Em Nome do Pai.
“Em verdade vos digo: “Não achei fé tão grande em Israel”.
Meus caros irmãos.
Procuremos hoje refletir sobre a importância de ter a fé como critério supremo de orientação de toda nossa vida.
É certo que temos a luz da razão para nos guiar, e devemos sempre nos esforçar para ser razoáveis em todas as nossas ações e palavras, evitando os excessos das paixões que podem causar-nos grandes males e perturbar toda nossa vida.
Contudo, é preciso dizer que a luz da razão não basta para que o homem expulse do seu coração os ídolos que podem desnorteá-lo completamente e levá-lo à perdição. De fato, como é comum ver homens inteligentes que nos parecem tão ponderados em todos seus negócios e, entretanto, nos momentos cruciais da vida, cometem os maiores desatinos, chegam a destruir suas próprias famílias, por causa de uma paixão louca que nutriam em seu coração, por causa de um ídolo a que se curvavam. Tudo isso porque a luz da razão era incapaz de espancar as suas trevas.
Aliás, é o que nos ensina São Paulo na Epístola aos Hebreus em que discorre sobre os frutos da virtude da fé: “Foi pela fé que os santos venceram o mundo, praticaram a justiça (…). Pela fé houve homens de que não era digno o mundo, que andaram errantes no deserto e nas montanhas, escondidos nas covas e nas cavernas da Terra” (Heb. 11, 33-39).
Realmente, meus caros irmãos, sendo a fé a raiz e o fundamento da nossa justificação como ensina o Concílio de Trento, é por ela que nos separamos do mundo e nos unimos a Deus. ( É claro que se trata da fé vivificada pela caridade, e não a heresia da sola fide de Lutero. )
É, pois, absolutamente necessário que peçamos em nossas orações a graça de viver as verdades que a fé nos ensina. Não nos contentemos em levar uma vida honesta, uma vida de observância da lei natural à luz da razão. Isto é uma ilusão. As consequências do pecado original são tremendas. O orgulho, a sensualidade, a avareza só podem ser combatidos por um homem de fé com o auxílio da graça que recebe dos sacramentos. Entregue a si mesmo, contando apenas com as forças da natureza e a luz da razão, o homem não conhece limites na ambição de domínio de todas coisas, menos no domínio de si próprio.
É por isso que o primeiro rei de Roma, Numa Pompílio, que sucedeu a Rômulo e organizou toda a liturgia da Roma de então, ressaltou a importância do culto ao deus Termo e estabeleceu as festas terminais, a fim de inculcar entre os romanos a importância de ter um conhecimento do termo ou do limite de todas as coisas e, especialmente, de um limite das ações humanas. Um limite estabelecido por Deus.
Sem dúvida, é uma bela lição de sabedoria que herdamos da antiga Roma. E na epístola da missa de hoje o apóstolo, sob a inspiração do Espírito Santo, desenvolve a mesma ideia, tendo em vista promover a ordem e a tranquilidade entre os fiéis: “Não queirais ser sábios aos vossos olhos.”
Que significa isso senão que, desprezando a luz vinda do alto, a luz da fé, o homem não é capaz de ter um verdadeiro discernimento do limite das coisas, perde a verdadeira sabedoria e, consequentemente, perde também a noção do pecado? E sem a noção do pecado o homem se transforma num agente do demônio, pior, num escravo do demônio. Como diz o apóstolo em outra passagem: o estipêndio do pecado é a morte (Rm. 6, 23).
Há dois episódios da vida de São Luís Rei de França que ilustram bem essa verdade. O primeiro episódio é aquele em que o Santo Rei perguntou ao seu grande amigo o senescal Joinville: “O que preferirias: ser um leproso ou ter cometido um pecado mortal?” O senescal lhe respondeu que preferiria ter cometido trinta pecados mortais a ser leproso. Então o rei lhe respondeu dizendo que ele tinha falado como um precipitado estouvado, pois não há lepra tão feia quanto estar em pecado mortal, visto que a alma em pecado mortal é semelhante ao diabo. Em verdade, quando um homem morre, está curado da lepra do corpo; mas quando um homem que cometeu um pecado mortal morre, não está certo de que tenha tido em sua vida arrependimento suficiente para que Deus lhe tenha perdoado. Deve assim ter grande medo de que essa lepra lhe dure tanto tempo quanto Deus estará no Paraíso.
