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Missa no rito romano tradicional em Anápolis

A ideologia do gênero e a deusa democracia

Postado em 09-06-2015

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Há algo de desconcertante no debate que se tem travado nos últimos dias sobre a ideologia do gênero que os esquerdistas, aliados aos liberais, tentam  impingir por todos os meios às nossas crianças da rede pública de ensino, após o Congresso Nacional ter recusado incluir no plano nacional de educação o vocabulário próprio desse discurso insano sobre o homem.

Com efeito, alguns articulistas parecem mais preocupados em denunciar a artimanha de que se valem os degenerados em sua empreitada de promover a revolução dos costumes e valores como uma violação das regras do jogo democrático do que em argumentar contra a tal ideologia do gênero como uma ameaça à sobrevivência da humanidade e uma gravíssima ofensa à ordem moral estabelecida pelo Criador. A impressão que se tem é que o valor supremo, que  querem defender de qualquer ataque, de qualquer afronta, é a democracia que se viu violada pela estratégia empregada pelo governo federal, ficando relegados a segundo plano a crítica e o combate à ideologia do gênero.

A esta lamentável insuficiência discursiva acresce outro problema: a patente incapacidade de alguns articulistas católicos de ver que há uma relação de causa e efeito entre o democratismo moderno e a rápida e crescente degenerescência da humanidade nos últimos anos desde quando a subcultura do democratismo, do “inclusivismo” e do discurso antidiscriminação passou a predominar em todos os âmbitos da sociedade.

Ora, é incontestável que a ideologia do gênero é apenas um fruto sazonado desse jardim do democratismo, no qual qualquer canalha atrevido, gozando da liberdade e da igualdade asseguradas pela constituição “cidadã”, sem sentir-se vinculado a nada e a ninguém a não ser à vontade própria, se julga soberano e a própria lei, acima de todo o resto da sociedade, que deve “respeitar” seu comportamento, porque cada um pode viver como quiser, com tal que não perturbe a “ordem democrática” ou o “Estado democrático de direito”.

É evidente que a democracia laica, fundada no dogma da soberania popular e inspirada pela nova religião cientificista, tem de aprovar a ideologia do gênero. Está na lógica dos seus princípios. A ideologia do gênero está em perfeita harmonia com a ideologia democratista moderna na medida em que ambas advogam em favor da soberania do indivíduo. É um grande equívoco pensar que a democracia é o regime da lei que organiza a sociedade em vista do bem comum, estabelecendo direitos e deveres dos homens segundo suas condições. A verdade é que não temos nenhuma garantia jurídica; basta ver que  o Supremo Federal legisla, o Executivo atropela o Legislativo, e este último não representa o povo, mas só cuida dos seus próprios interesses. O resultado é que não há autoridade política séria que governe a nação com prudência e conforme a lei.

Dentro dessa triste realidade é uma remata tolice querer, na luta contra a implantação da ideologia do gênero, argumentar em defesa da legalidade democrática, não ousar afrontar os sentimentos democráticos do homem moderno e deixar de denunciar que a liberdade de “opção sexual”, o transexualismo, enfim a ideologia do gênero, é um dos sintomas de uma  patologia moderna ainda maior chamada democratismo que fez do homem o Ser Supremo no lugar de Deus Nosso Senhor Rei das Nações.

Se Deus não existe, ou se cada um inventa o seu deus, se a sociedade não reconhece uma ordem moral objetiva, porque o poder emana do povo, se a liberdade individual não tem outro limite senão a própria conciliação dos arbítrios, é claro que tem de haver não só eutanásia, aborto, “casamento” homossexual, necrofilia, zoofilia, mas também mudança de “sexo”. Quem pode o mais pode o menos. Quem pode a eutanásia, por que não pode também a mudança de sexo? Se nas escolas se deve ensinar que a eutanásia é uma coisa normal diante do sofrimento físico, por que não se poderá ensinar a licença absoluta dos costumes?

Diante desse niilismo ético da democracia moderna, que deriva do dogma da soberania popular e da transmutação do dogma fora da Igreja não há salvação para o dogma fora da democracia não há salvação, só há um remédio: os católicos declararem um combate intrépido não só à ideologia do gênero, mas a sua causa natural, o democratismo. Um combate doutrinário que esclareça o verdadeiro sentido da política, como organização da cidade formada por um  conjunto de famílias e não simples soma de indivíduos soltos, como a arte de promover o bem comum, a vida virtuosa em ordem ao fim último. É preciso também deslindar o erro que se formou em torno da noção de cultura e de sua relação com a natureza. Infelizmente, também neste ponto há vários jornalistas católicos que não têm sabido explicar essa questão ao tratar do erro da ideologia de gênero.

O fundamental, porém, é que se desmascare o erro da religião moderna: a tentativa que se verifica, desde o Vaticano II, de conciliar o inconciliável: a visão teocêntrica e a visão antropocêntrica do mundo, a concepção do mundo fundada na lei de Deus, na vontade de Deus, e a concepção do mundo em que o homem é soberano, “cidadão”, uma concepção de mundo em que só o homem é rei e Cristo, no máximo, será presidente por um mandato, sem direito à reeleição, de uma república universal, eclética, em que todas as religiões e indivíduos, sem nenhuma distinção, viverão como quiserem na nova Babilônia. Não haverá mais homens e mulheres procedentes de famílias e linhagens, mas só indivíduos. Só assim, não havendo mais homens nem mulheres, mas só indivíduos, em pé de igualdade, haverá liberdade absoluta. Sob a batuta do Anticristo, é claro.

Anápolis, 10 de junho de 2015.

Santa Margarida, Rainha e Padroeira da Escócia.