Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Será uma desgraça o Sínodo da Amazônia?

Postado em 19-08-2019

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Sem questionar absolutamente a conclusão a que chegaram alguns ilustres dignitários eclesiásticos em seu juízo condenatório  do Instrumentum laboris do próximo Sínodo da Amazônia, os quais o classificaram como herético e apóstata, desejaria apenas desenvolver algumas reflexões sobre a possibilidade de a referida assembléia episcopal, a ser mantida a orientação contida no Instrumentum laboris, constituir efetivamente, como pensam alguns, uma desgraça para a Igreja e uma ameaça para a soberania dos Estados da Região Amazônica.

Não me parece que as diretrizes que vierem a ser emanadas do Sínodo da Amazônia, ainda que tenham mais tarde  uma repercussão e aplicação sobre toda a Igreja pós-conciliar, possam representar uma obra devastadora da Vinha do Senhor, corrompendo a fé e a moral dos pobres fiéis que ainda frequentam as paróquias Novus Ordo, com seus diáconos permanentes, suas ministras extraordinárias da Eucaristia, suas leitoras, salmistas, e as diversas pastorais e movimentos, como, por exemplo, a pastoral dos recasados, aliás, já admitidos, em grande medida, à recepção da sagrada Eucaristia.

Não creio que os católicos aggiornati, que em sua imensa maioria há décadas  se acostumaram à nova liturgia e apoiam docilmente a famigerada campanha da fraternidade, venham a escandalizar-se e abandonar suas paróquias, caso as ministras da Eucaristia venham a ser “ordenadas” diaconisas e os diáconos permanentes se tornem padres casados. E caso sejam reincorporados os padres défroqués casados, os padres da Associação Internacional dos Padres Casados, que tinham apoio do então cardeal de Buenos Aires Jorge Maria Bergoglio, estou convencido de que, certamente, a maioria dos católicos Novus Ordo não se oporá. Os católicos das paróquias renovadas por mais de cinqüenta anos de mudanças pós-conciliares vão encarar tudo com a maior naturalidade. E a Igreja do Vaticano II vai continuar sua marcha de ruptura com a Igreja de sempre, a Igreja Católica Romana, imutável em sua perene tradição.

Na verdade, o Sínodo da Amazônia vai limitar-se a divulgar urbi et orbi o que tem sido a prática pastoral e litúrgica constante dos rincões onde predomina a religiosidade reformada pela teologia neo-modernista do Vaticano II e dos ideólogos da teologia da libertação. Deste modo, o próximo sínodo cumprirá a missão para a qual foi estabelecido  por Paulo VI, o qual queria que tal assembléia se realizasse periodicamente a fim de manter a Igreja em movimento, à luz do Vaticano II e da moderna produção teológica.

De maneira que todas aquelas aberrações litúrgicas e pastorais para as quais faziam vista grossa os predecessores de Bergoglio (se é que no fundo do coração não as aprovavam) agora, por ocasião do sínodo, vão conquistar maior amplitude, porque o erro é sempre mais contagioso quando promovido do alto. Este talvez seja o único problema do sínodo.

Causa-me aborrecimento ver alguns católicos conservadores (que eu chamaria filo-tradicionalistas por causa de sua simpatia pela liturgia romana antiga e por causa de algumas críticas que formulam a algumas reformas decorrentes do Vaticano II) desancando o bispo de Roma pela organização do Sínodo da Amazônia e acusando-o de romper com o magistério de seus predecessores imediatos, sobretudo no que concerne à teologia da libertação e à abertura aos ritos das religiões pagãs. Francisco poderia responder-lhes, se quisesse, dizendo que age com base no precedente da célebre controvérsia em torno dos ritos chineses. Estes ritos sincretistas, que produziram enorme confusão em detrimento das missões jesuíticas no Oriente ao tempo do Pe. Mateus Ricci, a princípio foram condenados e depois da supressão da Companhia de Jesus acabaram readmitidos. Francisco Bergoglio poderia também dizer aos católicos conservadores que admiram tanto João Paulo II que os novos ritos que provavelmente serão aprovados no próximo sínodo não serão nada extravagantes se comparados com a liturgia adotada nas viagens de João Paulo II a Papua-Guiné, quando uma mulher em topless fez leitura em sua missa, ou quando recebeu de uma sacerdotisa pagã o sinal de adorador de Shiva. Por que canonizar João Paulo II e desancar Francisco?

Inegavelmente cumpre dizer que há uma ruptura na Igreja pós-conciliar, mas é inaceitável que, por covardia, por oportunismo, por medo de escandalizar os devotos de João Paulo II que agora estão chocados com Francisco, não se diga onde reside a ruptura. Francisco não rompe com João Paulo II (nem sequer na questão da teologia da libertação), não rompe com Ratzinger (nem sequer na questão da admissão dos recasados à mesa da comunhão), não rompe com Montini nem com Roncalli. São todos estes que, na verdade, romperam com a tradição precedente ao Vaticano II. O que ocorre é que, ao contrário dos outros papas pós-conciliares que governaram a Igreja explorando as ambiguidades do Vaticano II e com isso conseguiram manobrar os incautos, os idiotas úteis, os companheiros de viagem, os ambiciosos por subir na carreira eclesiástica, Francisco não faz esse jogo político, não tenta enganar ninguém, mas diz claramente o que quer e aonde quer chegar.

Quanto à soberania do Brasil sobre a Amazônia, sinceramente parece-me ridículo pensar que   as intrigas políticas de que o Sínodo possa vir a ser o teatro representem um perigo para a integridade do território nacional. O nosso presidente da República e o Exército Brasileiro têm plena consciência e responsabilidade para cumprir com valor sua missão de defesa da nação. Foi-se o tempo que as querelas teológicas podiam ter tanto alcance. Qual chefe de governo, hoje, lê as encíclicas papais e as põe em prática? Poderá haver muita verborragia demagógica e interesseira em torno da preservação das florestas, mas o Brasil saberá defender seus direitos.

De modo que, se cabe falar em desgraça para a Igreja ou ameaça para o Brasil decorrentes do Sínodo da Amazônia, é preciso que se aponte a sua fonte mais longínqua. A fonte não é o nosso Amazonas, a fonte não é o Tibre que passa a poucas quadras de distância do Vaticano, a fonte é o Reno, a fonte é a Nouvelle Theologie, que dominou a mente de todos os papas pós-conciliares e hoje avança sob o pontificado de Francisco.

Mas tenho plena confiança de que, se Deus permite tanta confusão em sua Igreja, é porque dessa barafunda toda há de tirar um bem muito maior; é porque obrigará os católicos a tomar uma posição (ou são católicos fiéis à tradição ou são modernistas, não é possível meio termo); é porque Deus obrigará os homens de fé, os teólogos de grande descortino, a aprofundar ainda mais seus estudos para esclarecer todos os pontos controvertidos, para fazer triunfar sobre o erro insidioso a verdade imutável e, por fim, o dogma brilhar com mais fulgor em toda a Igreja, para glória do nosso Divino Salvador e de nossa Mãe Maria Santíssima e para o bem de todos os que os amam e servem.

Portanto, se há desgraça e ameaça no Sínodo da Amazônia, os atingidos por tal desgraça  não seremos nós os católicos da tradição. Desgraçados e ameaçados serão os católicos funâmbulos, os católicos do Instituto João Paulo II reestruturado por Francisco, os católicos ditos conservadores que preferiram ficar em cima do muro nestes últimos anos, servindo a uma Igreja que não é plenamente tradicional nem plenamente modernista. Estes serão os desgraçados.

 

Anápolis, 19 de agosto de 2019.

Festa de São João Eudes