Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

De maio de 68 aos escândalos ou do Vaticano II aos escândalos?

Postado em 12-04-2019

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

O erudito dr. Ratzinger, bispo emérito de Roma, houve por bem tecer considerações sobre o escândalo da pedofilia na Igreja pós-conciliar, valendo-se da oportunidade do sínodo dos bispos realizado no Vaticano em fevereiro p.p.

Em que pese a riqueza de informações e o indubitável valor acadêmico do texto de autoria do célebre professor alemão, cumpre dizer que labora em erro ao afirmar que a causa da vergonhosa crise moral que enxovalha a imagem da Igreja, destrói a vida de milhares de crianças e jovens e amargura incontáveis famílias católicas no mundo inteiro é a revolução dos costumes, o permissivismo moral, promovido pelo movimento estudantil de maio de 1968.

Na verdade, maio de 1968 não teria ocorrido, ou ao menos não teria tido as consequências  nefastas que teve, não tivesse sido precedido pelo Concílio Vaticano II com todas as inovações e reformas que introduziu na vida da Igreja.

Contra fatos não há argumentos. A partir de João XXIII, com suas encíclicas sociais Mater et magistra e Pacem in terris, com seu discurso de abertura do concílio, e depois ao longo dos pontificados de Paulo VI e João Paulo II, a Igreja, sob a influência das idéias políticas da democracia cristã propagadas por Jacques Maritain, abriu-se para os governos de esquerda e distanciou-se dos regimes que defendiam a ordem social tradicional.

Era pública e notória a hostilidade votada por Paulo VI aos governos de Salazar e Franco (Parece que hoje Bergoglio o imita na raiva que tem do Donaldo Trump). Era manifesta a simpatia de Montini pelo movimento hippie.

As próprias lideranças do movimento revolucionário estudantil de maio de 1968 (muitas eram egressas da JUC e de outros agrupamentos da esquerda católica) reconhecem que maio de 1968 seria impossível sem o Vaticano II. No Brasil, por exemplo, grande parte da liderança dos rebeldes de 68 pertencia à esquerda católica, que depois se aglutinou na fundação do PT e de outros partidos socialistas. Basta pesquisar um pouco a história dos antigos colégios católicos das capitais brasileiras para encontrar as provas do que digo. Consultem-se os arquivos do Colégio Sion, do Colégio Des Oiseaux, da Faculdade Sedes Sapientiae etc.

Acresce que, não bastasse a guinada para a esquerda da Igreja pós-conciliar (refreada em parte por João Paulo II quando censurou alguns aspectos da teologia da libertação e impôs a Boff um silêncio obsequioso jamais cumprido e exigido efetivamente), houve, por obra do Vaticano II, toda uma reformulação da doutrina tradicional da Igreja sobre os fins do matrimônio, em uma perspectiva personalista. De modo que, desde então, se introduziu entre os católicos a idéia de que o importante é ser feliz, o importante é realizar-se como homem neste mundo, o importante é o companheirismo, o importante é gozar a vida com espírito de solidariedade. Dessa cultura hedonista à legitimação da união homossexual e à aceitação da pederastia é só um passo.

O Dr. Ratzinger queixa-se de que seus livros eram censurados em muitos seminários. Confesso que, se fosse reitor de um seminário, não os censuraria mas faria uma leitura crítica para os seminaristas, especialmente do seu famoso livro Introdução ao cristianismo, no qual o teólogo da terra de Lutero diz algo que cheira a heresia:

“Se formos bem sinceros deveremos admitir que gostaríamos de afirmar que a Igreja não é nem santa nem católica. O próprio Concílio Vaticano II teve a coragem de já não falar apenas da Igreja santa, mas também da Igreja pecadora; se há uma crítica a fazer ao concílio, só pode ser a de ter sido até muito tímido em sua afirmação, tendo em vista a intensidade da impressão de pecaminosidade da Igreja na consciência de todos nós. (…)Além da santidade da Igreja parece-nos  questionável também a sua catolicidade.”

Com efeito, as citadas palavras soam uma impiedade aos ouvidos de um católico. Assim como um bom filho jamais atribui à sua virtuosa mãe, pela qual nutre máxima veneração, as suas próprias faltas, assim também um bom católico jamais atribui à Santa Madre Igreja, da qual aprendeu o catecismo e o caminho da santidade, os seus pecados e infidelidades.

O Dr. Ratzinger diz também que ouviu de uma infeliz vítima de um religioso predador que o tarado lhe dizia durante o ato libidinoso as palavras da consagração da hóstia conforme o rito moderno de Paulo VI “Este é o meu corpo que será entregue por vós.”

Sinceramente, este fato horroroso relatado pelo bispo emérito de Roma levou-me a pensar que Deus permite toda essa tribulação da Igreja como um castigo por tanta impiedade cometida pelos adeptos da Nova Teologia condenada por Pio XII e exaltada pelo Vaticano II e os papas que o levaram a efeito. Se a Igreja é pecadora, se a Santa Missa é um memorial à maneira de Lutero, colhereis vossos frutos – parece dizer a Sabedoria Eterna. Sim, tudo me parece um castigo do modernismo.

Bossuet dizia ao delfim da França: “Aujourd’hui vous vous trompez sur la place des mots, vous ne mettez pas le mot juste au bon endroit; losrque vous gouvernerez, vous ne mettrez pas l’homme qu’il faut à la bonne place. Parce que votre tête n’est pas en ordre, votre gouvernement sera désordonné.”

A nova teologia condenada por Pio XII debochava da preocupação da escolástica com o  rigor e a precisão das definições e dos conceitos teológicos. Queria uma teologia renovada sobre as bases da filosofia moderna, queria uma teologia “em movimento”, em diálogo com as diversas vertentes da sociedade contemporânea, queria uma Igreja que colaborasse com o homem moderno que, diziam, jamais abrirá mão da sua autonomia.

Aconteceu, pois, que da imprecisão teológica passou-se às nomeações desastrosas, passou-se à elevação da ralé eclesiástica às mais altas dignidades da cúria, ao mesmo tempo que se perseguiam os bons.

Há lugar para um Bergoglio, há lugar para um Arns, há lugar para Tomás Balduíno, ao mesmo tempo que se decreta o ostracismo, para não dizer a sentença de morte, de um Lefèbvre, de um Castro Mayer. Há elogios e promoções para um Kasper, para um Congar, mas aposentadoria compulsória para um Piolanti e um Gherardini. Há lugar para um Dom Pestana, mas…na cova dos leões!

Há todos ouvidos para um Maritain, mas desdém para um Júlio Meinvielle.

As consequências não podiam ser outras. Estão aí a nossa vista os frutos podres. Oxalá a lição de Bossuet citada acima volte a guiar as autoridades pelas quais devemos rezar e sacrificar-nos.

Em tempo: um pensamento de Luís XVI que, mutatis mutandis, serve para a autoridade eclesiástica: “O poder do trono é absoluto, nada pode restringi-lo, mas deve ser baseado na justiça e na razão, e deve ser sempre aberto à advertência e ao bom conselho.”

Virgo dolorosissima, ora pro nobis.

Anápolis, 12 de abril de 2019.

Sexta-feira da Paixão, memória de Nossa Senhora das Dores.