Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Implicações da chamada educação sexual

Postado em 08-05-2008

Dom Lourenço de Almeida Prado OSB

Não queremos entrar propriamente nesse debate sobre edu­cação sexual em termos de “a favor ou contra”. A questão, colocada assim como alternativa, já se toma meio ridícula. Ninguém pode ser contra a educação sexual, como ninguém poderia ser contra a educação cívica. Mas se um Hitler redivivo surgisse em nosso meio ou se Brejnev se abalasse das estepes brancas da Rússia (ou de seu palácio de Moscou) para virem instalar, em nossa cidade, uma escola de civismo, nós, certamente, haveríamos de ficar seriamente alarmados. Seremos, acaso, contra a educação cívica? Claro que não É que educação cívica, à moda nazista ou comunista, não é educação. Transformar um homem em escravo não é educá-Io. O homem nasceu para ser livre e para querer uma cidadania livre.

A educação sexual também tem as suas implicações. Talvez mais fortes e exigentes que a educação cívica, porque toca mais de perto na pessoa humana. Antes de ser pró ou contra a educação sexual, é preciso indagar de que educação se trata. A educação sexual tem suas implicações. Percebê-Ias e levá-Ias em conta é fundamental. Responder por cruzinha a uma alternativa insidiosamente forjada entre “certo ou errado” é cair levianamente na cilada. A matéria exige maior seriedade e atenção.

 

EDUCAÇÃO E EDUCAÇÕES

A nossa época está correndo o risco de esquecer a Educação por esfacelá-Ia em educações. A parte, transformada em todo, forma um corpo disforme. Educação cívica, educação para a saúde, educação para o lazer, educação contra a droga e, nesse quadro, a educação sexual querem um lugar como uma educação específica. E o setor, assim agigantado, desarmoniza o conjunto.

A educação é um processo global de amadurecimento. O homem, como disse alguém, nasce de algum modo imaturo: é a educação que o toma plenamente homem. Quando, entretanto, um setor se isola, sem levar em conta as implicações gerais, começa o risco da distorção, mesmo em relação a aspectos mais amplos. Sabemos que o homem é um animal social, incapaz de viver sozinho. Mas se quisermos instituir uma educação específica para a convivência, corremos um grande risco. Provavelmente não iremos muito além de um aprendizado de boas maneiras, que acabaria sendo pouco mais que um cadáver da convivência. Mais ou menos a esse propósito o Cristo disse, certa vez, que o que dignifica (ou avilta) o homem vem do coração. A boa convivência vem do caráter, da lealdade, da sinceridade, da veracidade, enfim, do homem todo c de dentro do homem. É educando o homem todo que se educa para a convivência: há educação, não há educações.

Seria bom abrir um parêntese, para responder a uma possível objeção: falamos com propriedade cm “educação musical” e a expressão não parece levantar dificuldade. Realmente não levanta. A diferença é que, no caso, não está cm jogo um problema do agir humano. Uma iniciação à apreciação artística prepara o discernimento para o belo. É área do fazer e não do agir. Não ocorrem as mesmas implicações.

Retomemos a nossa afirmação: há educação, não há educa­ções. Os antigos diziam: ··Bonum ex integra causa, malum ex quocumque defectu.” O bem ou o bom exige integridade; qual­quer defeito basta  para constituir o mau. Nada adiantariam as boas maneiras se um coração falso as viciasse na raiz. Não existe uma educação sexual se não decorrer da educação do caráter: numa palavra, da educação do homem ou, simplesmente, da educação.

