Quando em 1988 Dom Marcel Lefèbvre sagrou quatro bispos em Ecône, Suíça, alegando estado de necessidade após ter apresentado suas razões à Santa Sé e pedido em vão licença para sagrar ao menos um bispo que assegurasse a continuidade do apostolado da Fraternidade São Pio X, o jornal O Estado de São Paulo publicou um precioso editorial que explicava perfeitamente o caso.
Na ocasião, o referido editorial teve grande repercussão, sendo reproduzido por diversos órgãos de imprensa. Publicado sob o título muito sugestivo de Uma excomunhão em clima de ecumenismo, decorridos quase 40 anos, conserva plena atualidade e elucida a hora presente.
À sólida argumentação do editorial é oportuno acrescentar duas considerações:
1) De acordo com o vigente Código de Direito Canônico, quem julga do estado de necessidade é o autor da ação e não a autoridade, conforme disposto no cânon 1323. Foi justamente por isso que, poucos anos após as sagrações episcopais de Ecône, foi aprovada em uma universidade romana uma tese de doutorado em Direito Canônico que provava a nulidade das excomunhões prolatadas por João Paulo II contra Dom Marcel Lefèbvre, Dom Antônio de Castro Mayer e os quatro bispos recém sagrados. Recorde-se, outrossim, que o famoso jurista italiano Conde Ranieri Capponi apoiou a mesma tese em diversas ocasiões.
2) Se à altura das sagrações episcopais de 1988 já era patente o estado de necessidade que embasava a decisão do valoroso bispo em vista da calamitosa situação da Igreja, que o impedia de ter confiança de que sua benemérita obra ( a Fraternidade Sacerdotal São Pio X que atendia milhares de fiéis católicos espalhados pelo mundo inteiro, sedentos da verdadeira doutrina, da santa missa de sempre e dos sacramentos dignamente celebrados) tivesse sua continuidade assegurada sem contar com bispos auxiliares – que dizer hoje? Está evidente ( só uma pessoa de má-fé o nega ), que os chamados grupos Ecclesia Dei adflicta só surgiram e sobrevivem graças a uma política maquiavélica de manobra dos católicos tradicionalistas para neutralizar a obra de resistência contra a heresia modernista levada a efeito pela Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Efetivamente, a prepotência dos modernistas é no sentido de obrigar todos os católicos a aderir aos inúmeros erros modernos: liberdade de cultos ( solenemente e reiteradas vezes condenada pelo magistério da Igreja), falso ecumenismo, nova teologia da redenção sem expiação ( sem satisfação da justiça divina ), nova teologia sobre o judaísmo pós-bíblico ( hebraísmo e cristianismo são duas expressões paralelas da mesma aliança, isto é, a sinagoga se mantém em vigor ao lado da Igreja Católica sua irmã mais nova ), nova teologia da salvação (pluralismo religioso – todas as religiões são boas, são caminhos de salvação, são as diversas línguas com que a humanidade louva o Criador, disse o papa Francisco), nova teologia sobre Nossa Senhora, tudo isso sem falar das aberrações da nova moral (cf. Amoris laetitia, Fiducia supplicans).
De maneira que, se restar um mínimo de bom senso, se não houver uma cegueira espiritual completa entre os homens do Vaticano, não pode ser negado à Fraternidade Sacerdotal São Pio X um mandato para sagrar bispos auxiliares que atendam as necessidades de uma grande obra de fé que tem todos os sinais de ser abençoada pelo céu. Roma tem de reconhecer que não tem condições receber em suas paróquias os milhares de fiéis da Fraternidade. Não daria certo. Seria um desastre. Digo mais: nem sequer as capelas dos institutos Ecclesia Dei Adflicta estão em condições de receber os chamados católicos do Syllabus, os católicos da Pacendi, os católicos da Humani generis, os católicos do Catecismo Romano do Concílio de Trento. É doloroso ver autoridades eclesiásticas tentando forçar os católicos da tradição a um processo de reciclagem ao mesmo que se abrem cada mais aos católicos secularizados, aos “católicos de IBGE”, adeptos de costumes neopagãos, defensores da agenda LGBT, da ideologia de gênero, sincretismo religioso nova era etc.
Uma excomunhão em clima de ecumenismo
A excomunhão de monsenhor Marcel Lefèbvre, anunciada pela Sala de Imprensa do Vaticano após a sagração, pelo arcebispo tradicionalista de Ecône, de quatro novos bispos ( trata-se de uma excomunhão latae sententiae, ou seja, já estabelecida no Código de Direito Canônico sem julgamento do “culpado”, o que constitui uma curiosa peculiaridade do direito eclesiástico), põe em evidência, de forma dramática, as contradições em que está envolvida a Igreja pós-conciliar.
