Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

O culto dos Santos, de Nossa Senhora e das imagens sagradas

Postado em 07-08-2011

João Carlos Cabral Mendonça

 

O culto dos santos

A veneração dos santos, segundo a doutrina católica, tem por fim a glorificação de Deus, “admirável nos seus santos” (Salmo 67, 36), único Santo por natureza, ao qual e somente ao qual se deve adorar como ao Criador e Senhor supremo de todas as coisas. Jesus Cristo, Homem-Deus, é o único mediador necessário de Redenção. Os santos são mediadores de intercessão, em si dispensáveis.

Afinal, quem são os santos? São aqueles que, por suas virtudes, se tornaram agradáveis a Deus, amados e venerados pelos homens e intercessores deste junto ao Altíssimo. Desde Abel até São João Batista – limitemo-nos por ora ao Antigo Testamento – patriarcas, juízes, reis, profetas, formam uma gloriosa plêiade, enaltecida pelos contemporâneos e pelos pósteros. É só ler, a respeito, o livro da Sabedoria (capítulo X) e a epistola de São Paulo aos hebreus (cap. XI). Sobre o poder de intercessão dos santos, consideremos apenas duas passagens do Antigo Testamento, uma referente a Abraão e outra a Moisés. Quanto ao primeiro, disse Deus a Abimelec, rei de Gerara, após ameaçá-lo de morte, por ter raptado Sara: “ele (Abraão) é profeta, e rogará por ti e tu viverás” (Gen. XX, 7). Nota-se que Deus faz depender da oração do grande patriarca a vida de Abimelec, ao qual poderia tê-la concedido diretamente.

Contudo, mais admirável ainda é o exemplo de Moisés. Disse-lhe Deus: “Deixa-me a fim de que o meu furor se acenda contra eles e que eu os extermine e eu te farei chefe de uma grande nação.” (Ex. XXXII, 10). Moises persistiu em rezar pelo povo prevaricador e Deus se deixou aplacar. A onipotência divina, por assim dizer, sujeitou-se a Moisés.

Na Nova Aliança, com o aparecimento do único mediador, Jesus Cristo, nem por isso acabou a intercessão do santos, fundada necessariamente na d’Ele. Nenhuma graça é dada aos homens a não ser por meio do Redentor tanto no Antigo Testamento, em previsão dos seus infinitos méritos, como no Novo. Ora, depois que o Espírito Santo, autor de toda santidade, foi dado à Igreja, multiplicaram-se os santos. Nosso Senhor atribui a si a perseguição feita aos fieis, falando a Saulo: Eu sou Jesus a quem tu persegues” (Atos IX, 5).

Os santos recebem no céu os que fazem bom uso das riquezas (S. Lucas, XVI, 9), têm poder sobre as nações (Apoc. II, 26), regê-las-ão com vara de ferro, participando assim da soberania de Cristo. Eles constituem também modelos a ser imitados, conforme diz São Paulo, com toda humildade: “Sede meus imitadores como eu sou de Cristo” (I Cor. IV, 16).

São inúmeras as inscrições e epitáfios que atestam o culto dos santos nos primeiros séculos do Cristianismo. De mártires, por exemplo: 1) “Ático, dorme em paz, seguro da tua salvação e pede solícito por nossos pecados”(Museu Capitolino, apud Lúcio Navarro, “A legítima Interpretação da Bíblia”, p. 542); 2) “Mártires santos, bons, benditos, ajudai a Ciríaco (mosaico no cemitério de São Pânfilo, apud L. Navarro ibidem). Agora o epitáfio de uma criancinha inocente: “Pede por teus pais, Matronata Matrona. Ela viveu dois anos, cinqüenta e dois dias (Museu de Latrão, ibidem).

Isto também dá a entender, ao contrário do que dizem muitos hereges, que os santos sabem o que se passa na terra, e gozam da glória celeste, quanto à alma, uma vez que o corpo só será glorificado após a ressurreição.

