homem antes ensina que há um só Deus e que não se deve prestar culto divino aos mortos nem aos seres inanimados. Do mesmo modo, a virtude do homem não pode ser causa da idolatria, pois, como diz o Evangelho, não pode a árvore boa dar maus frutos. Também não o pode a culpa, porque, no dizer da Escritura, o vulto dos ídolos abomináveis é a causa, o princípio e o fim de todo o mal. Logo, de nenhum modo o homem é causa da idolatria.

2. Demais. – O que tem a sua causa no homem sempre nele existe. Ora, nem sempre existiu a idolatria, da qual se lê que foi inventada na segunda idade do mundo ou por Nemrod, que, como se conta, obrigava os homens a adorar o fogo; ou por Nino, que fez adorar a imagem de seu pai Belo. E entre os Gregos, como refere Isidoro, Prometeu foi o primeiro que fez imagens humanas, de barro. Mas os Judeus dizem que quem primeiro fez imagem de barro foi lsmael. Portanto, a idolatria cessou, em grande parte, na sexta idade do mundo. Logo, não é o homem a causa dela.

3. Demais. – Agostinho diz: No princípio só pelo ensinamento deles, isto é, dos demônios, que se podia saber o que cada um deles deseja, o que abomina, a que invocação atende e com que outra é atraído; daí vieram as artes mágicas e os autores delas. Ora, a idolatria tem a mesma razão de ser. Logo, não é o homem a causa da idolatria.

Mas, em contrário, a Escritura: A vaidade dos homens foi o que os introduziu no mundo.

SOLUÇÃO. – A idolatria tem dupla causa. Uma, dispositiva, que depende do homem, de três modos. – Primeiro, pelo afeto desordenado, que levou os homens a atribuírem honras divinas aqueles a quem muito amavam ou veneravam. E esta causa assinala a Escritura quando diz: Penetrado um pai de sensível mágoa, fez a imagem de seu filho, que cedo lhe fora arrebatado; e aquele, que então havia falecido como homem, começa agora a adorar como deus. É no mesmo lugar acrescenta–se que os homens, ou pelo afeto, ou servindo os soberanos, impuseram às madeiras e às pedras o nome incomunicável, isto é, da divindade. – Segundo, porque o homem, como diz o Filósofo, naturalmente se deleita com os produtos representativos da imaginação. Por isso, os homens rudes, primitivos, vendo imagens humanas expressivamente feitas por artistas hábeis, prestaram–lhe culto divino. Donde o dizer a Escritura: Se algum artífice hábil cortasse do mato algum tronco direito e pela perícia da sua arte lhe desse figura e o afeiçoasse em forma de homem e, fazendo–lhe votos, o consultasse a respeito da sua fazenda e de seus filhos e de suas bodas. – Terceiro, por desconhecimento do verdadeiro Deus, cuja excelência os homens não considerando, prestaram culto divino a certas criaturas, levados pela beleza ou virtude delas. E por isso diz a Escritura: Nem considerando as suas obras reconheceram quem era o artífice, mas reputaram por deuses governadores do universo, ou ao fogo ou ao espirito ou ao ar comovido ou ao giro das estrelas ou à imensidade das águas ou ao sol e à lua.

Quanto à outra causa, a completiva da idolatria, ela está nos demônios que provocaram para si o culto dos homens transviados, dando respostas por meio dos ídolos e fazendo outras causas tidas pelos homens como miraculosas. Por isso a Escritura diz: Todos os deuses das gentes são demônios.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – A causa dispositiva da idolatria, por parte do homem, é a sua natureza deficiente, pela ignorância do intelecto ou pelo afeto desordenado, como se disse. O que também implica a culpa. Mas também se diz ser a idolatria o princípio e o fim de todo o mal, por não haver nenhum gênero de pecado que ela por vezes não produza. Ou por provocação expressa, como causa; ou por dar a ocasião, como princípio; ou como fim, fazendo cometerem–se certos pecados, como as imolações de homens, as mutilações dos membros e outros semelhantes, para cultuar os ídolos. E contudo certos pecados podem preceder a idolatria, predispondo os homens para ela.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Na primeira idade do mundo não havia idolatria; pela memória recente da criação, que ainda fazia perdurar o conhecimento de Deus uno, no espírito dos homens. E, na sexta idade ela foi expulsa pela virtude da doutrina de Cristo, que triunfou do diabo.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A objeção colhe quanto à causa completiva da idolatria.