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Publicado em: 14/05/2025

Os intelectuais da Revolução Francesa

Padre João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Se há um acontecimento histórico que, por sua repercussão sobre os destinos da humanidade, é preciso sempre estudar e sobre o qual se deve ter ideias claras, é a Revolução Francesa. O livro Os intelectuais da Revolução Francesa, de Daniel Mornet, Editora Caravelas, São Paulo, 2024, é uma boa contribuição para conhecer as raízes ideológicas e as causas desse cataclismo do século XVIII. Por isso, proponho-me a resenhá-lo para os fiéis da Capela Santa Maria das Vitórias.

Antes de apresentar as ideias dos principais filósofos das “luzes”, o autor discorre sobre o longo processo de secularização da sociedade francesa. Diz que já no século XVII era comum encontrar em vários setores da sociedade francesa homens que deixavam de se considerar estrangeiros e peregrinos sobre a Terra em demanda do céu. Até então, prevalecia a ideia de que o homem não deve ter outro pensamento senão o de ganhar a vida eterna, e a ganhará tanto melhor quanto mais for humilde, submisso, resignado (p. 23). E havia uma autoridade vigilante e implacável que punia com os castigos mais duros todos aqueles que pareciam resistir à autoridade política ou religiosa. Embora não houvesse uma inquisição como na Espanha, enforcavam-se ou encarceravam-se para a vida os escritores ímpios ou pouco respeitosos; queimava-se a língua dos blasfemadores com ferro em brasa; sob a simples suspeita de falar mal do rei e do seu governo, podia-se perder a vida e, no mínimo, a liberdade (p.24).

No século XVII as coisas começam a mudar na sociedade francesa, aparecem as mulheres filófosos da alta sociedade, que querem estudar Descartes e raciocinar como ele. Notava-se também uma grande influência dos filósofos ingleses. Houve, outrossim, uma profusão de obras de ficção, romances licenciosos, peças de teatro, propagando o gosto das obscenidades elegantes ou imundas. Em consequência, vai crescendo a incredulidade. Diz o autor que abertamente se combate, senão certos dogmas, ao menos certos artigos fundamentais da política católica, como a indissolubilidade do casamento, os votos monásticos, certos privilégios e os costumes do clero, mas ressalva que contra os dogmas e a fé não se podia dizer nada, em princípio, que não fosse passível de forca ou galés.

Diz Daniel Mornet que o racionalismo atacava as tradições religiosas promovendo a impiedade, a ponto de a filosofia cética e deísta ter penetrado até mesmo na Igreja. Informa que muitos padres eram assinantes da Enciclopédia editada pelo ímpio Diderot. E conta o caso de um bispo em cujo palácio não se fazia nenhum caso dos preceitos da Igreja sobre o jejum e abstinência de carne.

Contudo, no meu entender, se lembrarmos a figura de São Vicente de Paulo (1581-1660), que desenvolveu uma obra gigantesca de assistência social e promoção humana com o apoio do rei Luís XIII, da rainha Ana d’Áustria, do cardeal Richelieu, da duquesa d’Aiguillon e de muitos outros nobres, cumpre dizer que havia ainda na França muita piedade, embora uma boa parcela da sociedade francesa arrefecesse na prática religiosa.

Na opinião do autor, a partir dos últimos vinte anos do reinado de Luís XIV (1695-1715) não havia um mal-estar moral geral na França, mas sim um mal-estar político: sentia-se um peso cruel: abusos gritantes da justiça (mais tarde haverá um clamor pela reforma das leis penais e dos tribunais), a insolência dos privilegiados, a humilhação das guerras, províncias devastadas pelos exércitos e, sobretudo, o fardo dos impostos mal distribuídos e brutalmente cobrados; o frio e a fome atormentavam, até mesmo às portas de Versalhes, hordas de miseráveis (p. 29). É o período dos reformadores, como Fénelon, Saint-Simon. Sublinha o autor que nenhum deles era republicano, nenhum deles sequer pensava em questionar o princípio da autoridade absoluta do rei, mas procuravam meios de aconselhar o rei e defender o país contra os perigos do despotismo (p. 30).