 

O culto da Santíssima Virgem

Tudo o que a respeito dos santos ensina a Igreja vale com maior razão em se tratando da Virgem Maria. Mais ainda: ao passo que eles são mediadores acidentais, Nossa Senhora é, por disposição divina, medianeira indispensável junto a seu Filho Jesus Cristo. Como assim? Remontando aos primórdios da humanidade encontramos, ao lado do primeiro homem, uma mulher, que Deus lhe deu como companheira. Infelizmente, esta o induziu ao pecado que acarretou a desgraça para ambos e para os seus descendentes. Na Redenção quis Deus associar também uma mulher ao novo Adão, Jesus Cristo, o qual, ao contrário do primeiro, teve uma mãe virgem, cheia de graça, bendita entre as mulheres. O pouco que os Evangelhos d’Ela dizem tem profunda significação e fundamenta toda a teologia marial.

O papel da Santíssima Virgem é levar Cristo aos homens, e estes a Cristo. Basta abrir os Evangelhos: ao aceitar ser a Mãe do Redentor foi logo levar o Verbo Divino, recém encarnado, à sua prima Santa Isabel e ao Precursor, o qual exultou de júbilo ainda no seio materno à saudação de Maria. Nas bodas de Caná é Ela também que obtém, apesar da aparente recusa de seu Divino Filho, o primeiro milagre, em virtude do qual os discípulos creram nele (S. João II, 1-11).

O fato de Nosso Senhor, quando uma mulher lhe enalteceu a mãe, ter afirmado serem “antes bem-aventurados os que ouviam a palavra de Deus e a punham em prática” (S. Lucas XI, 27-29) e declarado, noutro lugar, que estes tais eram “sua mãe e seus irmãos” (S. Lucas, VIII, 21), longe de depreciar sua Mãe Santíssima, a louva de modo mais profundo. Com efeito, quem ouviu com melhor disposição a palavra divina, e a pôs em prática mais perfeitamente do que a Santíssima Virgem? “Eis aqui a escrava do Senhor: faça-se em mim segundo a tua palavra” (S. Lucas, I, 38) foi a sua resposta ao arcanjo Gabriel. E Nossa Senhora sabia quanto sofrimento, que cruz iria constituir para si o fato de ser mãe de um Messias rejeitado e crucificado!

Mais um trecho de São Lucas sobre a Visitação: “Isabel ficou cheia do Espírito Santo e exclamou em alta voz e disse: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto de teu ventre. E donde a mim a dita que a mãe do meu Senhor venha ter comigo? (Idem, I, 41-43). Note-se que Santa Isabel disse isto “cheia do Espírito Santo”. O Espírito de Deus impele-a a louvar Maria e a proclamá-la Mãe de Deus, pois “Senhor” era o nome que os israelitas, por respeito, davam a Deus. Quem a insulta, despreza ou minimiza, não é movido pelo Espírito de Deus, mas pelo espírito do mal e de mentira, por Satanás.

É a Nosso Senhor que se ofende ao rebaixar sua Mãe Santíssima. O bom filho leva mais em conta os louvores ou ultrajes à sua mãe do que os feitos a si mesmo, e Jesus é o melhor dos filhos.

A Santíssima Virgem é a obra prima de Deus, que a fez digna Mãe de seu Unigênito. O elogio a uma obra prima redunda na glória do artista que a executou.
Afinal, qual a razão mais profunda do menosprezo e da antipatia que os protestantes votam à Mãe de Deus, não fazendo assim parte das gerações que a proclamam bem-aventurada, como Ela mesma disse no Magnificat?

Muito simples: na terra, em última análise, há somente duas classes de pessoas: a posteridade da serpente, símbolo de Satã, e a posteridade da Mulher bendita (Gen. III, 14), a Virgem Santíssima, cujo primogênito é Nosso Senhor, “primogênito entre muitos irmãos” (Rom. VIII, 29) membros do seu corpo místico que é a Igreja (Col. I, 18). Os protestantes fazem parte da posteridade da serpente.