 

 EDUCAÇÃO, PROCESSO ESPIRITUAL

A educação é um processo espiritual. É o que a distingue de simples adestramento. Os animais são adestráveis, mas, a rigor, não são educáveis. O agir humano se qualifica por um ato espiritual de escolha e discernimento. Educar-se não é aprender a fazer, mas aprender a agir. É no espírito e pelo espírito que o homem julga e escolhe. Não se educa criando automatismo, isto é, produzindo de fora para dentro. Isso seria apenas adestrar. Educa-se, aprimorando o espírito – a inteligência e a vontade – para que a criatura possuindo-se a si mesma, tenha a capacidade interior de ser reta no escolher. Toda educação tem por mira o que chamamos o homem de bem. Ser educado não é possuir técnicas, saber fazer isto ou aquilo, mas saber avaliar o que é bom e segui-lo

Educação sexual não é saber algumas noções de anatomia ou fisiologia. Menos ainda ser informado de algumas técnicas de convívio conjugal. Mas, fundamentalmente, possuir um juízo de valor sobre o convívio do homem com a mulher. A educação sexual está no espírito. É uma expressão da retidão no agir.

 

TUDO É EDUCÁVEL

Tudo no homem é educável, isto é, tudo nele, ao nascer, se orienta com dinamismo interior para crescer, tudo é como um germe a ser levado à plenitude. A educação não é, portanto, um acréscimo artificial à natureza humana, mas o próprio desabrochar dessa natureza. A figura romântica do homem da selva é, nesse sentido, como observa Maritain, antinatural, pois sufocou dentro de si as energias dinâmicas da natureza, não permitindo que se expandissem. Natural plenamente é o que se cultiva, colocando em plena atuação as potencialidades radicais trazidas ao nascer. A educação não é algo sobreposto à natureza humana, mas a plenificação dessa natureza.

Se tudo é educável, nem tudo tem as mesmas ressonâncias na estruturação do homem, nem tudo pode ser conduzido ou manipulado da mesma maneira. As unhas e os olhos são igualmente naturais, mas são sumamente diferentes na relevância das funções e nas repercussões gerais na vida humana.

Alega-se, comumente, que o sexo é natural c como tal deve ser tratado. Certo. Mas é preciso não se iludir com a afirmação. Diz-se também que” o sexo não é tabu”. Realmente não o é. Mas nem por isso deixa de ter o seu mistério. E não é preciso ser muito atilado, nem muito perspicaz na avalização do coração humano, para perceber que é bastante ingênua a idéia de que o assunto pode ser tratado com a mesma simplicidade e despreocupação com que se falaria de respiração ou circulação. Sexo não é tabu, mas, sem ,dúvida, é matéria muito mais envolvente, com repercussões muito mais profundas na vida humana. Pouca gente terá chegado a um hospital psiquiátrico por causa de distúrbios gástricos. Muitos aí foram parar por conflitos afetivos. Em nenhuma outra esfera da vida humana o material e o espiritual, o corpóreo e o psíquico estão tão vinculados e tão inseparáveis. Os leitores de Dostoicvski lembrar-se-ão do drama dos Karamazov e talvez se recordem da confissão de Dimitri ao irmão Alioscha, quando diz, a certa altura:

“Basta de versos! Quero falar-te agora dos insetos, daqueles que Deus gratificou com a sensualidade – “Ao inseto … a sensualidade”. Eu mesmo sou um deles, meu irmão, e isto se aplica a mim. Nós, os Karamazov, somos todos assim. Esse inseto vive em ti, que és um anjo, e levanta tempestade. A sensualidade é uma tempestade, e mesmo alguma coisa mais” (Os Irmãos Karamazov, L. lU, 3).

É natural o sexo, não há dúvida. Mas é preciso não esquecer: um natural que, não raro, levanta tempestade. Não é um tabu, mas não é tão simples que possa ser levianamente considerado. A educação exige tato, porque a alma humana é sutil e sensível.

 

NEM TUDO PODE SER APRENDIDO

Será uma contradição? Disse que tudo no homem é educável. Digo agora que nem tudo pode ser aprendido. A contradição é, apenas, aparente: são perspectivas diferentes em que a linguagem tropeça. Tudo no homem tem, de fato, um dinamismo interior que ,se move numa via de aperfeiçoamento, mas nem sempre esse aperfeiçoamento se obtém por um ensino formal. Ai dos  conhecidos  propugnadores da educação da vontade, que pensam plasmar o homem à imagem dos seus projetos! Nem tudo se ensina diretamente, nem tudo se ensina formalmente. Algumas coisas por serem pobres demais. Assim acontece na doença moderna do profissionalismo, que quer transformar as universidades em escolas preparatórias para qualquer ofício. Fala-se até em mestrado de motorista de automóvel.

