Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 5 – Se a perfeição religiosa requer a obediência.

O quinto discute–se assim. – Parece que a perfeição religiosa não requer a obediência.

1. – Pois, o estado religioso requer as obras superrogatórias, a que nem todos estão obrigados. Ora, a obedecer os prelados estão todos obrigados, segundo aquilo do Apóstolo: Obedecei a vossos superiores e sede–lhes sujeitos. Logo, parece que a perfeição religiosa não requer a obediência.

2. Demais. – Parece que a prática da obediência é própria sobretudo dos que devem se submeter à direção de outrem; e é assim própria dos sem discernimento. Ora, o Apóstolo diz: O mantimento sólido é dos perfeitos, daqueles que pelo costume tem os sentidas exercitados para discernir o bem e o mal. Logo, parece que a obediência não é exigida pelo estado dos perfeitos.

3. Demais. – Se a perfeição religiosa exigisse a obediência, a todos os religiosos haveria ela de convir. Ora, não convém a todos; pois, certos levam uma vida solitária, sem superiores a que obedeçam; e também os prelados das religiões parece não estarem adstritos à obediência. Logo, parece que a perfeição religiosa não requer a obediência.

4. Demais. – Se a religião exigisse o voto de obediência, consequentemente os religiosos estariam obrigados a obedecer em tudo aos seus superiores, assim como pelo voto de continência estão obrigados a se abster de todo ato sexual. Ora, não estão obrigados a obedecer em tudo, como se estabeleceu, quando se tratou da virtude da obediência. Logo, a religião não requer o voto de obediência.

5. Demais. – Os serviços mais agradáveis a Deus são os que lhe prestamos liberal e não necessariamente, segundo o Apóstolo: Não com tristeza nem por força. Ora, o que fazemos por obediência, por necessidade de preceito o fazemos. Logo, são mais dignas de louvor as obras espontaneamente feitas; e portanto o voto de obediência não é próprio à religião, por meio da qual buscamos uma vida superior.

Mas em contrário. – A perfeição religiosa sobretudo, consiste na imitação de Cristo, segundo o Evangelho: Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens e dá–o aos pobres; depois vem e segue–me. Ora, o que sobretudo devemos imitar em Cristo é a sua obediência, segundo aquilo do Apóstolo: Feito obediente até a morte. Logo, parece que a obediência está incluída na perfeição religiosa.

SOLUÇÃO. – Como dissemos, o estado religioso é uma disciplina ou um exercício tendente à perfeição. Ora, quem se instrui ou se exerce para chegar a um determinado fim, há de necessariamente seguir a direção de outrem, pelo arbítrio do qual é instruído e dirigido, quase um discípulo sob a direção do mestre. Por onde, é necessário os religiosos, no atinente à vida religiosa, sujeitarem–se à instrução e às ordens de outrem. Donde o dizer um cânone: A vida dos monges implica a ideia de sujeição e de aprendizagem. Ora, às ordens e às instruções de outrem nós nos sujeitamos pela obediência. Logo, a perfeição religiosa requer a obediência.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Obedecer aos prelados, quando a necessidade da virtude o exige, não é obra superrogatória, mas comum a todos; mas, obedecer, pelo exigir o exercício da perfeição, só compete propriamente aos religiosos. E esta obediência está para aquela como o universal, para o particular. Pois, os que vivem no século conservam para si uma parte de seus bens e dão outra a Deus; e por aí se sujeitam à obediência dos prelados. Mas, os que vivem em religião se consagram a “Deus a si mesmos com tudo o que têm, como do sobredito resulta. Por onde, a obediência a que estão sujeitos é universal.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Como diz o Filósofo, os que se exercitam em certas obras chegam a ter um hábito que, uma vez adquirido, lhes torna sobremaneira fácil à prática, dessas obras. Assim também os que ainda não atingiram a perfeição chegam a obtê–la por meio da obediência. E aos que já a alcançaram torna–se­lhes mui pronta a obediência; não que precisem ser dirigidos para adquirirem a perfeição, mas por se manterem, desse modo, na perfeição já adquirida.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A sujeição dos religiosos se refere principalmente aos bispos, que estão para ees como os que aperfeiçoam estão para os aperfeiçoados. O que está claro em Dionísio, quando diz: A ordem dos monges deve estar sujeita à dos pontífices para assim adquirirem a perfeição e serem instruídos pela iluminação divina, por meio deles. Por onde, à obediência aos bispos não podem furtar–se nem os eremitas nem mesmo os prelados das religiões. E se forem total ou parcialmente isentos dela pelos bispos diocesanos, ficam ainda assim obrigados a obedecer ao Sumo Pontífice, não somente em matéria comum a todos, mas também no que especialmente respeita à disciplina da religião.

RESPOSTA À QUARTA. – O voto de obediência próprio da religião se estende à disposição toda a vida humana. – E sendo assim, o voto de obediência tem uma certa universalidade, embora não abranja todos os atos particulares. Pois, destes certos não pertencem à religião, porque não implicam matéria do amor de Deus e do próximo, como o ato de puxar a barba, ou o de levantar uma varinha do solo e outros semelhantes, que não constituem matéria de voto nem de obediência. Mas, há outros atos que são contrários à religião. Nem há, neste assunto, nenhum símile com o voto de continência, exclusivo dos atos de todo contrários à perfeição religiosa.

RESPOSTA À QUINTA. – A necessidade imposta pela coação causa o involuntário, e por isso exclui a ideia de louvor ou de mérito. Ora, a necessidade consequente à obediência não é imposta pela coação, mas resulta da vontade livre, pela qual queremos obedecer, embora talvez não queiramos cumprir uma determinada ordem, em si mesma considerada. Donde vem que o nos sujeitarmos, pelo voto de obediência e por amor de Deus, à necessidade de praticarmos certos atos, que em si mesmos nos desagradam, torna esses atos mais agradáveis a Deus, mesmo se forem de pouca monta. Porque não podemos fazer nada de maior por Deus do que, por amor dele, sujeitarmos a nossa vontade à vontade de outrem. Por isso foi dito que o pior gênero de monges é o dos Sarabeitas , que, tratando dos seus interesses e inteiramente livres do jugo dos mais velhos, têm a liberdade de fazer o que bem lhes aprouver; e contudo, mais do que aqueles que passam a vida nos cenóbios, consomem–se no trabalho dia e noite.