 

Culto das imagens

A idolatria foi, é, e será sempre um gravíssimo pecado contra o primeiro mandamento, porque consiste em prestar culto de adoração a uma criatura tomando-a por Deus, criador e senhor de todas as coisas. Apontando para o bezerro de ouro disseram os israelitas: “Estes são os teus deuses, ó Israel, que te tiraram da terra do Egito” (Ex. XXXII, 4). Os hebreus, com isto, cometeram um ato de idolatria.

Ora o culto das imagens, tal como sempre se praticava e pratica na Igreja não é absolutamente idolátrico; é relativo, isto é refere-se às pessoas que elas representam;  os católicos não adoram nem as imagens nem os que elas representam, isto é, Nossa Senhora ou os santos.

Medeia um abismo entre o culto das imagens e a idolatria. Deus que a condenou tão severa e repetidamente mandou esculpir imagens de querubins na Arca da Aliança (Ex. XXV, 22), no templo de Jerusalém (III Reis, VII, 29). Mais: quando os israelitas foram castigados pelas mordeduras das serpentes, em vez de curá-los diretamente ou por meio de Moisés, Deus serviu-se duma serpente de bronze, da imagem de um ser irracional!

Objetar-se-á que, séculos depois, o rei Ezequias mandou despedaçá-la, porque estava sendo objeto de culto idolátrico, e chamou-lhe Noestan, isto é, simples objeto de bronze (IV Reis, XVIII, 4). Com toda razão; em si, materialmente, ela não passava disto, e o piedoso rei agiu muito bem. Estava-se no século VII antes de Cristo;  o povo, cercado de nações idólatras, caía repetidamente no culto dos ídolos. Era o tempo em que Isaias descrevia assim o idólatra: “Fez para si um ídolo, diante do qual se prostra e adora, e lhe roga, dizendo: Livra-me por que és meu deus” (Is. XL, 17). E Jeremias: “…dizem a um pau: Tu és meu pai, e a uma pedra: Tu me geraste (Jer. II, 27). Ora, nenhum católico, por mais ignorante e rude que seja, mesmo aquele que impropriamente denomina a imagem pelo santo que ela representa, se dirige à mesma naqueles termos; não a confunde com o santo nem muito menos com Deus. Sobre a serpente de metal deve-se notar  o seguinte: apesar do que Ezequias fez, ela não perdeu o seu importantíssimo valor simbólico: aquele objeto de bronze era figura de Nosso Senhor  crucificado, segundo as palavras d’Ele próprio a Nicodemus (São João, III, 14-15).

Durante os primeiros séculos do Cristianismo, quando os fieis, vivendo entre idólatras, corriam perigo, se não igual ao menos semelhante ao dos israelitas antigos, o culto das imagens é atestado por Tertuliano (De pud, c. v.), pelo sínodo de Elvira (300, c. 36) e pelas próprias catacumbas, cheias de pinturas. Derrotado o paganismo, com o triunfo da Igreja, o culto das imagens tomou grande impulso. Os iconoclastas, literalmente, quebradores das imagens que se opunham ao seu culto, foram condenados pelo 2º concílio de Nicéia (787), o qual afirmava ser a veneração das imagens baseada na tradição católica.

O culto das imagens vai ao encontro das exigências da natureza humana que precisa de símbolos materiais para elevar-se às realidades espirituais. Quantas elevações de alma, quantos pensamentos salutares, quantas conversões não tiveram origem na contemplação de imagens, quadros e santinhos! Deus que se dignou fazer, ao longo dos séculos, tantos milagres através das santas imagens – citemos apenas a de Nossa Senhora de Fátima e de Nosso Senhor Crucificado de Porto  das Caixas – reprovaria um culto que redunda em tanto bem das almas e, por conseguinte, da sua glória?

Os protestantes, para serem coerentes consigo mesmos, deveriam condenar também as estátuas dos heróis e homens ilustres aos quais se prestam homenagens com discursos e flores.

Para terminar um conselho: derrubem, quebrem, esfacelem as estátuas de Lutero, Calvino, Zwinglio e de outros heresiarcas que tanto mal fizeram à humanidade.