Há, porém, coisas mais altas, que estão nos objetivos da educação como um ideal a ser atingido, mas que não pode ser obtido por um ensino direto. Vamos repetir o mestre porque não saberíamos resumi-lo:

, . O ensino da moral, no que se refere às suas bases intelec­tuais, deveria ocupar um grande lugar nos programas da escola e da universidade. Mas aquela apreciação exata dos casos concretos que os antigos chamavam de prudência, e que é um poder interior e vital de julgamento desenvolvido no espírito e firmado numa vontade bem dirigida, não pode ser obtida por qualquer ciência aprendida, seja ela qual for. E a experiência, que é um fruto incomunicável do sofrimento e da recordação ou saudade, pela qual a formação do homem se completa, igualmente não pode ser ensinada em nenhum curso e em nenhuma escola. Há cursos de filosofia, mas não há curso de sabedoria. A sabedoria se adquire pela experiência espiritual. E quanto à sabedoria prática, é preciso dizer, com Aristóteles, que a experiência dos anciãos é, a um tempo, tão indemonstrável e tão esclarecedora como os primeiros princípios do entendimento. Além disso, haverá, na educação do homem, alguma coisa mais preciosa e estimável que aquilo que mais importa ao homem e à vida humana? Haverá, por acaso, para o homem e para a vida humana algo de mais alto e mais importante que a intuição e o amor? Certamente não. Todo amor não é necessariamente reto, nem toda intuição bem dirigida ou bem conceitualizada, mas se o amor ou a intuição existe escondido em qualquer canto, a vida e a flama da vida estarão aí, e um pouco de céu em promessa. Contudo, nem a intuição nem o amor são matérias de instrução científica ou de ensino; eles são dom e liberdade. Apesar disso, a educação deve, acima de tudo, se preocupar com eles” (Jaeques Maritain, Pour une philosophie de l”éducalÍon, pp. 40/41, Fayard, 1959).

A esse passo, citando um educador americano, diz Maritain que:

“A educação deveria ensinar-nos a como estar sempre ena­morados e de que estar enamorados. Porque os grandes aconteci­mentos da História têm sido obra de grandes amorosos, dos santos, dos homens de ciência e dos artistas. E o problema da civilização é de dar a cada homem a oportunidade de se tomar um santo, um homem da ciência ou artista” (Arthur Clutton-Brock, The Uiti­mate Beiie, Ncw York, 1916).

Tudo isso – essa busca da plenitude humana, da radiosa alegria de viver e de conviver – está dentro da educação e constitui o seu próprio objetivo. Mas não há curso para isso. Há a vida. E a escola é também vida, mesmo enquanto é preparação para vida. O que a escola não pode ignorar é que não lhe cabe o direito de secionar a vida humana, esfacelá-Ia em conhecimentos e especializações, sufocando anseios com pretendidas instruções práticas e concretas.

Nesse sentido é que precisamos não nos esquecer de que há educação e não há educações. Conseqüentemente, devemos ter a prudência de não querer entrar no campo da afetividade humana sem um tato apurado e uma suma reverência. E quando notamos zelo intempestivo e grosseiro, acompanhado da alegação simplista e obtusa de que sexo é natural, de que não é tabu, com o que se quer agredir essa área tão rica e sensível da vida humana, sem maiores cautelas, postulando, por exemplo, a obrigatoriedade da educação sexual, não temos dúvida de afirmar que a educação, que se pretende, não é, na verdade, educação. E não é, quase sempre, nem mesmo instrução proveitosa e equilibrada, mas uma investida meio perturbada e afoita, à qual muitas vezes não falta um certo quê de sensacionalismo, que estaria para a educação como a pornochanchada está para um bom cinema. ‘”Maxima debetur puero rceverentia” – à criança é devida a maior reverên­cia, diz o velho Juvenal (Sat., XIV, 37) e, em nenhum lugar, a advertência é tão verdadeira como aqui.

