Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Não Matarás

Postado em 07-03-2008

[trecho extraído do Catecismo Romano]

 

CAPÍTULO SEXTO

Do Quinto Mandamento

“Não matarás!”

 

I.Importância do Preceito: Meio de pacificação dos Homens

[1] Singular ventura está prometida aos pacíficos, “porquanto serão chamados filhos de Deus”. Esta consideração deve, forçosamente, levar os pastores a explicarem aos fiéis a doutrina deste mandamento com todo o carinho e exatidão.

Com efeito, para apaziguar os ânimos dos homens, não há melhor alvitre, do que a exata observância deste Preceito, como é de obrigação para todos, desde que receberam uma boa explicação de seus dispositivos. Só então é de esperar que os homens, congraçados na mais perfeita igual­dade de sentimentos, cultivem ciosamente a paz e a concórdia.

O quanto se torna necessária uma boa explicação deste Preceito, nós o percebemos pelo fato de que, após o imenso Dilúvio Universal, a primeira e a única proibição, que Deus impôs aos homens, foi esta: “O sangue de vossa vida, Eu o vingarei da mão de todos os animais, e da mão do [próprio] homem”.

E também no Evangelho, quando Nosso Senhor explicara pela primeira vez as leis da Antiga Aliança, começou por este Mandamento, como está escrito em São Mateus: “Foi dito: Não matarás” – e o mais que do assunto se diz naquela mesma passagem.

Os fiéis devem, por sua vez, ouvir com atenção e prazer a explicação deste Preceito. Em sua eficácia, serve para defender a vida de quem quer que seja, porquanto as palavras “Não matarás” proíbem o homicídio de maneira categórica.

Por isso, todos os homens devem aceitá-la com tanta alegria do coração, como se Deus, sob ameaça de Sua cólera e de outras penas gravíssimas, tivera proibido nominalmente que alguém fosse ferido. Logo, se nos é grato ouvir falar deste Preceito, grata nos deve ser também a advertência contra os pecados que ele proíbe.

 

II. Cláusula proibitiva [2] Ao explicar as obrigações deste Preceito, mostrou Nosso Senhor que nele se continham duas modalidades. A primeira, o que nos é proibido: Não matar. A segunda, o que nos é ordenado: Tratar os inimigos com cordial amizade, ter paz com todos os homens, levar com paciência todos os sofrimentos.

1. Não é proibido: a) matar animais… [3] Quanto à proibição de matar, devemos primeiro explicar quais espécies de morte não são proibidas por este Mandamento. Não é, pois, proibido matar os animais. Se Deus permitiu aos homens que se alimentassem deles, também permitiu que os matassem. Sobre este particular, diz Santo Agostinho: “Quando ouvimos dizer: “Não matarás”, não entendemos que isto se refira às plantas, porque elas não têm nenhuma sensação; nem aos brutos irracionais, porque não se ligam a nós por nenhuma relação de sociedade”.

b) executar criminosos… [4] Outra espécie de morte lícita é a que compete às autoridades. Foi-lhes dado o poder de condenar à morte, pelo que punem os criminosos e defendem os inocentes, de acordo com a sentença legalmente lavrada. Quando exercem seu cargo com espírito de justiça, não se tornam culpados de homicídio; pelo contrário, são fiéis executores da Lei Divina, que proíbe de matar.

Se o fim da Lei é garantir a vida e segurança dos homens, as sentenças [capitais] dos magistrados obedecem à mesma finalidade, enquanto eles são os legítimos vingadores dos crimes, reprimindo a audácia e a violência mediante a pena de morte. Por essa razão dizia Davi: “Desde o romper do dia, exterminava eu todos os pecadores da terra, a fim de suprimir da cidade de Deus todos os que praticam iniqüidade”.

c) matar em guerra justa… [5] Da mesma forma, não pecam aqueles que, em guerra justa, tiram a vida dos inimigos, não por “cobiça ou crueldade, mas unicamente por amor da causa comum de seu povo”.

d) matar por ordem divina… Aqui pertencem também as mortes que se fazem por ordem expressa de Deus. Assim é que os filhos de Levi não pecaram, quando num só dia mataram tantos milhares de homens. Feita a matança, disse-lhes Moisés: “Hoje consagrastes ao Senhor as vossas mãos”.

e) matar por acidente… [6] Não infringe tampouco este Preceito quem mata um homem, sem querer nem refletir, por mera casualidade. Sobre tal emergência, escreve o Livro do Deuteronômio: “Quem ferir seu próximo sem querer, não se provando que tivesse ódio contra ele, nem ontem, nem anteontem; mas que indo com ele simplesmente à floresta para cortar lenha, e, no derrubar a madeira, o machado lho escapou da mão, e o ferro, saindo do cabo, feriu e matou seu amigo…”.