Entretanto, começa a difusão das novas ideias. E emerge a ideia de que a política não é um campo onde se deve crer e obedecer; pode-se, e deve-se, discutir o governo dos Estados. (Diga-se de passagem, um direito que a democracia moderna nascida da Revolução diz mentirosamente assegurar através do absurdo sistema da partidocracia e do sufrágio universal individualista e igualitário que atentam contra a constituição orgânica da sociedade.)

Situa o autor nesse período as primeiras manifestações da crítica do cristianismo dogmático e “intolerante”. Passa-se, então, à defesa de uma religião natural que não necessita de milagres. Surgem diversas obras propugnando uma “religião natural”, revelada pela consciência a todos os homens que refletem e não necessita de milagres, textos obscuros, teólogos, universidades, prisões, ou carrascos para ser comprovada e imposta (p.34). Bem sabemos que tudo isso é um sofisma, pois, se a religião não deve ser imposta a ninguém, deve, sim, ser protegida contra os ataques dos ímpios criminosos, e quase todos os códigos penais tipificam o delito de vilipêndio do sentimento religioso.

Começa também a manifestar-se o desejo de uma nova moral, uma moral laica sem nenhum ascetismo religioso. O escritor Pierre Bayle tentará demonstrar que é possível aos ateus serem virtuosos. Informa o autor que, de fato, se intensifica um esforço para organizar uma moral eficaz fora de qualquer dogma e mesmo de qualquer moral religiosa. Autores como Diderot e d’Holbach e outros não cessarão de repetir que o prazer, a busca da felicidade e a obediência às paixões são um direito e a própria base da moral (p. 119). Passa-se, então, a falar em moral humanitária, que desqualifica a caridade como aviltante da dignidade humana e exalta a “beneficência”. Diz o autor que o primeiro artigo dessa moral laica é a liberdade de pensamento, a tolerância. É ocioso dizer que semelhante concepção da moral egoísta e hedonista, sem nenhum fundamento teológico, fragiliza o cumprimento dos deveres e só fomenta um espírito de reivindicação, o discurso demagógico dos nossos dias em torno dos direitos humanos, isto é, dos direitos dos bandidos que seriam vítimas das estruturas injustas da sociedade. Salta aos olhos também que todo discurso dos filósofos das luzes em defesa da tolerância não foi confirmado pelos seus atos, pois os revolucionários vão mover uma terrível perseguição à Igreja

Nesse mesmo período haverá uma significativa corrente de intelectuais libertinos, frequentadores dos famosos salões parisienses, os salões dos bon-vivants da alta nobreza epicurista. É nesse ambiente que brilhará a célebre mecenas Ninon de Lanclos, considerada a mulher mais bela do seu tempo, conhecida por “nossa senhora dos amores” por causa de sua vida dissoluta, tendo tido filhos com vários homens. E, no entanto, seu salão era frequentado por figuras tidas como impolutas, como a escritora Madame de Sevigné. Diz o autor que a filosofia desses intelectuais era aproveitar a vida sem se preocupar com a morte. Havia entre eles não só deístas mas um número significativo de ateus declarados. Passa a ser relativamente corriqueiro o fato de intelectuais e membros da alta sociedade morrerem recusando os últimos sacramentos da Igreja.

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Daniel Mornet traz uma informação muito interessante sobre os “mestres ocultos” que contribuíram para a formação de Voltaire e Montesquieu, mestres ocultos, conhecidos apenas por um pequeno número, mas que, pela força ou, pelo menos, pela ousadia de seu pensamento, ajudaram a transformar os “duvidosos” em “negadores” e os adversários discretos em adversários insolentes (p. 38). Diz que suas obras foram impressas clandestinamente. Tratava-se, realmente, de uma filosofia oculta. Alguns desses filósofos eram deístas, outros ateus, e não se ocupavam de política. Preocuparam-se em formar um arsenal de argumentos contra a religião, atacando o que chamavam absurdidades, contradições e grosserias da Bíblia, os disparates das profecias, a inverossimilhança dos milagres. As obras desses autores serão reeditas por Voltaire e Diderot.

