Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 3 — Se o Filho de Deus assumiu a alma.

O terceiro discute-se assim. Parece que o Filho de Deus não assumiu a alma.

1. — Pois, João expondo o mistério da Encarnação, disse: o Verbo se fez carne, sem fazer menção nenhuma da alma, Ora, não diz que se fez carne porque nela se tivesse convertido, mas pela ter assumido. Logo, parece que não assumiu a alma.

2. Demais. – A alma é necessária ao corpo para ser vivificado por ela. Ora, para isso não era necessária ao corpo de Cristo como parece; pois é do próprio Verbo de Deus que diz a Escritura: Senhor, em ti está a fonte da vida. Logo, era supérflua a presença da alma onde estava a do Verbo. Mas, Deus e a natureza nada fazem em vão, como também o diz o Filósofo. Logo, parece que o Filho de Deus não assumiu a alma.

3. Demais. — Da união da alma e do corpo constitui-se uma natureza comum, que é a espécie humana. Ora, em Nosso Senhor Jesus Cristo não podemos admitir uma espécie. comum, como diz Damasceno. Logo, não assumiu a alma.

Mas, em contrário, diz Agostinho: Não ouçamos aqueles que dizem ter sido só o corpo humano o assumido pelo Verbo de Deus; esses ouvem o que foi dito – O Verbo se fez carne – para negarem que esse homem tivesse a alma ou qualquer outra causa humana, além só da carne.

SOLUÇÃO. — Como diz Agostinho, foi primeiro opinião de Ário, e depois, de Apolinário; que o Filho de Deus assumiu , só a carne, sem a alma, e ensinavam que o Verbo estava unido a carne, como se lhe fosse a alma. Donde resultava que em Cristo não existiam duas naturezas, mas uma só; pois, da alma e da carne constitui-se uma só natureza.

Mas esta opinião não pode subsistir, por três razões.

Primeiro, porque repugna à autoridade da Escritura, na qual o Senhor faz menção da sua alma. Assim, dizem o Evangelhos: A minha alma está numa tristeza mortal e: Tenho o poder de pôr a minha alma. — Mas a isto respondia Apolinário que, nessas palavras, a alma é tomada metaforicamente; assim, desse modo é que o Antigo Testamento se refere à alma, quando diz: A minha alma aborrece as vossas calendas e as vossas solenidades. – Mas, como diz Agostinho, os Evangelistas nas narrações dos Evangelhos narram que Jesus se admirou, que se encolerizou que se contristou e teve fome. E isso tudo demonstra que tinha verdadeiramente uma alma; assim como os fatos de comer, de dormir, de fatigar-se demonstram que tinha verdadeiramente um corpo humano. Do contrário, se fossem essas expressões metafóricas, como lemos coisas semelhantes no Antigo Testamento, de Deus, desapareceria a fé da narração Evangélica. Pois, é uma coisa a anunciação profética figurada; e outra o que, com propriedade real, constitui a narração histórica dos Evangelistas.

Segundo, o referido erro contraria à utilidade da Encarnação, que é a libertação do homem. Eis como a esse respeito argumenta Agostinho: Por que, tendo assumido a carne, o Filho de Deus deixou de assumir a alma? Era talvez ou porque, considerando-a inocente, pensou não ter ela necessidade de remédio; ou tendo-a como estranha a si, não a gratificou com o benefício da redenção; ou renunciou a curá-la julgando-a de todo incurável; ou enfim porque a rejeitou como um ser vil e totalmente inútil. Ora, duas dessas hipóteses implicam uma blasfêmia contra Deus; pois, como ser chamado onipotente se não pôde curar uma alma, de que desesperava? Ou como é o Deus de todos, se não foi ele mesmo que criou a nossa alma? Das duas outras, uma desconhece a causa da alma, a outra não lhe leva em conta o mérito. Pois, podemos crer que conheça a causa da alma quem pretende eximi-la do pecado de uma transgressão voluntária, embora tenha sido preparada pelo hábito incluso da razão natural a receber a lei? Ou como teria a ideia da sua nobreza, quem a representa como desprezível pela sua vileza? Se lhe atenderes à origem, a alma é a mais preciosa das duas substâncias; se à culpa da transgressão, a sua causa é a pior, dada a sua inteligência. Ora, eu de um lado conheço a perfeita sabedoria de Cristo e, de outro, não duvido que seja misericordiosíssimo. A primeira dessas perfeições impediu-o de desdenhar a melhor substância, a que é capaz de sabedoria; a segunda, a unir-se à que tinha sido mais profundamente ferida.

Em terceiro lugar, essa opinião é contrária à verdade mesma da Encarnação. Pois, a carne e as outras partes do homem se especificam pela alma. Por onde, ausentando-se a alma, já não há ossos nem carne senão equivocamente, como está claro no Filósofo.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Quando o Evangelho diz — O Verbo se fez carne — carne significa todo o homem, como se dissesse: O Verbo se fez homem, no sentido em que diz a Escritura: Toda a carne verá a salvação do nosso Deus. E todo o homem é significado pela carne, porque, como diz o passo aduzido, pela carne o Filho de Deus manifestou-se visivelmente, sendo por isso que o texto acrescenta: E vimos a sua glória. Ou então porque, como diz Agostinho, em toda a unidade dessa assunção o principal é o Verbo; a carne vem em extremo e último lugar. Querendo, pois, o Evangelista mostrar-nos até que ponto foi Deus, na abjecção da humildade, por amor de nós, referiu-se ao Verbo e à carne, deixando de parte a alma, inferior, de um lado, ao Verbo e, de outro, superior à carne. E também era racional que designasse a carne que, por distar mais do Verbo, parecia menos digna de ser assumida.

RESPOSTA À SEGUNDA. — O Verbo é a fonte da vida, como a primeira causa efetiva dela. Mas, a alma é o princípio da vida do corpo, como forma dele. Ora, a forma é o efeito de um agente. Por onde, da presença do Verbo poderíamos antes concluir que o corpo era animado, assim como o poderíamos, da presença do fogo, que é quente o corpo que ele atingiu.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Não é inconveniente, mas antes, necessário dizer-se que Cristo tinha uma natureza constituída pela alma que veio unir-se ao corpo. Mas Damasceno nega haja em Nosso Senhor Jesus Cristo uma espécie comum, como um terceiro ser resultante da união da divindade à humanidade.