Como ocorrem sem nenhuma intenção ou premeditação, tais homicídios não entram, de modo algum, na categoria de pecados. Comprova-o a opinião de Santo Agostinho: “Longe de nós, diz ele, que nos atribuam como pecado a ação boa e honesta por nós praticada, que ensejou algum mal, contra a nossa intenção”.

Corolário: Homicídio acidental, mas culposo. [7] No homicídio acidental, pode haver pecado, por dois motivos. Primeiro, quando uma pessoa mata outra, ao praticar alguma ação injusta, por exemplo, alguém dá um soco ou pontapé numa mulher grávida, sobrevindo por isso o aborto. Tal acontece, é verdade, contra a intenção do agressor, mas este não deixa de ter sua culpa, porque de modo algum lhe seria lícito agredir uma mulher grávida.

Segundo, quando alguém mata outro, por descuido e negligencia, por não ter tomado todas as precauções necessárias.

 

f) matar em defesa própria. [8] Pela razão alegada, é de toda evidência que não transgride este Preceito, quem mata outra pessoa em defesa de sua própria vida, se tiver usado todas as precauções necessárias.

Estas espécies de homicídios, que acabamos de enumerar, não estão incluídas na proibição deste Mandamento. Com exceção delas, todas as mais são proibidas, quer se tenha em vista o assassino, quer a vítima, quer a maneira de matar.

2. É proibido matar: a) quanto ao autor… [9] Quanto ao autor de um homicídio, não se faz exceção de ninguém, nem de ricos, nem de poderosos, nem de patrões, nem de pais. A todos é proibido matar, sem nenhuma seleção ou distinção de pessoa.

b) quanto à vítima… [10] Quanto à vítima de um homicídio, este Preceito abrange todos os homens. Não há pessoa, por mais humilde e desprezível que não seja protegida pela força deste Preceito.

A ninguém, tampouco, é permitido suicidar-se, porque ninguém dispõe assim de sua vida, que possa a seu talante procurar a morte de própria mão. Por isso, o Preceito não tem por teor as palavras: “Não mates a outrem”, mas diz simplesmente: “Não mates”.

c) quanto ao modo. [11] Se atentarmos, porém, os vários modos de praticar homicídio, vemos que não há exceção para ninguém. Não só se proíbe tirar a vida do próximo, com as mãos, com ferro, pedra, cacete, corda, veneno; mas é também absolutamente ilícito dar ocasião a um homicídio, por meio de conselho, dinheiro, cooperação pessoal, ou de qualquer maneira que seja.

lnqualificável era, neste ponto, a obtusão moral dos judeus, que julga.. 11

VEUn respeitar este Mandamento, contanto que se abstivessem de matar com suas próprias mãos.

O cristão, porém, pela doutrina de Cristo conhece o sentido espiritual da Lei, que de nós exige não só mãos puras, mas também um coração casto e ilibado. Ele não pode, de modo algum, contentar-se com o que os judeus julgavam cumprir com bastante perfeição.

 

3. É proibido irar-se: Pois a ninguém é lícito nem sequer irar-se contra o próximo, como ensina o Evangelho, porquanto Nosso Senhor declarou: “Eu, porém, vos digo: Todo aquele que se enraivecer contra seu irmão, será réu perante o juízo. Quem chamar seu irmão de “raca”, será réu diante do conselho. Quem chamar seu irmão de “louco”, será réu do fogo do inferno”.

a) sem razão… [12] Dessas palavras se deduz, com evidência, que não está livre de pecado quem se zanga com seu irmão, ainda que reprima a cólera dentro de si mesmo. Todavia, muito mais grave é a falta de quem não receia tratar duramente seu irmão e dirigir-lhe palavras injuriosas.