Informa o autor que os filósofos iluministas trabalhavam nas sombras, às ocultas. O mais célebre deles é Voltaire, lido com prazer até mesmo pelos membros do clero e pelas pessoas tidas como piedosas que o consideravam como um mestre do espírito e do bom estilo literário (p. 40). Voltaire considerava todas as religiões equivalentes, desde que tenham como base uma moral natural ( parece que os católicos da igreja do Vaticano II, os católicos de pachamama, são seus pupilos! ). Criticava os teólogos ocupados em absurdos, os monges preguiçosos, os padres severos com os outros e indulgentes consigo mesmos, todos aqueles que exigem que se acredite cegamente, condenando o espírito a uma humilhante escravidão. Odiava os teólogos que transformaram a religião e a moral num labirinto “num labirinto inextrincável de intrigas”. Voltaire desejava que nos ocupássemos primeiro das coisas da terra, pois estava convencido de que estas dependem de nós, e não do céu, reagia fortemente contra um “providencialismo” (É exatamente o contrário do que ensina o Senhor: “Buscai primeiro o reino de Deus…” Mt.6, 33).

Diz o autor que Voltaire não tinha clareza sobre o que pensava. Mornet reconhece, no entanto, que ele teve o mérito de defender a inocência oprimida por ocasião dos famosos casos dos protestantes Pierre Calas, acusado injustamente de ter matado seu filho que queria converter-se ao catolicismo, e foi esquartejado, e da família Sirven, condenada à revelia por terem afogado sua filha, convertida ao catolicismo.

Segundo Mornet, Voltaire tinha horror ao despotismo, mas isto não significa que fosse um democrata, pois detestava a ideia de ser governado pela populaça, pela “canalha”. E quanto a ensinar o meio de estabelecer uma monarquia que seja absoluta e ao mesmo tempo liberal, Voltaire reconhece, pelo menos por seu silêncio, que o problema está além de suas forças (p. 97). Por fim, diz o autor que o ataque mais feroz desfechado por Voltaire não foi contra os homens, mas contra o cristianismo, contra o “L’infâme”. E acrescenta um dado valiosíssimo: os adversários católicos de Voltaire provaram incontestavelmente que, pelo menos em alguns pontos, no domínio da história e da exegese, que ele estava mal informado ou não se deu ao trabalho de se informar (p. 108). Voltaire morreu consagrado como uma figura popular, “o rei Voltaire”, e poderosissimamente rico.

Quanto a Montesquieu, Mornet mostra que o autor Do Espírito das Leis era um ateu hipócrita. Em sua obra As cartas persas “Montesquieu prudentemente se defende de ser um incrédulo: são os persas que falam, e os pagãos não podem, nem devem, dizer nada além de tolices sobre nossa religião. Mas ninguém se enganou. Era realmente Montesquieu que falava por meio deles, zombando da autoridade do papa, dos milagres, da importância exagerada dada aos ritos, insinuando que, no fundo, todas as religiões se assemelham (p. 44).” A propósito das suas ideias políticas, diz Mornet que Montesquieu tinha um ódio violento ao despotismo, a todos os abusos de poder, à Inquisição e à intolerância religiosa, e à escravidão. Mas ele era um monarquista parlamentar e um aristocrata; ele não aspirava a nada além de uma realeza prudentemente temperada por “corpos intermediários” e “leis fundamentais”. Montesquieu, de acordo com o autor, contava com a força mais flexível dos costumes e tradições, confiava no espírito de honra que penetrava tanto o monarca quanto a aristocracia, e cujas leis fundamentais não eram, de certa forma, mais do que expressão disso (p. 82).

O fato é que as críticas de Voltaire e Montesquieu começam a ganhar apoio da opinião pública. Com a complacência e cumplicidade das autoridades e dos nobres as obras revolucionárias são comercializadas entre os letrados. Os livros proibidos são vendidos, mais ou menos, com frequência muito mais do que os livros autorizados. Diz o autor que, por volta de 1770, as leis, ordens, éditos, inspeções e visitas não passavam de espantalhos ridículos e formalidades superficiais. Voltaire, embora sue de medo ao mínimo alarme, sente-se em alguns anos totalmente penetrado de audácia e insolência (p. 141). As disputas teológicas entre jesuítas e jansenistas perdem todo interesse perante a opinião pública e passam a ser consideradas uma expressão do fanatismo religioso.

