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Esperança em meio ao caos: De Villiers e Putin

Postado em 10-10-2014

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

No momento em que graves ameaças pairam sobre a família católica e os cristãos em geral são perseguidos pelos infiéis e abandonados pelas lideranças ocidentais, leio com satisfação uma entrevista que um respeitado político católico francês, Philippe de Villiers, autor de uma apreciada biografia de São Luís Rei de França, concedeu em setembro último à revista Valeurs Actuelles.

Dada a sensatez das reflexões de Philippe de Villiers e seu conteúdo de interesse para o leitor católico de língua portuguesa. passo a resenhar sua entrevista.

De Villiers, que foi governador da Vandéia e candidato à Presidência da República Francesa, é um pró-vida convicto e um crítico da direita (tanto da liberal quanto da nacionalista), que aceita a legalização do chamado “casamento igualitário”. Chama a atenção para a crise política contemporânea, que se pode dizer quase universal: “Em 1934,  os franceses queriam atirar no Sena os deputados, salvo o seu; hoje o descrédito é geral.”

Rebatendo a crítica recebida por ter tido uma audiência com Putin na Crimeia, diz com a galhardia de um estadista: “É uma honra ser tomado como alvo desses censores politicamente corretos que só têm um objetivo: a diluição das nações e da sua identidade em um vasto império mundializado sob a governança americana. Os valores que me inspiram a mim e ao Puy du Fou (organização dirigida por de Villiers que combate pela restauração dos valores culturais franceses tradicionais – nota minha) situam-se como antípodas dos seus. Sinto-me, ao contrário, com aqueles da nova Rússia de Putin.

Em seguida, De Villiers declara que trava o mesmo combate de Putin e comenta: “Desde sua chegada ao poder, venho observando-o, lendo-o, e o encontro que tive com ele no Palácio de Verão dos Czares não fez senão confirmar meu julgamento. Ele comporta-se como um verdadeiro chefe de Estado, patriota, trabalhando para restaurar os valores políticos, culturais e morais da grande Rússia. O fato que Putin tenha desejado implantar na Rússia parques segundo o modelo de Puy de Fou e não parques de diversão testemunha seu apego à alma do seu povo. Ele é o homem que faz a Rússia sair da era comunista e lhe assegura sua grandeza. Enquanto na Europa se abre um McDonald’s por dia, na Rússia se constrói uma igreja ortodoxa por dia. Putin é o maior chefe de Estado atual.”

Da minha parte, acrescento que de Villiers poderia ter dito também que, sob o olhar complacente das autoridades religiosas da Igreja Latina, muitas igrejas são secularizadas, entregues a uso profano e cobiçadas pelos muçulmanos para transformá-las em mesquitas. Prédios de antigos colégios e conventos são vendidos e os chamados bens de mão morta, fruto de benfeitores católicos, reduzidos a objeto de especulação imobiliária justamente por aqueles que se dizem socialistas adeptos da Teologia da Libertação. Ao passo que na Rússia o Estado preserva o patrimônio cultural artístico e religioso da nação, trabalhando em consonância com a hierarquia ortodoxa.

Com relação à crise na Criméia, explica de Villiers que seu apego à Rússia foi plebiscitado pela população e é incontestável. Povoado por 90% de russófonos, a Criméia é profundamente russa. Aqui também me parece que de Villiers poderia ter recordado que historicamente a Ucrânia nunca foi uma nação plenamente constituída mas sempre retalhada entre a Rússia, o Império Austro-Húngaro e a Polônia. O nacionalismo foi fomentado no Leste Europeu após a Primeira Guerra Mundial pelos EUA (presidente Wilson) e pela maçonaria para destruir de vez a Áustria católica, como bem demonstrou o jornalista Jean Sevillia.

E com relação às sanções econômicas impostas pelos EUA à Rússia, diz que elas não têm outra explicação senão na vontade dos EUA de apear do poder Putin para implantar o seu modelo de sociedade. Modelo de sociedade que vai ficando cada vez mais claro em seus princípios anticristãos: ideologia do gênero, hedonismo desbragado, individualismo radical com o fim da família tradicional fundada na lei natural e na religião.

Respondendo à pergunta do repórter sobre se ele se tornou anti-americano, de Villiers diz que não, pois não se podem confundir os povos e seus governos. E explana o problema: “O mundo mudou em 9 de novembro de 1989, com a queda do muro de Berlim. Até então, havia o mundo livre e o mundo cárcere. A ameaça estava no Leste. Estávamos, então, naturalmente, aliados aos EUA. Não existindo mais essa ameaça, a OTAN tornou-se um instrumento de domínio das nações ocidentais, sobretudo das européias. Não somente a França deve sair dela, mas a OTAN deve desaparecer. A vocação dos americanos é ocupar-se da América, não do mundo inteiro. Além da sua vontade imperialista, há outra explicação para a sucessão de conflitos armados  provocados pelos EUA, do Iraque à Síria, passando pela Líbia: eles têm necessidade de fazer a guerra para represar sua dívida monstruosa.”

Quanto à dramática expansão do islamismo, diz que devemos realmente estar solidários com todas as ações empreendidas no mundo inteiro contra o perigo islâmico e que seria melhor combater antes o califado iraquiano que combater Putin, que é o único chefe de Estado a fazer recuar o islamismo. E diz que na França há quase um milhar de jihadistas que partiram para combater em diversas frentes.

Com referência aos malefícios da União Européia, de Villiers diz que é uma ilusão pensar que represente um contrapeso à influência e poder dos EUA: “Uma nação privada de soberania é uma nação que não existe. Não há salvação para a França se o seu povo não recuperar sua liberdade. A França tem de recuperar sua tríplice soberania: militar, saindo da OTAN; monetária, saindo do euro; política, saindo da União Européia.”

Concluindo sua entrevista, de Villiers diz que sua concepção política se baseia nestas palavras de Santo Tomás de Aquino: “O poder é um sacrifício, só o serviço prestado funda a legitimidade.”

Creio que esta entrevista de um político católico francês de grande prestígio é muito importante para esclarecer os católicos tradicionalistas brasileiros que estão sendo desinformados por pessoas que injustificadamente, misteriosamente, morrem de amores pelos EUA, antro ou paraíso de judeus, maçons e protestantes. Desinformados por pessoas que não se pejam de acusar publicamente, mas sem provas, que a Rússia mandou propositadamente abater um avião de passageiros vindo da Holanda, mas se esqueceram de dizer que na Guerra do Golfo, em 1988, os EUA abateram um avião iraniano com 295 passageiros. Pessoas que misteriosamente se fazem de cegas e se recusam a ver que os EUA promovem a degradação moral da humanidade inteira, impondo a todos os povos seu modelo político de um republicanismo e democratismo rasteiros que só favorece uma oligarquia corrupta e egoísta.

Hoje, vale a pena voltar a ler a Ilusão Americana de Eduardo Prado e ouvir homens prudentes como De Villiers e Vladimir Putin.

Anápolis, 10 de outubro de 2014

Festa de São Francisco Bórgia, Confessor

Duque da Corte do Imperador Carlos V e Superior Geral da Sociedade de Jesus, 3º sucessor de Santo Inácio de Loiola