Disse alguém – não sei até onde o fato é real – que a profissão de psicologia é, às vezes, procurada por quem tem uma certa curiosidade de alma, um interesse meio bisbilhoteiro pela vida do outro, que a profissão vai permitir praticar ex officio. Não seria certamcnte uma motivação muito nobre e, sobretudo, muito segura para um desempenho equilibrado de tarefa tão delicada. Felizmente, não é por aí que se inicia, na maioria das vezes, a vocação para psicólogo. Mas pode haver um pouco de verdade na observação.

Não sei também até onde seria legítimo afirmar que a busca de um auditório para falar de sexo não tenha, muitas vezes, uma raiz menos sã, semelhante àquela, de preocupação nublada.

 

SEXO E AFETIVIDADE

Mesmo sem pensar na vinculação do sexo com a generosi­dade e o amor, que acima assinalávamos como o que há de mais importante para a vida humana e, por isso, como o que dá a direção fundamental da educação, temos de alargar o nosso olhar para considerá-Ia sem perspectiva deformada. Mesmo sem adotar o pansexualismo freudiano, precisamos não nos esquecer de que se trata de um instinto de imensa amplitude. Sabemos que, ao menos em certo momento da vida humana, na hora em que alguém escolhe o seu eleito ou a sua eleita, em tomo dele se concentram todas as energias de criatura humana, todas as suas aspirações temporais, os seus sonhos de vida na terra e, até, os seus desejos de perfeição e santidade. No momento em que o homem se reconhece a si mesmo como aquela criatura vista por Deus como um ser ao qual não convém estar só, isto é, como alguém chamado a construir a sua própria perfeição – a sua pessoa _ mas que não pode fazê-Io sem a ajuda do outro, seja para atender às suas carências de companhia e de amor, seja para exprimir a sua generosidade radical, transbordando-se na doação de si mesmo à pessoa amada, nesse momento, o homem toma consciência da significação do sexo em sua vida.

Sabemos ainda que não há nenhuma irreverência, nem dimi­nuição dos valores humanos, quando reconhecemos que o sexo vai muito além da vida conjugal. Um filho tem um modo particular de tratar a mãe e outro para tratar o pai: o mesmo amor se exprimirá por gestos diferentes. O irmão trata irmã com o mesmo carinho com que trata o irmão, mas dirá isso com uma linguagem diferente. E a neta que oferece ao avô enfermo o prato, preparado com o seu carinho, vai fazê-Io de um modo que sensibilizará o velho doente de maneira bem diversa da que aconteceria se o mesmo prato fosse trazido pelo neto igualmente querido.

Nada mais antinatural que o pretendido unisex. O igualita­rismo no trajar, no falar, no andar é não só uma nota moderna de deseducação sexual, mas um verdadeiro crime contra a natureza. Os homens são iguais mas são sumamente diferentes. E as dife­renças não só não podem ser esquecidas, mas não devem ser disfarçadas ou mascaradas, sem prejuízo para o convívio humano. Elas constituem carências ou superabundâncias que interligam e entrelaçam as criaturas, tomando-as cada uma precisada da outra. “Onde não há inveja”, diz Agostinho, “as diferenças geram a concórdia.” Educação sexual (se toleramos a expressão) não há de ser ensinar sexo, mas aprimorar a comunicabilidade humana, para que possa ser fonte de alegria e felicidade. Não foi sem intenção que, linhas atrás, tomamos a convivência como exemplo de um setor educacional que não pode ser reduzido a um aprendi­zado técnico. A educação sexual é, antes de tudo, uma educação para a convivência.