Segundo Mornet, até meados do século XVIII, os literatos dedicam pouca atenção à política, interessam-se por questões econômicas. Diz que os parlamentares - os parlamentos do Antigo Regime eram tribunais provinciais de apelação, com funções que iam além da justiça, como o registro e validação das leis reais – que tinham mantido, sob o reinado de Luís XIV, um silêncio prudente, começam a dizer em voz alta que a autoridade e o controle dos parlamentos são um direito histórico e salvaguarda da nação. Diz que havia ainda uma censura rigorosa contra os chamados filósofos das “luzes” e nem todos os leitores compreendiam o alcance de suas ideias. Contudo, parece que a vigilância é um pouco branda, intermitente, e que os impressos clandestinos e os vendedores ambulantes são mais hábeis que a polícia, ou mesmo que a polícia, em algumas ocasiões, é cúmplice (p. 61).

À medida que as novas ideias se propagavam pela sociedade, a corrupção dos costumes se ia alastrando e a irreligião progredindo. O autor conta que o jesuíta Croisset se queixa, em 1721, que não se quer mais observar a quaresma e, em 1730, só o nome de milagre provoca risadas entre as pessoas do mundo. Entretanto, nas províncias se mantêm os costumes austeros. Mornet diz que a devoção ao Sagrado Coração de Jesus da venerável Margarida Maria Alacoque foi objeto de inúmeras piadas, não apenas por parte de Voltaire, mas também de pessoas que não eram incrédulas.

Os adversários do cristianismo começam a argumentar que toda religião havia nascido de uma cumplicidade entre os tiranos e os sacerdotes para explorar a credulidade dos homens; os sacerdotes fazem-nos crer acreditar que a tirania é divina e os tiranos exterminam os inimigos dos sacerdotes (p.117). Trata-se, está claro para qualquer católico que conheça um pouco a Sagrada Escritura, de uma mentira. O que a Igreja ensina é que todo poder emana de Deus para garantir a boa ordem social e a justiça. É o que ensina São Pedro em sua primeira epístola: “Sede, pois, submissos a toda instituição humana, por amor de Deus: quer ao rei, como a soberano; quer aos governadores, como enviados por ele para tomar vingança dos malfeitores, e para louvar os bons (1 Pd. 2, 11-19).

Em suma, segundo Mornet, o estado médio dos espíritos na França por volta de 1747 pode ser resumido da seguinte forma: em matéria religiosa a maioria das pessoas letradas que são relevantes são deístas ou ateus; elas expressam suas opiniões apenas em escritos muito clandestinos ou com extrema prudência; de modo geral, a burguesia permanece muito piedosa.

Sobre o grande empreendimento editorial do século das luzes na França, a famosa Enciclopédia, diz Mornet que foi necessário garantir a benevolência das autoridades, porque seus verbetes seriam revisados por censores que eram teólogos ortodoxos. Foram esses teólogos ortodoxos que redigiram tudo que pudesse tocar diretamente à fé. Diz que Diderot multiplicou as manifestações de respeito e até de humilde submissão; no entanto, ele se arranjou para que o leitor percebesse a ironia por trás do respeito e para fazer a guerra, proclamando que deseja a paz (p. 87). Mas o que resulta, de fato, da leitura da Enciclopédia é que a Bíblia, os livros canônicos, a Quaresma e os dogmas são obras humanas, e não divinas. Quanto à política, o ideal que a Enciclopédia defende é o déspota esclarecido: “Feliz o Estado quando o seu rei for um filósofo ou quando um filósofo for for seu rei!” (p. 90). Quanto à antropologia, o diretor da Enciclopédia, Denis Diderot, defende a asneira da “natureza boa” do homem: “Apenas um maligno espírito de religião nos faz acreditar em uma “feia natureza corrompida”; a natureza é boa, ou, pelo menos, não é má. Basta seguir seus instintos; foi um erro considerar a palavra amor-próprio “em sentido negativo”; “não faz muito tempo que um pequeno número de homens” começou a reagir e a nos provar que que temos o direito de buscar nossa própria felicidade” (p. 101). E quanto à ética, diz Mornet que Diderot foi um dos professores mais eloquentes e mais ouvidos da moral laica e humanitária, não obstante essa moral ser contraditória com seu sistema, pois, para ele, não havia liberdade nem vício nem virtude, mas causas fatais seguidas de efeitos inevitáveis (ibid.).

