Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Sermão sobre as eleições

Postado em 30-09-2018

XIX domingo depois de Pentecostes

“Eu sou a salvação do povo, diz o Senhor, e ouvi-lo-ei, sempre que na tribulação chamar por mim; serei o Senhor dele para sempre.”

Meus caros irmãos.

Tendo em vista o eloqüente intróito da missa de hoje, e considerando que no próximo domingo o povo brasileiro cumprirá o gravíssimo dever de escolher seus governantes, parece-me oportuno desenvolver algumas reflexões sobre política. Reflexões politicamente incorretas, digo desde logo.

Todos sabemos que, devido à  decadência moral do mundo moderno, a política caiu em descrédito, perdeu seu antigo prestígio e tornou-se um tema repugnante de ser tratado.

Entretanto, nunca podemos esquecer o que disseram os grandes filósofos e os santos doutores da Igreja sobre a verdadeira política: a política é a atividade humana mais nobre que o homem pode exercer, ficando abaixo apenas do ministério sacerdotal, que se ocupa do culto divino e da salvação das almas.

É a atividade mais nobre porque é a arte de organizar a sociedade em vista do bem comum; não é a arte de negociar a própria conveniência.

Com efeito, o  homem que se ocupa do bem comum desenvolve uma atividade mais nobre do que aquele que se ocupa só do bem particular.

Não é em vão que nos tempos áureos da cristandade a Igreja canonizou vários reis  santos como São Luís de França, São Fernando de Castela, Santo Eduardo da Inglaterra, Santo Estevão da Hungria, Santo Henrique Imperador, ou ainda santas rainhas como Santa Isabel de Portugal e Santa Isabel da Hungria. E não é ocioso lembrar que o Divino Espírito Santo falou por meio de homens públicos, como o santo caudilho  Moisés, para dar à humanidade o conhecimento dos 10 mandamentos, e de grandes reis, como Davi e Salomão, para fazer chegar até nós sua eterna sabedoria, consignada nos santos livros dos Provérbios, do Eclesiastes, do Eclesiástico, da Sabedoria e dos Salmos. Poderia ter-se servido de  homens de outra categoria, mas quis servir-se de reis.

Mas por que a Igreja tem de falar de política e às vezes tem de fazê-lo do púlpito? Não seria isto profanar a santidade do púlpito? Não, porque, para um católico, a política nada mais é que a aplicação da lei do Evangelho à constituição da cidade, de modo que é natural que ela proceda do trono do Evangelho, que é o púlpito.

Não é profanar a santidade do púlpito, porque, sendo a política a arte de procurar o bem comum da cidade e sendo também  a virtude moral da prudência no governo da cidade, somente a Igreja poderá, com a sua sabedoria divina e com sua experiência bimilenar, instruir seus filhos sobre o que vem a ser realmente o bem comum. Porque somente ela conhece a fundo a natureza humana.

Realmente, meus caros irmãos, quantos erros no campo da política surgiram no mundo moderno e causam  a infelicidade da sociedade humana?

Assim, por exemplo, um lunático como Rousseau propagou aquele devaneio de um primitivo estado de natureza em que homem vivia feliz e solitário à sombra dos carvalhos; e segundo o mesmo lunático, a sociedade só surgiu para garantir o direito de propriedade quando um homem mais forte cercou um pedaço de terra e disse isto é meu.

Ao contrário dessa quimera tão perniciosa, Igreja nos ensina uma verdade hoje esquecida: Deus criou o homem como um ser social, para que, pela prática das virtudes na convivência com seus semelhantes, merecesse o céu e, por isso,  toda sociedade política deve organizar-se conforme a Lei de Deus.

Os falsos profetas da modernidade, porque não conhecem a natureza humana e não confiam no poder da graça divina para auxiliar o homem na prática do bem, acabaram criando o estado moderno, esse monstro que está escravizando a sociedade, destruindo a família e o próprio homem.

Esta é a triste realidade que salta aos olhos de qualquer observador. É a conseqüência das falsas doutrinas de um Maquiavel, de um Hobbes que dizia que o homem é lobo do homem ou de um Marx que dizia que a luta de classes é o motor da história.

Como vemos, meus caros irmãos, nos tempos modernos o plano maravilhoso de Deus na criação  do homem como um ser social, para que fosse bom e feliz praticando as virtudes na convivência com seus irmãos, está ameaçado. Infelizmente, esses erros doutrinários encontraram adeptos até dentro da Igreja após o fracassado Vaticano II nas comunidades eclesiais de base dominadas  pela  teologia da libertação.

De modo que, meus caros irmãos, nos dias atribulados que vivemos hoje no Brasil devemos rezar o Salmo 17 que diz assim: “Das discórdias do povo me livrastes e me pusestes à frente das nações”, e pedir, como diz o intróito desta missa, que o Senhor seja a salvação do nosso povo, instruindo-o na escolha do único candidato à Presidência da República que defende a concepção  de bem comum mais próxima do que ensina a Igreja.

Porque o bem comum não significa apenas a soma dos bens materiais de cada indivíduo, nem a sua simples organização ou distribuição entre os membros de uma sociedade. Bem comum significa todos os bens que interessam à natureza humana.

Entre esses bens os mais preciosos e hoje os mais ameaçados estão os bens morais, os valores morais, as virtudes que compete a um chefe de Estado proteger e promover, a começar pela proteção da instituição da família, santuário  da vida hoje ameaçada pela cultura da morte, a começar pela família hoje destruída pela praga do divórcio e desfigurada pela apologia do homossexualismo.

Compete também a um chefe de Estado banir das escolas, com toda energia, a monstruosa ideologia do gênero que corrompe as nossas crianças.

É um grande erro o que muitos políticos e teólogos dizem hoje: é preciso respeitar a tendência homossexual. Como assim? Então vamos respeitar a tendência ao adultério e ao furto? Um homem casado que tenha tendência ao adultério enquanto não adultera não é adultero e não quer que sua tendência ao adultério seja respeitada. Um empresário que tenha tendência à ladroagem enquanto não rouba não é ladrão e não quer tampouco que sua tendência à rapina seja respeitada. Assim também alguém que tenha tendência à sodomia enquanto não comete o pecado nefando não é sodomita e não quer que a tendência à sodomia seja respeitada.

Digo tudo isto, meus caros irmãos, para que vejam o verdadeiro alcance do conceito de bem comum. Este conceito exige muito mais que a simples competência de um chefe de Estado na gestão dos recursos financeiros de uma nação.

Um chefe de Estado ou de governo tem de ter consciência de que o mais importante é preservar os fundamentos morais da sociedade. Em uma palavra, tem de estar a serviço do reinado social de Cristo.

Somente assim, pondo Deus acima de tudo e de todos, somente pondo o próprio Brasil abaixo de Deus, é que um povo, renovado em seu espírito, não dará lugar ao demônio, como diz a epístola de hoje, e se verá livre dos ladrões e terá governantes que trabalhem realmente para o bem comum em tudo o que é honesto e conforme a Lei de Deus.

Rezemos, pois, meus caros irmãos, por estes dias (até o próximo domingo), o Salmo 17 pedindo a vitória do candidato que melhor defende a verdadeira concepção de bem comum para o nosso Brasil tão enxovalhado nos últimos tempos.

Que Nossa Senhora Aparecida, rainha do Brasil, nos ajude a preservar os valores e as tradições da Terra de Santa Cruz.