 

SEXO E SOFRIMENTO

Certa vez, um poeta escreveu um belo livro que ficou meio esquecido, não se sabe por quê, em nossa literatura. um poeta sofrido em tomo do problema da sensualidade. Dizia, a propósito do seu livro, “”meu livro trata do sofrimento do sexo, não de seu prazer”. São Paulo, por sua vez, tem uma consideração meio contraditória que, por isso mesmo, poderia surpreender. Fala da vida religiosa, ou seja, da renúncia ao casamento e depois de dizer que essa renúncia não é exigida de ninguém, acrescenta: o casa­mento é bom e quem o desejar não comete falta, mas “essas pessoas terão tribulações na carne; eu vo-las desejaria poupar” (I Cor, 7, 28).

É certo que o sexo não é apenas fonte de prazer, mas também de alegria profunda e de felicidade. Contudo, é preciso não dis­farçar a luta a ser travada na conquista dessa felicidade. Nem é lícito a ninguém ignorar – e ao educador, de modo particular ­que entre os maiores sofrimentos experimentados pela criatura humana estão os que se situam na área da afetividade. E não só em decorrência de desencontros afetivos que, na verdade, são bem mais freqüentes do que transparece para o observador menos atento. Ele, quase sempre, não transpõe os limites de intimidade. Mas a própria busca normal da alegria do convívio exige renúncia e generosidade. Quem não sabe que a vida em comum, mesmo alimentada pelo amor, traz, muito freqüentemente, a experiência do que os antigos chamavam de ‘”martírio da paciência”? Esse martírio nada mais é que o exercício da fidelidade nas pequeninas coisas, o suportar do quotidiano tantas vezes desgastante, tantas vezes envilecido pela tentação da rotina e do tédio. Seria ridículo que a pretendida educação sexual não levasse em conta essa realidade de luta, que não tivesse em mira essa conquista. A visão simplista, com que se fala em cursos, em preparação meramente informativa é realmente muito ingênua para merecer o nome de educação. Se se reduzir a tarefa ao fornecimento dessas informa­ções, não se terá lucrado muito em comparação com o tão criticado aprendizado na rua.

 

SEXO E MONOGAMIA E INDISSOLUBILIDADE

A escola moderna sofre uma indisfarçável crise que, em linguagem chestertoniana, poderíamos definir como sendo uma perda do endereço da própria casa. Para que educar? Para onde dirigir o educando? Noutras palavras, qual é o fim do homem, qual o objetivo de sua educação?

A escola sem Deus, a escola laicista de hoje não sabe bem para que educar. Sentimos que ela, por não ter um objetivo, multiplica os objetivos, transformando em fim último os fins intermediários. Mas não consegue fugir a uma certa perturbação. É de algum modo sintomático o realce que possui, na escola moderna, o serviço de orientação e, particularmente, o de orien­tação vocacional. A preparação profissional assume a feição de fim da educação. Viverá o homem para a profissão ou a profissão existirá para o homem? Realmente suprimindo Deus da escola, a vida humana fica, com efeito, sem uma razão de ser, que seja, de fato, a sua razão de ser.

Nesse contexto não é tão difícil entender que se fale tanto em educação sexual, sem que se cuide dos objetivos dessa educa­ção. Institua-se a educação, haja aulas obrigatórias…De quê e para quê? Pouco importa ou não se cogita. Não raro ouvimos ressonân­cias de uma linguagem que faz lembrar o Conde de Ahranhos (os não-iniciados em Eça precisam saber que o Conde de Abranhos é o nobre político sem escrúpulos, rodeado de bajuladores, que faz toda sorte de patifaria com a maior dignidade, uma espécie de cínico grave e respeitável). Ele, certamente, educaria o seu filho na arte de ser patife, sem que os outros o percebessem. Em nosso caso seria arte de tirar proveito do sexo, sem se comprometer e sem se preocupar com a outra parte. Não está muito longe disso a idéia, ainda muito vulgarizada e ainda muito aceita, de que sexo é um divertimento agradável dos marmanjos. As reações feminis­tas contra essa subaltemação da mulher, que seriam justas em princípio, se desequilibram pela propugnação de um igualitarismo que, além de tolo, é nivelado por baixo.

Não é o momento, entretanto, de nos alongarmos no exame desse problema social de nossos dias. Não há dúvida de que um grande trabalho de educação sexual poderia consistir em procurar estabelecer (ou restabelecer) a dignidade da mulher tantas vezes reduzida a objeto, no cinema, no teatro e, sobretudo, na exploração erótica das propagandas comerciais.

