Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 8 — Se era mais conveniente ter-se incarnado o Filho de Deus, que o Padre ou o Espírito Santo.

O oitavo discute-se assim. — Parece que não foi mais conveniente ter-se encarnado o Filho de Deus, que o Padre ou o Espírito Santo.

1. — Pois, pelo mistério da Encarnação os homens foram levados ao verdadeiro conhecimento de Deus, segundo aquilo do Evangelho. Eu para isso nasci e ao que vim ao mundo foi para dar testemunho da verdade. Ora, pelo fato da pessoa do Filho de Deus ter-se encarnado, muitos ficaram impedidos do verdadeiro conhecimento de Deus, porque referiam à pessoa mesma do Filho o que se predica da natureza humana dele. Tal Ario, que ensinou a desigualdade das Pessoas, fundado no dito do Evangelho: O Pai é maior do que eu. Ora, esse erro não teria surgido, se a Pessoa do Pai se tivesse encarnado ; pois, então, ninguém julgaria o Pai menor que o Filho. Por onde, parece teria sido mais conveniente ter-se a Pessoa do Pai encarnado, que a pessoa do Filho.

2. Demais. — Parece que o efeito da Encarnação foi uma certa e nova criação da natureza humana, segundo aquilo do Apóstolo : Em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incincuncisão valem nada, mas o ser uma nova criatura. Ora, o poder de criar é apropriado ao Pai. Logo, mais conveniente seria ter-se encarnado o Pai que o Filho.

3. Demais. — A Encarnação se ordena à remissão dos pecados, segundo aquilo do Evangelho: E lhe chamarás por nome Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles. Ora, a remissão dos pecados é atribuída ao Espírito Santo, segundo ainda o Evangelho: Recebei o Espírito Santo: aos que vós perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados. Logo, era mais conveniente ter-se encarnado a pessoa do Espírito Santo que a do Filho.

Mas, em contrário, diz Damasceno: O mistério da Encarnação manifestou a sabedoria e o poder de Deus; a sabedoria, porque descobria a melhor solução de um preço dificílimo; o poder, porque tornou de novo o vencido vencedor. Ora, a virtude e a sabedoria se apropriam ao Filho, segundo aquilo do Apóstolo: Cristo, virtude de Deus e sabedoria de Deus. Logo, foi conveniente ter-se encarnado a pessoa do Filho.

SOLUÇÃO. — Foi convenientíssinio que se tivesse encarnado a pessoa do Filho.

Primeiro, quanto à união. Pois, convenientemente se unem as causas semelhantes. —Ora, de um modo, a pessoa mesma do Filho, que é o Verbo de Deus, tem uma conveniência comum com toda criatura. Porque a palavra do artífice, isto é, o seu conceito, é uma semelhança exemplar das obras feitas pelo artífice. Por onde, o Verbo de Deus, que é o seu eterno conceito, é uma semelhança exemplar de todas as criaturas. E portanto, assim como pela participação dessa semelhança as criaturas foram instituídas nas suas espécies próprias, mas de um modo mutável, assim também, pela união do Verbo com a criatura, não de modo participativo, mas pessoal, foi ela convenientemente reparada, em ordem à perfeição eterna e imutável; pois, também o artífice, pela forma artística concebida, por meio da qual fez a sua obra, por essa mesma também a refaz se ela se estragar. De outro modo, tem uma conveniência especial com a natureza humana por ser o Verbo o conceito da eterna sabedoria, donde deriva toda a sabedoria humana. Por isso, o homem se aperfeiçoa na sabedoria, que é a sua perfeição própria, enquanto racional, porque participa do Verbo de Deus, assim como o discípulo se instrui recebendo as palavras do mestre. Donde o dizer a Escritura: A fonte da sabedoria é o Verbo de Deus nas alturas. Por onde, para consumar-se a perfeição do homem, foi conveniente que o Verbo mesmo de Deus se unisse pessoalmente à natureza humana.

Segundo, a razão dessa conveniência pode ser deduzida do fim da união, que é o implemento da predestinação, isto é, dos preordenados à herança celeste, que não é devida senão aos filhos, segundo aquilo do Apóstolo: Se somos filhos, também herdeiros. Por onde, era conveniente que, por meio daquele que é naturalmente Filho, os homens participassem, por adoção, da semelhança dessa filiação, como o Apóstolo o diz no mesmo lugar: Os que ele conheceu. na sua presciência também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho.

Em terceiro lugar, a razão dessa conveniência pode ser deduzida do pecado dos nossos primeiros pais, a que a Encarnação veio dar remédio. Pois, o primeiro homem pecou desejando a ciência do bem e do mal. Por isso foi conveniente que, pelo Verbo da Verdadeira sabedoria, o homem voltasse para Deus, ele que pelo desordenado desejo da ciência se afastara de Deus.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Não há nada de que a malícia humana não possa abusar, pois abusa da própria bondade de Deus, segundo aquilo do Apóstolo: Acaso desprezas tu as riquezas da sua bondade? Por onde, mesmo se a pessoa do Padre fosse a encarnada, o homem poderia daí tirar alguma ocasião de erro, como se o Filho não pudesse ser suficiente para reparar a natureza humana.

RESPOSTA À SEGUNDA. — A primeira criação das coisas foi feita pelo poder de Deus Padre, pelo Verbo. Donde, a nova criação deveria ser feita pelo poder de Deus Padre, para que esta nova criação respondesse à criação conforme aquilo do Apóstolo: Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo.

RESPOSTA À TERCEIRA. — É próprio ao Espírito Santo ser o dom do Pai e do Filho. Ora, a remissão dos pecados se faz pelo Espírito Santo, como pelo dom de Deus. Por isso foi conveniente, para a justificação dos homens, que se encarnasse o Filho, do qual o Espírito Santo é o dom.