A propósito de Rousseau, Mornet observa que estava em contradição com os princípios dos outros filósofos iluministas. Explica Mornet: “Para Voltaire, d’Alembert, d’Holbach, Diderot e todos os enciclopedistas, o objetivo da vida estava nesta terra; era tornar os homens mais felizes; e esse progresso da felicidade só poderia ser alcançado pelo progresso da inteligência (…) Para Rousseau, é muito possível que o progresso material tenha sido realizado pelo progresso intelectual; mas isso é a condenação e não o elogio da inteligência. Pois todos os progressos da civilização, desde o seu início, desde as próprias origens dessa civilização, foram começos e aumentos de miséria. O homem só foi feliz no estado de natureza, ou seja, quando vivendo em grupos muitos pequenos, unidos pelo instinto de família, independentes e nômades, pensava apenas em viver de forma simples, sem ganância, sem ódio, sem inquietude, contente em beber, comer, dormir e amar os seus.” Trata-se, realmente, de um devaneio, sem nenhum fundamento na história do mundo, pois o bem senso nos diz que o homem sempre esteve submetido à lei do trabalho e do esforço, como se lê no relato bíblico: Deus amaldiçoa a terra e condena Adão a ganhar o pão com o trabalho da terra, após a desobediência (Gen. 3, 19). Mornet diz que o próprio Rousseau dizia que sua teoria não era nada além de teoria. Pois, na prática, não se pode destruir a civilização e voltar à barbárie. Só é possível orientar a civilização em uma determinada direção; e essa direção, esse ideal, é claramente exposto em Emílio e, sobretudo, em A nova Heloísa (p. 103).

Mornet diz que a obra de Rousseau causou um tremor decisivo na véspera da Revolução. Graças a ela, estava-se convencido de que os homens não eram maus por natureza, mas apenas corrompidos e miseráveis. O autor recorda que, apesar de sua mania de perseguição, Rousseau foi coberto de glória, ao ponto de a rainha e os príncipes irem visitar a sua campa.

Informa o autor que, a partir de 1770, há liberdade para escrever sobre política, desde que se faça de certas maneiras. Em primeiro lugar, à maneira cartesiana, com uma concepção racionalista do direito natural; depois, por influência de Montesquieu, começa uma desconfiança dos raciocínios abstratos, isto é, começa-se a dar mais importância aos fatos do que às luzes da razão, à realidade histórica do que à lógica. É por essa época que se destacam uma nobreza e um clero liberais em matéria de religião e política: os padres “patriotas” e “cidadãos”.

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Mornet diz que, a partir de 1748, se verifica uma batalha entre os “novos filósofos” e os defensores da fé cristã. Houve polêmica através da imprensa, onde Locke foi denunciado como o pai do materialismo moderno. Ao mesmo tempo, nota-se um novo espírito da educação que criou um terreno favorável ao desenvolvimento das ideias revolucionárias. Os novos teóricos da educação, como Locke e Rousseau – diz o autor -, mesmo quando divergem sobre os objetivos distantes e os meios, o que exigem é uma instrução e uma educação realistas. Até então, os colégios não tiveram outra ambição senão dar aos seus alunos qualidades gerais de gosto; ensinavam-nos a escolher, ordenar, expressar com clareza, elegância e eloquência ideias gerais aplicáveis a todos os tempos e países (p. 179). De maneira que, nessa nova perspectiva, o ensino do latim passa a ser questionado senão desprezado. Os padres da Congregação do Oratório se aliam às novas ideias pedagógicas, querem substituir o “estudo das palavras” pelo estudo das realidades, de tudo o que prepara para a vida. Há um combate à filosofia escolástica, uma apologia das virtudes laicas do cidadão e do patriota. O que começou, na verdade – deve dizer-se -, foi uma educação sem Deus, uma educação que não prepara mais o discípulo para alcançar o seu fim último, a salvação da alma.

Diz também Mornet que ocorreu uma decadência das universidades. Informa que, apesar de tentativas muito tímidas para introduzir nas universidades o ensino das letras e das ciências, pouco se estuda nelas, na prática, além de teologia, direito e medicina. E quase em toda parte esses ensinamentos estão em plena decadência; as universidades são desprezadas. A universidade de Paris não vale mais que as outras e, para todas as pessoas cultas, quando não precisam de um diploma, é como se não existisse (p.290-291). Surgem, então, as sociedades literárias, onde se propagam as novas ideias.