O que importa considerar, nesta ordem de idéias, é que não se pode instituir uma educação sexual sem uma definição preli­minar de sua finalidade e de sua realização ideal.

Há duas posições puras em matéria de vida sexual: o amor livre e o casamento. E quando falo em casamento, penso na instituição estável, com compromisso recíproco e responsabilida­de firmada, isto é, no matrimônio monogâmico e indissolúvel. O divórcio, isto é, a separação seguida de nova união, como uma crise resultante da fragilidade humana, é uma situação que pode ser tratada com o respeito que merece o homem que luta e tropeça na própria fraqueza. O divórcio legal é uma impostura, sinal da poluição espiritual. É uma posição de compromisso de quem não acredita no casamento como instituição biológica, que a educação dos filhos requer estável, e a lei de Deus tomou um sacramento, mas não tem a coragem para ser coerente. Se norma é o egoísmo, a que título limitá-Io? Por que não o amor livre?

Mas não é esta a nossa questão, no momento. O que quere­mos afirmar é que não entendemos bem esse clamor geral pela educação sexual despreocupada com a definição prévia do que seja um homem sexualmente educado. Uma educação sem fina­lidade se perde naturalmente na consideração dos meios. E o sexo, assim tratado, o sexo como fim em si mesmo, não chega a ser uma educação; será, antes, uma complacência a mais e, não raro, uma conversa malsã de gente grande com gente pequena.

 

EXISTIRÁ UMA EDUCAÇÃO SEXUAL?

De tudo que dissemos será fácil imaginar a nossa resposta: a rigor, não. Existe educação, não existe educação sexual. Se, contudo, se entender que o pretendido é que a educação do homem não exclua a educação da afetividade e, dentro dela, a educação sexual, é claro que existe ou deve existir. Nesse sentido, é preciso conceder que há, concretamente, uma certa razão para esse movi­mento pró educação sexual. Como o assunto é meio difícil, vai uma grande distância entre a apologia teórica da educação sexual  e a bem menos fácil instituição concreta, sem tom leviano, de uma’ aula ou instrução, principalmente coletiva, sobre problemas liga­dos a sexo.

Por essa razão, sendo fácil falar e difícil fazer, a educação sexual é omitida. Assim, o zelo intempestivo e, não raro, insensato ou ingênuo com que a campanha é conduzi da não deve impedir que se reconheça que uma educação sexual é necessária.

Evidentemente não poderia ser uma educação isolada. Isolar li o sexo como uma esfera à parte da educação já é falsear o enfoque, aproximando-se do risco de se tomar uma deseducação ou uma promoção do erotismo.

 

A PROPÓSITO DE UM PROGRAMA DE TELEVISÃO

É também evidente que o processo sensacionalista usado por um programa de televisão, pedindo uma resposta “sim ou não” para a educação sexual ou propondo, num quadro confuso, uma alternativa, sem nuances, de .. “certo ou errado”, nessa matéria que exige, para ser tida como certa ou errada, uma consideração clara das circunstâncias, constitui uma contribuição deseducativa. E digo deseducativa não só no que concerne ao aspecto particular que estamos considerando, mas deseducativa no sentido mais amplo. A alternativa é falsa, pois quem responder “certo” estará engolindo sapos e quem disser “errado” estará recusando coisas legítimas.

Uma educação sexual é legítima, mas a moça da televisão (o caso é evidentemente forjado no estúdio, com a presença de uma mãe quadrada e um pai prepotente, que se dispõe a processar a professora; tudo para criar uma atmosfera emocional, que prejulga a questão) não podia instituí-Ia, por sua iniciativa, à revelia dos pais, sem estar preparada técnica e pessoalmente, isto é, sem ter maior conhecimento dos problemas humanos e sem ter consegui­do da turma a confiança que a creditasse para a tarefa. Sem ter preparado a turma, estava errada a professora e mais errado o programa de televisão. Esse tipo simplista e grosseiro de questio­namento, levado ao grande público para obter uma avaliação estatística que cause impressão, é uma contribuição quase crimi­nosa para confundir os critérios de valores e o senso de julgamento de nossa gente. Se educar é formar uma criatura humana para julgar e decidir, o programa certo ou errado é deseducativo.

