Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 4 ─ Se os condenados são rodeados de trevas materiais.

O quarto discute-se assim. ─ Parece que os condenados não são rodeados de trevas materiais.

1. – Pois, aquilo de Job ─ Mas aí habita um sempiterno horror ─ diz Gregório: Embora o fogo do inferno não traga com a sua luz nenhuma consolação, contudo luzirá para mais atormentar, fazendo, com a ilustração da sua chama, os réprobos verem os sequazes que consigo arrastaram. Logo, as trevas do inferno não serão materiais.

2. Demais. ─ Os condenados vêem a sua pena, o que lhes contribuirá para o aumento dela. Ora, nada podemos ver sem luz. Logo, as trevas do inferno não serão materiais.

3. Demais. ─ Os condenados no inferno terão o sentido da vista, depois de terem reassumido o corpo. Ora, esse sentido lhes seria inútil se nada vissem. Logo, como não é possível ver nada senão mediante a luz, parece que de nenhum modo estarão rodeados de trevas.

Mas, em contrário, o Evangelho: Atai-os de pés e mãos e lançai-os nas trevas exteriores. Ao que diz Gregório: Se o fogo do inferno desse luz, nunca o Evangelho diria que foram atirados nas trevas exteriores.

2. Demais. ─ Aquilo do salmista ─ Voz do Senhor, que divide a chama do fogo ─ diz Basílio: O poder de Deus fará com que a luz do fogo se lhe separe da sua virtude adustiva, de modo que a sua claridade redundará em alegria dos santos e a sua virtude adustiva em tormento dos condenados. Logo, os condenados estarão rodeados de trevas materiais.

Quanto ao mais, atinente à pena dos condenados, já tratamos antes.

SOLUÇÃO. ─ A disposição do inferno será tal como especialmente convém à miséria dos condenados. A luz, pois, e as trevas que nele houver serão as mais aptas para entreter essa miséria. Ora, a visão, em si mesma, nos é uma causa de prazer; pois, como diz Aristóteles, o sentido da vista é o mais amável, porque nos dá muitos conhecimentos. Mas, por acidente, pode a visão ser causa de sofrimento, como quando vemos o que nos pode ser nocivo ou repugnante à nossa vontade. Por isso o inferno deve ser um lugar disposto de modo aos condenados poderem ver, tanto na luz como nas trevas; de maneira que aí nada enxerguem à plena luz, mas apenas distingam, envolto numa certa umbrosidade, tudo o que lhes puder aumentar a aflição do coração. É, pois, absolutamente falando, a mansão das trevas, mas, por disposição divina, banhada de luz suficiente para fazer-lhe divisar o que lhes pode torturar a alma. E para isso suficientemente contribui a natural situação do lugar que o inferno ocupa, no meio da terra, onde não pode existir senão um fogo sombrio, turbido e como fumoso.

Outros porém explicam a causa dessas trevas pelo acúmulo em massa dos corpos dos condenados, cuja multidão encherá de tal modo o receptáculo do inferno, que expulsará daí todo o ar. Não haverá portanto nele nada de diáfano, susceptível de ser o sujeito da luz e das trevas, senão os olhos dos condenados, obscurecido por elas.

Donde se deduzem as respostas às objeções.