Embora a opinião pública, em parte desorientada, de má-fé, por seus “pastores” , tenda a simplificar o problema de monsenhor Lefèbvre, acreditando que ele está em contradição com Roma por se opor à modernização da Igreja e desejar a missa em latim, a verdade é bem outra e a questão é muito mais grave e muito mais profunda do que possa parecer.
A Igreja foi agitada, no fim do século passado e no começo deste, por uma heresia conhecida como modernismo, que o papa Pio X, hoje santo, condenou de forma categórica, na encíclica Pascendi, condenando-a como o mais insidioso erro surgido no seio da Igreja, ao longo de toda a sua história, e como o resumo de todas as heresias anteriores. Os partidários do modernismo tinham como objetivo transformar a Igreja, ou seja, destruí-la privando-a de sua identidade, e como ponto de honra permanecer em seu seio, mesmo não concordando com sua doutrina ou mesmo já não tendo fé, como foi o caso do padre francês Alfred Loisy, pois achavam que só assim poderiam conduzir com eficácia seu trabalho subterrâneo de solapamento. Esses planos foram expostos, em uma linguagem que hoje parece incrivelmente atual, no livro Il Santo, publicado em 1905 e condenado por Pio X em 1906.
Entre os sacerdotes sobre os quais caiu a suspeita de professar, na época, a heresia modernista estava Ângelo Giuseppe Roncalli, que confirmando as profecias feitas no livro de Fogazaro, em 1958 chegou à máxima posição na hierarquia católica, sendo eleito com o nome de João XXIII (curiosamente, houvera um antipapa, cismático, com o mesmo nome em 1410…). A ele se seguiu outro pontífice de ortodoxia igualmente suspeita, Paulo VI, sob cuja gestão como orientador espiritual da federação dos universitários católicos italianos surgira, no seio da entidade, em 1942, um esdrúxulo Partido Comunista Cristão e que, ainda como monsenhor, escandalizará o conde Galeozzociano, com sua admiração por Stalin.
Não por acaso, um dos atos de Paulo VI, além de levar a término o Concílio Vaticano II, convocado por seu antecessor e que transformou em nova ortodoxia a heresia condenada por Pio X, foi a de abolir o juramento antimodernista que desde o começo do século faziam todos os que recebiam a ordenação sacerdotal ou a sagração episcopal, prometendo, entre outras coisas, jamais aceitar a interpretação, em um novo sentido, das verdades da fé.
Esse juramento foi feito não apenas por monsenhor Lefèbvre, mas também por Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Ivo Lorscheiter, Dom Aloísio Lorscheider, Dom Luciano Mendes de Almeida, Dom Eugênio Sales, em suma, por todos os padres ou bispos ordenados ou sagrados há mais de 25 anos.
Acontece, porém, que a fé católica começou imediatamente a ser demolida e destruída no sentido desejado pelos antigos modernistas, não pelos deturpadores do Vaticano II, como se afirma, mas pelo próprio Concílio. Como se não bastasse, no dia 3 de março de 1977, o órgão do Vaticano l’Osservatore Romano, publicou um devastador artigo, que rejeitava o próprio critério de verdade até então admitido pela filosofia católica e defendia a aceitação do novo princípio da verdade como “praxis”, acrescentando, sem rodeio: “Esta – queiramos admiti-lo ou não – é a verdadeira, profunda razão da crise da tradição na Igreja e na teologia”.
Monsenhor Lefèbvre, em companhia unicamente do bispo brasileiro Dom Antônio de Castro Mayer, recusou-se a aderir ao novo festival teológico, enquanto todos os outros membros do episcopado mundial, esquecendo o juramento feito diante de Deus e se tornando, portanto, perjuros, passaram a apontá-lo como responsável pela divisão da Igreja, acusando-o do cisma provocado por eles próprios, em uma tardia reedição da parábola do fariseu, que dá graças a Deus por não ser pecador como o publicano.
A necessidade de assegurar a continuação de um episcopado fiel ao que a própria Igreja ensinava ser verdade revelada e imutável terminou levando o prelado de Ecône a sagrar novos bispos, do que resultou sua excomunhão.
Não deixa de ser estranho que, do outro lado, não se possa apontar um só padre ou bispo excomungado ou mesmo suspenso a divinis por ter traído seus seus compromissos e seu juramento e professar até o marxismo. Por outro lado, que autoridade tem a Igreja, que hoje é ecumênica, para punir com uma pena tão severa um seu filho fiel, se, ao mesmo tempo, ela abraça afetuosamente todos os hereges e cismáticos do passado? Se houver ainda na Roma pós-conciliar e ecumênica, um mínimo de coerência, o menos que se pode esperar é que à excomunhão se siga um afetuoso abraço fraterno.
(Editorial do jornal O Estado de São Paulo, do dia 2 de julho de 1988)
À vista do que foi dito pelo editorial acima transcrito, é ocioso acrescentar mais um verbo sequer. Basta concluir que se houver declaração de excomunhão por ocasião das próximas sagrações episcopais, tal pena será nula.