Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 — Se a alma conhece os corpos pelo intelecto.

(De Verit., q.10, a. 4).

O primeiro discute-se assim. ― Parece que a alma não conhece os corpos pelo intelecto.

1. ― Pois, diz Dionísio que os corpos não podem ser compreendidos pelo intelecto; porque só os sentidos podem perceber o que é corpóreo. E diz também que a visão intelectual é só daquelas coisas que estão pela sua essência na alma. Ora, essas não são corpos. Logo, a alma pelo intelecto, não pode conhecer os corpos.

2. Demais. ― O sentido está para os inteligíveis, como o intelecto para os sensíveis. Ora, a alma, pelo sentido, de nenhum modo pode conhecer as coisas espirituais, que são inteligíveis. Logo, de nenhum modo, pelo intelecto, pode conhecer os corpos, que são sensíveis.

3. Demais. ― O intelecto se refere às coisas necessárias e que existem sempre do mesmo modo. Ora, todos os corpos são móveis e não existem sempre do mesmo modo. Logo, pelo intelecto, a alma não pode conhecer o corpo.

Mas, em contrário, a ciência está no intelecto. Se, pois, este não conhece os corpos, resulta que não há nenhuma ciência deles. E, então, desaparecerá a ciência natural, que é a do corpo móvel.

SOLUÇÃO. ― Para evidenciar esta questão, deve-se dizer que os primeiros filósofos que pesquisaram as naturezas das coisas, pensavam que no mundo só existe corpo. E como viam que todos os corpos são móveis e julgavam estarem num fluxo contínuo, concluíram que nós não podemos ter nenhuma certeza da verdade das coisas. Pois, o que está em fluxo contínuo não pode ser apreendido com certeza porque, antes de ser discernido pela mente, já desapareceu: e, por isso, Heráclito disse que não é possível tocar duas vezes a água de um rio que corre, como refere o Filósofo.

Platão, porém, que veio depois, para poder salvar o conhecimento certo da verdade adquirida, por nós, por meio do intelecto, introduziu, além desses seres corpóreos, outro gênero de entes separado da matéria e do movimento, a que chamou espécies ou idéias. E, pela participação destas cada um dos seres singulares e sensíveis se chama homem, cavalo ou coisa semelhante. Assim, pois, dizia que as ciências e as definições e tudo o que pertence ao ato do intelecto, não se refere aos corpos sensíveis que vemos, mas a esses seres imateriais e separados. De modo que a alma não intelige esses seres corpóreos, mas sim, as espécies separadas deles.

Ora, de duplo modo se mostra à falsidade desta opinião. ― Primeiro porque, sendo essas espécies imateriais e imóveis, seria excluído das ciências o conhecimento do movimento e da matéria, o que é próprio da ciência natural, bem como a demonstração pelas causas motoras e materiais. ― Segundo, seria visível que, procurando conhecer as causas que nos são manifestas, introduzamos outras intermediárias, que não podem ser as substâncias das primeiras por diferirem delas essencialmente. De modo que, conhecidas essas substâncias separadas, nem por isso poderemos julgar das coisas sensíveis.

E a causa de Platão ter-se desviado da verdade está em que, julgando que todo conhecimento se dá em virtude de certa semelhança, pensava que a forma do conhecido está necessariamente no conhecente, do modo pelo qual ela está no conhecido. Assim, considerou que a forma da causa inteligida está no intelecto universal, imaterial e imovelmente; coisa que ressalta da própria operação do intelecto, que intelige universalmente e como por uma certa, necessidade; ora, o modo da ação é dependente do modo da forma agente. E então, concluiu pela necessidade de as coisas inteligidas subsistirem em si mesmas imaterial e imovelmente. Ora, isto não é necessário. Pois, mesmo nos seres sensíveis, vemos que a forma está, num dos sensíveis, de modo diverso que em outro; p. ex., num a brancura é mais intensa, noutro, mais remissa; num a brancura vai com a doçura, noutro, sem ela. Ora, é também assim que a forma sensível está, de um modo, na coisa exterior à alma e, de outro, no sentido, que recebe as formas sensíveis sem matéria, p. ex., a cor do ouro sem o ouro. E, semelhantemente, o intelecto recebe, ao seu modo, imaterial e imovelmente, as espécies móveis e materiais dos corpos; pois, o recebido esta no recipiente ao modo deste. ― Logo, deve-se concluir que a alma, pelo intelecto, conhece os corpo por um conhecimento imaterial, universal e necessário.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. ― O passo de Agostinho deve se entender daquelas coisas pelas quais o intelecto conhece, e não daquelas que ele conhece. Ora, ele conhece os corpos, inteligindo, mas não por meio de corpos nem de semelhanças materiais e corpóreas; mas por espécies imateriais e inteligíveis que, por essência, podem estar na alma.

RESPOSTA À SEGUNDA. ― Como ensina Agostinho, não se deve dizer que, assim como sentido conhece só as coisas corpóreas, assim o intelecto, só as espirituais; porque, então, resultaria que Deus e os anjos não conheceriam os seres corpóreos. E a razão desta diversidade é que a virtude inferior não se estende ao domínio da virtude superior; mas a virtude superior opera, de modo mais excelente, o que pertence à inferior.

RESPOSTA À TERCEIRA. ― Todo movimento supõe algo imóvel. Quando, pois, a transmutação é qualitativa, a substância permanece imóvel; e quando se transmuda a forma substancial, a matéria permanece imóvel. Ora, os modos de ser das coisas móveis são imóveis; assim, embora Sócrates nem sempre esteja sentado, contudo é imovelmente verdade que, quando está sentado, permanece num lugar. Por onde, nada impede ter uma ciência imóvel das coisas móveis.