Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 1 – Se há alguma ordem na caridade

O primeiro discute-se assim. – Parece que não há nenhuma ordem na caridade.

1. – Pois, a caridade é uma virtude. Ora, não se estabelece nenhuma ordem nas outras virtudes. Logo, também não se deve estabelecer nenhuma na caridade.

2. Demais. – Assim como a verdade primeira é o objeto da fé, assim o objeto da caridade é a suma bondade. Ora, não há nenhuma ordem estabelecida na fé, mas todas as suas verdades são igualmente acreditadas. Logo, não se deve também por nenhuma ordem na caridade.

3. Demais. – A caridade está na vontade. Ora, ordenar não é próprio da vontade, mas da razão. Logo, não se deve atribuir nenhuma ordem à caridade.

Mas, em contrário, a Escritura: O rei me fez entrar na adega onde mete o seu vinho; ordenou em mim a caridade.

SOLUÇÃO. – Como diz o Filósofo, prioridade e posterioridade supõem relação com um princípio. Ora, a ordem inclui em si de certo modo, anterioridade e posterioridade. Por onde, é necessário que onde quer que haja um princípio haja também uma ordem. Ora, como já dissemos, o amor da caridade tem por objeto Deus, como princípio da felicidade, na participação da qual se funda a amizade de caridade. Por isso, é necessário atendermos a uma certa ordem, no que amamos com caridade, conforme a relação com o princípio primeiro desse amor, que é Deus.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ A caridade tem por objeto o fim último, como tal o que não convém a nenhuma outra virtude, como já se disse. Ora, na ordem do apetite e da ação, o fim exerce a função de princípio, como do sobredito se colhe. Por onde, a caridade implica sobretudo relação com o princípio primeiro. Por isso, a ordem nela se considera sobretudo relativamente ao primeiro princípio.

RESPOSTA À SEGUNDA. – O fim é próprio da potência cognoscitiva, por cuja operação o objeto conhecido está no sujeito conhecente. Ao passo que a caridade reside na potência afetiva, cuja operação consiste no tender da alma para as coisas mesmas. Ora, a ordem se manifesta principalmente nas próprias coisas, e delas deriva para o nosso conhecimento. Por onde, é mais própria da caridade que da fé; embora nesta também haja uma certa ordem, enquanto diz respeito principalmente a Deus, e secundariamente ao que a Deus se refere.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A ordem é própria da razão, como ordenadora que ela é. A potência apetitiva pertence, como ordenada. E deste modo se estabelece a ordem na caridade.