Diz o autor que houve uma resistência da tradição religiosa e política que explica porque após a Revolução houve a Concordata, a Restauração, o Segundo Império e uma burguesia abastada que continuou a encher as igrejas, permanecendo fiel à fé dos seus antepassados. Que o espírito filosófico tenha conquistado apenas uma parte da opinião, é algo evidente (p. 211) Com efeito, diz o autor que a filosofia iluminista enfrentou obstáculos muito além das censuras oficiais, da Bastilha ou de Vincennes. Ela não seguiu seu curso como o de um rio tranquilo (…) Na realidade, ela avança por um território hostil que lhe impõe resistências muito mais temíveis de tradições poderosas e persistentes. Diz o autor que houve homens piedosos e de talento que se empenharam na defesa da Igreja e da tradição. E mesmo na nobreza e no alto clero houve grandes defensores da fé: “A alta nobreza, profundamente afetada pelo gosto do luxo e do prazer, pelas necessidades de dinheiro, muitas vezes exibiu ou praticou o ceticismo. Mas, mesmo entre eles, quantos foram fiéis à fé de seus pais!” (p. 217). Mornet diz que o alto clero luta sem piedade e sem trégua contra tudo que ameaça a fé. Igualmente, a grande maioria do povo continua a praticar sua religião.

Quanto à resistência da tradição política, diz o autor que, até 1788, não havia mais que uma dúzia de escritores verdadeiramente republicanos e revolucionários e, mesmo assim, eles eram figuras bastante obscuras. Por outro lado, havia muitos que pediam ou sugeriam reformas profundas. Mas havia muito mais aqueles que não queriam mudar nada de essencial, que louvavam o passado e o presente e, quando propunham reformas, eram apenas aquelas que, se possível, não incomodariam ninguém. (…) Para cada um que mostrava um pouco de independência, havia três que protestavam sinceramente seu respeito e seu desejo de serem, acima de tudo, bons servidores do monarca (p. 222-223). Diz ainda Mornet que é certamente uma parte da burguesia que desejará os Estados Gerais, que exigirá uma reforma do Estado, mas não uma revolução, porque é profundamente hostil a tudo o que altera a vida e os costumes dos antepassados (p.226). Por essas palavras do autor, confirma-se mais uma vez que o espírito revolucionário é próprio de uma minoria de degenerados que têm sérios problemas pessoais de natureza moral e emocional e querem, por isso, destruir a obra daqueles que, com tanta piedade, esforço e abnegação, procuraram através das gerações realizar o plano de Deus na criação do homem: edificar uma sociedade baseada na lei natural e na tradição em torno da instituição sagrada da família e sob as bênçãos da Igreja.

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Um capítulo da obra de Mornet que merece reparo é o referente à influência da maçonaria sobre a Revolução. Diz o autor que houve uma supervisão negligente sobre a maçonaria e punições brandas que indicam que essa sociedade secreta contava com figuras poderosas em suas fileiras.

Diz o autor que é muito certo que nem a nobreza viu na maçonaria um empreendimento democrático, nem o clero uma ameaça de irreligião. A nobreza entusiasmou-se com a maçonaria. O duque de Chartres ( Phlippe Egalité) foi grão-mestre da maçonaria e é muito provável que Luís XVI tenha sido maçom, diz Mornet. Houve, portanto, uma maçonaria aristocrática que se abrigou à sombra do trono, uma maçonaria quase oficial. Diz também Mornet que o procurador do rei em Châtellerault escreve ao procurador geral que ele próprio liderava a loja da cidade, o que, segundo ele, demonstrava claramente que nada ali se discutia contra o Estado, a religião ou os bons costumes. Mas havia também quem temesse que a maçonaria pudesse um dia ser prejudicial à religião. A Sorbonne condenou a maçonaria em 1763, uma condenação obscura em uma época em que ninguém mais se preocupava com as decisões da Sorbonne (p. 367). A confusão de ideias a respeito da maçonaria era tão grande que o arcebispo de Tours zombou do bispo que acreditava que “maçonaria e impiedade eram a mesma coisa”. Tanto assim que houve, segundo o autor, uma loja maçônica em Bordeaux chamada loja do “Espírito Santo” e uma loja dos “discípulos de São Vicente de Paulo”.