Este pecado, porém, só se verifica, quando não há o que possa justificar nossa indignação. Perante Deus e Suas Leis, temos razão de alterar-nos todas as vezes que corrigimos nossos subordinados, por causa de suas faltas.

b) por motivos carnais A cólera do cristão não deve proceder dos sentidos carnais, mas da ação do Espírito Santo, já que nos compete a dignidade de “templos do Espírito Santos”, nos quais habita Jesus Cristo.

 

4. Remédios contra esses pecados:

a) uma palavra de Cristo…

[13] Nosso Senhor nos deu ainda muitos outros ensinamentos, que se referem à perfeita observância deste Preceito. Dessa natureza é a passagem seguinte: “Não arrostes a quem é mau. Antes, se alguém te bater na face direita, apresenta-lhe também a outra. E a quem quiser pleitear contigo em juízo e tirar-te a túnica, larga-lhe também a tua capa. Se alguém te forçar a correr uma milha, vai com ele duas milhas”.

Da citação feita, podemos inferir quanto os homens propendem aos pecados que se proíbem neste Mandamento, e como são numerosos os que cometem o crime de homicídio, senão de fato, ao menos pelo desejo do coração.

[14] Ora, como a Sagrada Escritura oferece remédios para essa doença tão perigosa, é dever do pároco ensiná-los aos fiéis com toda a exatidão.

b) reconhecer a atrocidade do homicídio… O principal é que se reconheça quão atroz é o pecado de homicídio. Isto se pode ver em muitos e graves testemunhos da Sagrada Escritura. Segundo os sagrados textos, Deus aborrece a tal ponto o homicídio, que promete castigar até os animais pela morte dos homens, e manda matar o animal que tenha ferido algum homem. Quando exigiu do homem tivesse horror em alimentar-se de sangue, não era por outro motivo, senão para que aquele arredasse, a todo o transe, as mãos e o coração do abominável crime do homicídio.

c) como crime de lesa-humanidade. [15] São os homicidas os mais encarniçados inimigos do gênero humano, diremos até de toda a natureza. Fazem quanto podem para destruir toda a obra de Deus, matando um homem, por cujo amor Deus declarou ter criado tudo o que existe.

Ainda mais. Como no Gênesis é proibido matar um homem, porque Deus o criou à Sua imagem e semelhança, grave ofensa faz a Deus, e parece quase que Lhe põe mãos violentas quem tira do mundo uma Sua imagem.

Isto é que Davi considerava por divina inspiração, quando se queixou amargamente dos sanguinários e proferiu aquelas palavras: “Seus pés são velozes para derramarem sangue”. Não diz simplesmente “matar”, mas “derramar” sangue. Tais palavras falou, para salientar a enormidade do nefando crime e a bárbara crueza dos que matam. E disse “seus pés são velozes”, para mostrar, antes de tudo, como eles, impelidos pelo demônio, se precipitam em cometer tal crime.

 

III. Cláusula Preceptiva: [16] O que Cristo Nosso Senhor manda observar

I. Caridade universal… neste Preceito tem por fim promover nossa paz com todos os homens. Ele mesmo disse, na explicação deste Preceito: .’Se ao levares tua oferta te ocorrer que teu irmão tem alguma queixa contra ti, deixa tua oferenda diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão, e depois virás oferecer o teu sacrifício”. E veja-se o mais que diz a mesma passagem.

Na explicação destas palavras, precisa o pároco ensinar que nosso caridade deve abranger todos os homens, sem exceção alguma. Quando pois, explicar este Preceito, o pároco fará o que estiver ao seu alcance, para concitar os fiéis à prática dessa caridade, porque nela resplandece, sobremaneira, a virtude do amor ao próximo.

Sendo o ódio expressamente proibido por este Preceito, porque “é homicida aquele que odeia a seu irmão”, segue-se necessariamente que isso também inclui o preceito do amor e da caridade.

… com todos os seus atributos: a) paciência… [17] Mas, ordenando o amor e a caridade, este Preceito impõe também todos os deveres e traças que costumam nascer da caridade. “A caridade é paciente”, diz São Paulo. Logo, aqui há para .nós o preceito da paciência, pela qual havemos de possuir nossas almas, conforme ensina o Nosso Salvador.

b) benignidade e beneficência… Depois, uma companheira inseparável da caridade é a beneficência, porque a “caridade é benigna”. Ora, a virtude da benignidade e da beneficência é de ampla atuação. Seu fito principal consiste, para nós, em dar de comer aos que têm fome, dar de beber aos que têm sede, de vestir aos que estão nus; em usar de maior largueza a generosidade, na medida que alguém mais precisar de nossa assistência.