E na perspectiva mais específica da educação sexual nada ajuda para esclarecer.

Como dissemos, uma educação sexual é legítima e necessá­ria. Há de incluir, sem dúvida, um aspecto informativo, embora a informação sobre problemas ligados a sexo não seja ainda educa­ção. É certo, porém, que negar uma informação pedida ou opor­tuna é, quase sempre, um fator de deseducação.

Mesmo essa informação, sobretudo sob a forma de aula para grupo, será mal colocada se se partir de uma idéia muito alardeada de que sexo é um assunto como qualquer outro.

Quem pretender chamar de natural tratar com o mesmo diapasão o aparelho reprodutor e o aparelho digestivo não estará levando em conta um dado sumamente natural, isto é, o fato de que a sexualidade é uma realidade muito mais envolvente, de repercussões humanas muito mais vigorosas que a digestão ou a circulação. A sensualidade é o inseto que levanta tempestade. Esse suposto naturalismo é, na verdade, antinatural.

Existe uma educação sexual como parte da educação. Não existe uma “disciplina” educação sexual. Em certos momentos, os problemas de sexo podem ser tratados em aula formal ou em curso com feição regular. Não sendo, porém, uma disciplina e não podendo ser tratada como disciplina, a educação sexual não cons­titui uma atividade que possa ser fixada em horário escolar. Menos ainda tem propósito pensá-Ia como disciplina obrigatória. Se já não é muito bom que o professor de Física ou Matemática seja imposto ao grupo, é inteiramente impensável a imposição de um professor de educação sexual. A confiança pessoal, a autoridade moral, a boa acolhida são aí imprescindíveis. Pobre do Secretário de Educação que tivesse de designar professores de educação sexual para as escolas de sua rede. Mais pobres, ainda, os alunos que se encontrassem de repente entregues aos cuidados de um recém-chegado. Física e Matemática são ensinos; aqui, ao contrá­rio, é educação: uma comunicação em outra dimensão.

 

NO LAR OU NA ESCOLA?

No lar e na escola. E não só. Em todos os lugares. Quase direi, aplicando considerações mais gerais de Maritain, que as coisas se passam muito mais na esfera extra-educacionaL Pode parecer meio paradoxal, mas é um fato que a ” … esfera extra-edu­cacional – isto é, o campo inteiro da atividade humana e, princi­palmente, a pena e labor quotidiano, as duras experiências da amizade e do amor, os costumes sociais, a lei (que é uma pedagoga segundo S. Paulo), a sabedoria encarnada nas tradições coletivas, a radiação inspiradora da arte c da poesia, a influência penetrante das festas religiosas e da liturgia – toda essa esfera extra-educa­cional exerce sobre o homem uma ação que é mais importante para o acabamento da educação que a própria educação. Enfim, o fator soberanamente importante é um fator transcendente: este apelo do herói sobre o qual Henri Bergson insistiu com tanta força e que passa através de toda estrutura dos háhitos sociais e das regras morais como uma aspiração vivificanle em direção ao amor infi­nito, que é a fonte de todo ser. Os santos e os mártires são os verdadeiros educadores da humanidade” (J. Maritain, Pour une philosophie de /’éducation, pp. 24{25).

A cducação sexual é grande demais para ser menos que a educação do homem. “Bonum ex integra causa.”

 

Dom Lourenço de Almeida Prado, 97 anos, é monge beneditino do Mosteiro de São Bento, RJ. Durante muitos anos, foi reitor do Colégio São Bento do Rio de Janeiro, considerado uma das melhores instituições de ensino do país. O texto foi extraído de sua obra Educação: ajudar a pensar, sim. Conscientizar, não. Agir, RJ, 1991.