Sendo assim, pergunta Mornet: “O que se fazia nessas lojas, uma vez que não se conspira nelas, nem se medita sobre planos políticos ou mesmo filosóficos? Temos informações mesmo detalhadas por meio dos numerosos estudos de arquivos provinciais (…) Inicialmente, as lojas eram frequentadas para diversão. As opções de entretenimento eram raras ou inexistentes nas cidades pequenas e mesmo nas grandes do século XVIII” (p. 374).

Digno de nota é o que diz o autor sobre o interesse que a maçonaria despertava em torno dos seus rituais misteriosos e melodramáticos. Segundo Mornet, as pessoas acreditavam que a ordem dos maçons era originária de Sodoma.

O que me parece contestável é o autor dizer que não há nenhuma prova de que a maçonaria tenha um vínculo com a seita revolucionária dos iluminados da Baviera, por meio de Cagliosto, Mirabeau e o alemão Bode e tenha desenvolvido uma atividade subversiva. Para ele, a maçonaria era respeitosa em relação à religião e o era, com mais razão, em relação aos princípios monárquicos e às autoridades constituídas. “Sabemos pelo próprio Joseph de Maistre, diz Mornet, que ele e seus amigos sonhavam em criar na maçonaria um estado-maior secreto, que teria transformado os maçons em uma espécie de exército pontifical a serviço de uma teocracia universal.”

Diz também Mornet que toda a polêmica católica antimaçônica do século XIX se deve à célebre obra do Padre Barruel Memoires pour servir à l'histoire du jacobinisme que, segundo o autor, é uma obra cheia de afirmações gratuitas sem nenhuma prova. Na verdade, existe uma literatura de alto valor a respeito da maçonaria que prova e documenta a ação subversiva dessa seita contra a ordem social cristã. Basta citar as obras eruditas do monsenhor Henri Delassus A conjuração anticristã, As forças secretas da revolução do conde Leon de Poncins, bem como Pour qu'Il regne, de Jean Ousset, todas as referidas obras reportam abundantes provas. Monsenhor Delassus traz igualmente informações valiosas sobre o esoterismo satânico da maçonaria.

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É muito interessante o capítulo a respeito da Revolução Americana e sua influência sobre a Revolução Francesa. O autor diz que, quando a Revolução explode em 1789, aqueles que agem com mais força nela estão completamente impregnados das lições da experiência americana. E assinala o papel de Benjamim Franklin, dizendo que não havia “para a opinião pública francesa um filósofo que correspondesse exatamente às suas expectativas; aguardava um homem capaz de realizar a sabedoria e a felicidade laicas por meio das virtudes associadas à razão e à sensibilidade. Esse homem era Benjamin Franklin: ele era “sensível”, tinha um ideal, uma religião; não uma religião fanática e dogmática, mas uma religião do coração, a crença em Deus e na dignidade da vida moral (p. 396-397)

Conta Mornet que Benjamim Franklin levou seu neto para ser abençoado por Voltaire em seu leito de morte , e quando Voltaire pronunciou as palavras “Deus, liberdade” sobre a cabeça da criança, parecia que o melhor do pensamento e da alma francesa se uniam à alma americana (p. 397). A esta altura, não podemos deixar de registrar a sabedoria de Leão XIII ao condenar o erro do americanismo. Os Estados Unidos, ainda que não tenham chegado aos excessos do espírito revolucionário de 1789, consagram em sua constituição o erro do liberalismo e do laicismo.

Mornet diz que a Declaração de Independência dos Estados Unidos foi censurada na França: “A autoridade absoluta do rei da França não deveria sofrer que se aplaudisse a revolta dos súditos contra seu soberano legítimo, mesmo que fosse racional, especialmente se fosse racional. E o governo não se iludia quanto à amplitude da declaração. Não permitiu sua publicação” (p. 399). No entanto, até o censor real padre Genty elogiou a declaração: “A independência dos anglo-americanos é o evento mais propício para acelerar a revolução que deve trazer a felicidade à terra. É no seio dessa República nascente que estão depositados os verdadeiros tesouros que enriquecerão o mundo” (p. 400).