 

c) amor aos inimigos… [18] Estes serviços de caridade e bondade, nobres por sua natureza, tornam-se muito mais grandiosos, quando são prestados aos inimigos. Pois Nosso Salvador declarou: ‘Amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam”. O mesmo conselho dá o Apóstolo: “Se teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer. Se tiver sede, dá-lhe de beber. Fazendo assim, amontoarás brasas vivas sobre a cabeça dele. Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal pelo bem”.

Enfim, se considerarmos o preceito da caridade, enquanto esta é benigna, reconheceremos que ela nos obriga a praticar tudo o que se refira à mansidão, à brandura, e a outras virtudes semelhantes.

 

d) … perdão das injúrias [19] Um dever que, de muito, supera todos os mais, abrangendo em si toda a plenitude da caridade, e ao qual nos cumpre aplicar nosso maior esforço consiste em esquecermos e perdoarmos, de bom coração, todas as injúrias recebidas.

Para o conseguirmos na realidade, as Sagradas Escrituras, como já foi dito, nos exortam e aconselham muitas vezes, não só chamando “bem-aventurados” os que perdoam sinceramente, mas também afirmando que eles já alcançaram de Deus o perdão de seus pecados; e que não alcançam perdão os que deixam de perdoar de fato, ou não querem fazê-lo do. maneira alguma.

Ora, estando quase que arraigado no coração dos homens o instinto de vingança, faça o pároco todo o possível, não só para ensinar que o cristão deve perdoar e esquecer as injúrias, como também por deixar os fiéis plenamente persuadidos de tal obrigação.

Desse ponto falam muito os escritores eclesiásticos. Deve o pároco consultá-los, a fim de poder quebrar a pertinácia daqueles que se obstinaram e empederniram no desejo de vingança. Tenha sempre à mão aqueles fortíssimos e oportuníssimos argumentos que os Santos Padres usavam com religiosa convicção, quando tratavam da presente matéria.

2. Motivação dessa caridade: a) o sofrimento vem de Deus… [20] Para esse fim, são três as principais razões que o pároco deve desenvolver. A primeira é conseguir de quem se julga ofendido a firme persuasão de que a primeira causa de seu dano ou ofensa não é a pessoa, da qual deseja vingar-se.

Assim procedeu Jó, aquele varão admirável que, sendo gravemente lesado pelos Sabeus, Caldeus, e pelo próprio demônio, não lhes atribuiu nenhuma responsabilidade; mas, como homem justo e sobremaneira piedoso, proferiu as acertadas palavras: “O Senhor o deu, o Senhor o tirou”. Pela palavra e pelo exemplo desse varão pacientíssimo, tenham os cristãos, como absoluta verdade, que tudo quanto sofremos nesta vida vem de Nosso Senhor, Pai e Autor de toda a justiça e misericórdia.

b) os homens são meros instrumentos de Deus. [21] Em Sua bondade, Ele não nos castiga, como se fôssemos Seus inimigos; pelo contrário, como a filhos é que nos educa e corrige.

Se bem atendermos, os homens nestas coisas não deixam de ser realmente ministros e como que instrumentos de Deus. Pode o homem nutrir profundo ódio contra seu semelhante, e desejar a sua ruína total, mas não poderá absolutamente fazer-lhe mal algum, sem a permissão de Deus. Compenetrado desta verdade, aturou José com paciência as ímpias maquinações de seus irmãos, e Davi os doestos que lhe dirigia Semei.

Aqui vem a propósito um pensamento que São João Crisóstomo desenvolveu, com grande insistência e igual erudição: Ninguém pode ser lesado senão por si próprio. Pois os que se julgam mal tratados por outrem, quando examinarem a coisa com isenção de espírito, hão de descobrir que de outros não receberam nenhuma ofensa ou dano. Com serem injuriados por agentes exteriores, são eles que causam a si mesmos o maior dano, se por isso maculam o próprio coração com o pecado do ódio, da vingança e da inveja.

c) o perdão das ofensas traz vantagens. [22] A segunda razão está em duas imensas vantagens, reservadas aos que, por filial amor,a Deus, perdoam as ofensas de bom coração.