O segundo episódio se deu em uma daquelas tertúlias ricas em piedosa filosofia em que o rei se entretinha com outros dois grandes amigos seus: São Boaventura e Santo Tomás de Aquino. O rei perguntou a São Boaventura: “Que é que o homem deveria preferir, se pudesse escolher: absolutamente não existir ou existir para ser condenado aos tormentos eternos?” Ao que respondeu São Boaventura: “Meu Senhor, essa questão supõe dois pontos. De um lado, a ofensa perpétua a Deus, sem a qual o juiz supremo não infringiria um castigo eterno, e, de outro, um sofrimento sem fim. Como ninguém poderia aceitar permanecer em estado de hostilidade perpétua com Deus, penso que seria melhor não existir”. E São Luís respondeu, voltando-se para os ouvintes: “Estou com a decisão do meu irmão Boaventura e vos asseguro que amaria mil vezes mais ser reduzido ao nada do que viver eternamente neste mundo, ainda que desfrutando da realeza todo-poderosa, ofendendo meu Criador”.
Eis aí, meus caros irmãos, a fé pondo um limite às ações humanas. As palavras de São Luís não são absolutamente palavras ao vento. Toda sua vida, todas as suas ações as confirmam. Diga-se de passagem que o horror de São Luís ao pecado mortal lhe foi incutido na mente por sua veneranda mãe, a grande rainha Branca de Castela.
Se hoje padecemos tantos males na sociedade, tanta prepotência, tanta injustiça, é sem dúvida porque somos governados por homens ímpios, homens sem fé, homens sem nenhum temor de Deus, homens que, ainda que conhecessem a vida de um rei santo como São Luís, zombariam da sua virtude e persistiriam em seus crimes contra os povos que governam. Isso porque o homem sem fé, em sua pretensão de ser sábio aos seus próprios olhos, deixa, na verdade, de ser racional para ser racionalista e usará a sua razão só para dominar todas coisas, e não para conhecer a verdade sobre o ser. Perde a sabedoria, e adquire uma falsa ciência.
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Meus caros irmãos, diz São Gregório Magno: “Crê verdadeiramente aquele que põe em prática as verdades que a fé lhe ensina”. Portanto, não cometamos o gravíssimo erro de reduzir a fé a um sentimento de confiança em Deus, à sensação de estarmos sempre protegidos por Deus. Os modernistas dizem: o homem se sente desamparado no mundo, então apela a uma força superior a ele ( que ele nem sabe ao certo se existe realmente), então começa a sentir-se mais confortado, e daí brota no fundo do seu coração o sentimento de fé e nasce a religião. Não, absolutamente não. A fé, como ensina o catecismo, é uma das virtudes sobrenaturais ou teologais, pela qual, apoiados na autoridade de Deus, cremos o que Ele revelou e por meio da Igreja nos propõe.
Portanto, um dos mais graves deveres do católico é instruir-se na fé, instruir-se na doutrina sagrada, combater com energia os erros contrários à fé, fazer atos de fé, nutri-la pela oração e agir sempre em coerência com a fé. Mas fique claro: não se trata de conhecer só o dogma, conhecer apenas as verdades especulativas da fé, e deixar de lado a fé prática, expressa nos mandamentos da lei de Deus e nas máximas do Evangelho. Há católicos que sabem explicar o dogma da Santíssima Trindade, mas não sabem nada ou quase nada dos dez mandamentos.
Infelizmente, quantos homens católicos despendem seus recursos em coisas inúteis, esquecidos de que terão de prestar contas da administração dos seus bens. É triste mas é verdade: há homens católicos que gastam dinheiro com coisas desonestas, com diversões ilícitas, enquanto há pessoas que passam fome. Isso clama aos céus e pede a Deus vingança. Igualmente há mulheres católicas que gastam dinheiro com modas indecentes, dignas de uma prostituta. Não vale dizer: eu ganhei meu dinheiro honestamente, gasto como quiser, não devo satisfação a ninguém (nem ao padre, nem a minha mãe nem a minha avó) não ser a Receita Federal.
Roguemos sempre, meus caros irmãos, a graça de ter nossa inteligência iluminada pela luz da fé. Recordemos que a Sagrada Escritura em diversas passagens diz que a fé purifica o coração do homem. Portanto, se nos sentimos esmagados pelas tentações do mundo, se travamos uma dura batalha contra nossas más inclinações e nos sentimos impotentes, roguemos a São Paulo, cuja memória celebramos hoje (festa da sua conversão) roguemos a ele a graça de aumentar a nossa fé e de proceder sempre com espírito de fé, de maneira que nossos corações se purifiquem das sujeiras do mundo e possam unir-se a Deus e aos nossos irmãos por laços de puro amor.
Pe. João Ferraz