Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 — Se crer é cogitar com assentimento.

(III Sent., dist. XXVIII, q. 2, a. 2, qa 1; De Verit., q. 14, a. 1; Ad Hebr., cap. XI, lect. 1).

O primeiro discute-se assim. — Parece que crer não é cogitar com assentimento.

1. — Pois, a cogitação implica investigação; porque cogitar é quase coagitar, ou agitar simultaneamente. Ora, Damasceno diz ser a fé um assentimento não indagativo1. Logo, cogitar não pertence ao ato de fé.

2. Demais. — A fé se funda na razão, como a seguir se dirá2. Ora, cogitar é ato da potência cogitativa, que pertence à parte sensitiva, como se disse na Primeira Parte3. Logo, a cogitação não pertence à fé.

3. Demais. — Crer é ato do intelecto, porque o seu objeto é a verdade. Ora, parece que assentir, como consentir, não é ato do intelecto, mas da vontade, conforme já se disse4. Logo, crer não é cogitar com assentimento.

Mas, em contrário, Agostinho define assim crer.

SOLUÇÃO. — A palavra cogitar pode tomar-se em tríplice acepção. — Primeiro, em comum, intelecto. Assim, Agostinho diz5: denomino inteligência a potência pela qual inteligimos cogitando — Noutra e mais própria acepção, chama-se de uma certa investigação, antes de alcançada a perfeição do mesmo, pela certeza da visão. E neste sentido Agostinho ensina6: não se diz que o Filho de Deus é cogitação, mas sim, o verbo de Deus. Porque, quando a nossa cogitação, alcança o objeto da ciência e é por ele informada, o nosso verbo é verdadeiro. Por onde, o Verbo de Deus deve ser compreendido como sem cogitação, sem nada de formavel, que possa ser informe. E assim sendo, chama-se propriamente cogitação ao movimento da alma, que delibera, ainda não tornado perfeito pela plena visão da verdade. Ora, esse movimento pode ser da alma, que delibera sobre intenções universais, o que pertence à parte intelectiva, ou sobre intenções particulares, o que pertence à parte sensitiva. Por onde, cogitar, na segunda acepção, é tomado pelo ato do intelecto deliberante; na terceira, pelo ato da virtude cogitativa.

Se, pois, tomarmos a palavra cogitar em comum, conforme à primeira acepção, a expressão — cogitar com assentimento — não significa tudo quanto a crença essencialmente implica. Pois, nessa acepção, também quem considera no que sabe ou intelige cogita com assentimento. — Tomado, porém, na segunda acepção, cogitar implica na essência total o ato da crença. Pois, certos dos atos pertinentes ao intelecto implicam um firme assentimento, sem a tal cogitação. Assim, quando consideramos o que sabemos ou inteligimos, essa consideração já é informada. Outros atos do intelecto, porém, são sem firme assentimento. Quer por não penderem para nenhuma parte, como se dá com quem duvida; quer, por penderem mais para uma parte, mas dependerem de algum leve sinal, como sucede com quem suspeita; quer, por aderirem a uma parte, mas com temor de que a outra seja a verdadeira, como acontece com quem opina. Ora, o ato de crer implica a adesão firme a uma das partes. Por aí, o crente convém com o que sabe e intelige. E, contudo, o seu conhecimento não é perfeito, pela visão manifesta; por onde, convém com o de quem duvida, suspeita e opina. E, assim, é próprio de quem crê cogitar com assentimento. E por isso, o ato de crer distingue-se de todos os atos do intelecto, relativos à verdade e à falsidade.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — A fé não implica a investigação da razão natural, demonstrativa daquilo em que se crê. Implica porém uma certa investigação daquilo pelo que o homem é levado a crer: p. ex., por ter sido dito por Deus e confirmado por milagres.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Cogitar, aqui, não se toma como ato da virtude cogitativa, mas enquanto pertencente ao intelecto, como se disse.

RESPOSTA À TERCEIRA. — O intelecto do crente é determinado a um só objeto, não racional mas voluntariamente. Por onde, assentimento, aqui se toma pelo ato do intelecto, enquanto é, pela vontade, determinado a um objeto.
1.In lib. IV (Orth. Fid, c. XI)
2. Q. 4, a. 2.
3. Q. 78, a. 4.
4. Ia-IIae, q. 15, a. 1.
5. XIV De Trin. (cap. VII)
6. XV De Trinitate (cap. XVI)