A primeira vantagem é que Deus promete perdão dos próprios pecados a quem perdoa as ofensas de seus semelhantes. De tal promessa transparece o quanto Deus se compraz nesse ato de caridade.

A segunda vantagem é que assim conseguimos certa nobreza e perfeição de alma. Pois o perdão das injúrias nos torna, de certo modo, semelhantes a Deus, “que faz nascer o Seu sol sobre bons e maus, e faz chover’ sobre justos e injustos”.

d) castigos da implacabilidade. [23] A terceira razão para ser explicada, está nos castigos que havemos de incorrer, se não quisermos perdoar as injúrias que nos forem feitas.

Às pessoas obstinadas em negar perdão aos inimigos, ponha-lhes o pároco diante dos olhos não só que o ódio é grave pecado, mas também que se incrusta cada vez mais na alma, quanto mais se prolongar a sua duração. Pois, quando tal sentimento de ódio se apoderou da alma, a pessoa fica sequiosa do sangue de seu inimigo, nutre plena esperança de poder vingar-se, vive dia e noite numa funesta agitação que a persegue continuamente.

Assim parece que não abandona um instante sequer a idéia de homicídio ou de outra proeza nefasta. Acontece; pois, que tal pessoa nunca, ou só com muita dificuldade, se decide a perdoar plenamente, ou pelo menos em parte, as ofensas recebidas. Seu estado de alma, com razão, se compara a de uma ferida em que o dardo permanece cravado.

e) o ódio engendra outros pecados. [24] Muitos são os males e pecados que, por certa conexão, se ligam necessariamente a este pecado único de ódio. Por isso, foi nesse sentido que dizia São João: “Quem odeia seu irmão está em trevas, e anda nas trevas, e não sabe para onde vai, porque as trevas lhe cegaram os olhos”. Logo, é fatal que caia muitas vezes.

Do contrário, como poderia alguém fazer justiça às palavras e ações de uma pessoa, se nutre ódio contra ela? Daí nascem, portanto, os juízos temerários e injustos, as iras, as invejas, as detrações, e outros pecados semelhantes, que costumam envolver também as pessoas que a ela se negam por parentesco e amizade.

Deste modo acontece, muitas vezes, que de um só pecado nascem muitos outros. E não é sem cabimento que este pecado se chama “pecado do demônio”, porque o demônio foi “homicida desde o início”. Por esta razão é que o Filho de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, quando os fariseus queriam dar-lhe a morte, declarou que eles tinham por “pai o demônio”.

Remédios contra esses pecados:

1. O exemplo de Nosso Senhor… [25] Além destas alegações, que ensejam motivos para a detestação de tal pecado, encontram-se nos testemunhos da Sagrada Escritura outros remédios também, por sinal que eficacíssimos.

O primeiro e o maior de todos os remédios é o exemplo de Nosso Salvador, e devemos tê-lo diante dos olhos para nossa imitação. Ele, em cuja Pessoa não podia recair a mínima suspeita de pecado, depois de ser flagelado, coroado de espinhos, e finalmente crucificado, teve aquela palavra repassada de amor: “Pai, perdoai-lhes, pois eles não sabem o que fazem”. E Seu Sangue derramado, como atesta o Apóstolo, “fala mais vigorosamente do que o sangue de Abel”.

O segundo remédio nos é proposto pelo Eclesiástico: a recordação da morte e do dia do juízo. “Lembra-te dos teus novíssimos, diz Ele, e para sempre deixarás de pecar”.

2. A lembrança dos Novíssimos. O sentido destas palavras é como se dissesse: Lembra-te, muitas e muitas vezes, que em breve terás de morrer. Naquele instante, ser-te-á sumamente desejável e absolutamente necessário alcançar a infinita misericórdia de Deus. Por isso, é indispensável que desde já a tenhas continuamente diante de teus olhos. Desta forma, há de extinguir-se em ti aquele medonho desejo de vingança, pois não acharás meio mais próprio e mais eficaz para conseguir a misericórdia de Deus, do que o perdoares as injúrias e amares aqueles que te ofenderam, a ti ou aos teus, por atos ou palavras.