No capítulo sobre a difusão das ideias filosóficas nos meios populares, Mornet diz que é certo que, em sua maioria, o povo aceitou, seguiu e, depois, precipitou a Revolução, mas não concebeu nem a doutrina nem a própria ideia dela; e aqueles que tiveram essa ideia chegaram a ela por razões políticas, para escapar da miséria, e não porque haviam refletido sobre a doutrina dos filósofos (p. 421). Há toda uma polêmica em torno da instrução popular e a revolução, se a revolução foi a primeira a instruir e elevar o povo, enquanto a monarquia o deixou mergulhado na ignorância e no obscurantismo. O fato é que os filósofos não eram defensores da educação das classes populares. Voltaire, por exemplo, estava convencido de que a maioria das pessoas só deveria aprender a “cultivar, porque só é necessário uma pena para dois ou três centenas de braços”. Parece-me essencial que haja mendigos e ignorantes.” Que diferente dos grandes santos educadores, dos missionários jesuítas que se dedicaram a evangelizar e alfabetizar os indígenas! Que diferente um São José Calazans, um São Pedro Fourrier, um São João Batista de La Sale, uma Santa Ângela Merici e tantos outros, que se consagraram à instrução das crianças pobres!

Finalmente, quanto às causas da Revolução, o autor refere-se à degradação moral da nobreza, aos diversos motins que antecederam à Revolução. E diz que foram causas sociais e políticas que garantiram às ideias revolucionárias o apoio do povo que não havia deixado de experimentar a revolta e aguardava apenas um sinal de fraqueza do poder para se lançar violentamente nela” (p. 451). Mas poucas pessoas vislumbravam os perigos que ameaçavam a ordem social.

Sobre o espírito revolucionário, Mornet faz uma importante observação que vale a pena reproduzir: “Assim se formou, antes da Revolução, o espírito revolucionário mais temível porque é o mais falso: a crença de que se pode destruir e reconstruir uma sociedade como se destrói e reconstrói um sistema de ideias em uma tese da Sorbonne ou uma discussão de salão: “Nunca fatos; apenas abstrações, encadeamentos de sentenças sobre a natureza, a razão, o povo, os tiranos, a liberdade, uma espécie de balões inflados e chocados inutilmente nos epaços” (p, 467-468). É ocioso dizer que semelhante ideologia, somada ao ódio a Deus e à religião, explica a violência sanguinária da Revolução. Se os fatos contradizem os objetivos da Revolução, pior para os fatos, sejam eliminados. Os camponeses respeitam, até mesmo veneram seus senhores, sejam todos eliminados porque a Revolução não pode deter-se em sua marcha.

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Concluída a leitura da obra, fica patente que as causas últimas da Revolução foram a perda da fé e das outras virtudes cristãs, sem as quais não há possibilidade de uma ordem social justa e pacífica. Realmente, quando os homens perdem a esperança da vida eterna, se deixam dominar pelo egoísmo, pelo orgulho, pela sensualidade, pela cobiça dos bens terrenos, pela intemperança, pela avareza e inveja, não pode haver paz na sociedade. Toda hierarquia social passa a ser odiosa; a humildade, a obediência, coisas indignas de um homem livre. E as injustiças mais gritantes começam a opor umas às outras as classes sociais, a fomentar o ódio, o desejo de vingança. Começam a produzir um caldo de cultura propício ao espírito revolucionário.

O belíssimo livro de memórias Vendea 1793 – uma família de bandidos, de Marie de Sainte Hermine, Editora Permanência, 2021, que retrata a relação harmoniosa de uma família de nobres com os camponeses que viviam em suas terras, uma vida social baseada realmente nas virtudes cristãs, prova o que digo. Prova que os revolucionários, na verdade, não se revoltavam contra as injustiças e abusos, mas sim odiavam os valores e costumes cristãos da antiga França.

Convido o eventual leitor desta resenha a ler Os intelectuais da Revolução, a fim de se informar bem sobre o significado do cataclismo de 1789, convencer-se do caráter satânico dessa revolução e ajudar os católicos, hoje contaminados pelo espírito revolucionário e iludidos sobre a democracia moderna nascida dos falsos ideais de 1789, a combater pelo Reinado Social de Jesus Cristo, o único regime político que permite ao homem viver feliz e confiante neste vale de lágrimas rumo à Casa do Pai.

 

Anápolis, 13 de maio de 2025
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