Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 7 – Se devemos amar mais os melhores do que os mais chegados a nós.

O sétimo discute-se assim. – Parece devamos amar mais os melhores do que os mais chegados a nós.

1. – Pois, parece dever ser mais amado o que não tem nenhuma razão para ser odiado, do que aquilo que, por alguma, deve sê-lo. Assim como é mais branco o que não tem nenhuma mistura de preto. Ora, as pessoas que nos são chegadas devem, por alguma razão, ser odiadas, conforme a Escritura: e alguém vem a mim e não aborrece a seu pai, etc.; ora, os homens não devem, por nenhuma razão, ser odiados. Logo, parece que os melhores devem ser mais amados que os mais chegados a nós.

2. Demais. – Pela caridade o homem mais se assemelha a Deus. Ora, Deus mais ama quem é melhor. Logo, devemos, com caridade, amar mais quem é melhor do que o mais chegado a nós.

3. Demais. – O que está mais intimamente unido ao fundamento mesmo da amizade deve ser mais amado, conforme as várias espécies dela. Pois, pela amizade natural amamos mais os que nos são mais chegados por natureza, como, os pais ou os filhos. Ora, a amizade de caridade se funda na participação da felicidade, que mais participam os melhores que os mais chegados a nós. Logo, devemos amar, com caridade, mais os melhores que os mais chegados a nós.

Mas, em contrário, diz a Escritura. E se alguém não tem cuidado dos seus e, principalmente, dos de sua casa, esse negou a fé e é pior que um infiel.

SOLUÇÃO. – Todo ato deve ser proporcionado ao objeto e ao agente; mas, do objeto tira a sua espécie e, da virtude do agente, o modo da sua intensidade. Assim também o movimento se especifica pelo termo a que se dirige; mas, a intensidade da sua rapidez provém da disposição do móvel e da virtude do motor. Assim, pois, o amor se especifica pelo seu objeto, sendo-lhe a intensidade proveniente do próprio agente. Ora, o objeto do amor de caridade é Deus, e o homem é o amante. – Logo, a diversidade específica do amor de caridade que devemos ter para com o próximo, há de ser referida a Deus, de modo a querermos, com caridade, maior bem aquele que está mais unido com Deus. Porque, embora o bem que a caridade quer para todos – a felicidade eterna – seja essencialmente único, tem contudo graus diversos, conforme os modos diversos de ser participada a felicidade. E é próprio da caridade querer conservar a justiça de Deus e esta exige que os melhores participem mais da felicidade. E isto especifica o amor, pois, são tantas as diversas espécies de amor quantos os bens diversos que desejamos aos que amamos. – Quanto à intensidade dele, deve ser considerada com referência a quem ama. E assim, aos que nos são mais chegados, amamos com afeto mais intenso, quanto ao bem, relativamente ao qual os amamos, do que aos melhores, relativamente a um maior bem.

Mas há ainda, nesta questão, outra diferença a que devemos atender. Pois, certos próximos nos são chegados por origem natural, da qual não podem divorciar-se, pelos tornar ela o que são. Ora, a bondade da virtude, pela qual nos aproximamos de Deus, pode ter maior ou menor proximidade, pode aumentar e diminuir, como do sobredito se colhe. Portanto posso, com caridade, querer seja a pessoa, que me é chegada, melhor que outra, e assim possa chegar a um maior grau de felicidade.

Mas há, outro modo pelo qual amamos mais, com caridade, os que nos são mais chegados, pois, os amamos de muitos modos. Para com aqueles, porém, que não nos são chegados, só temos a amizade de caridade. Ao contrário, para com aqueles que nô-lo são, dedicamos certas outras amizades, conforme o modo pelo qual nos são chegados. Ora, o bem, no qual se funda qualquer outra amizade honesta, ordenando-se, como para o fim, ao bem no qual se funda a caridade, há de esta, consequentemente, imperar o ato de qualquer outra amizade, assim como a arte cujo objeto é o fim rege a relativa aos meios. Por onde, a caridade pode nos ordenar amemos alguém, por ser nosso consanguíneo ou chegado a nós, por ser concidadão ou por qualquer outro desses motivos lícitos, ordenado ao fim da caridade. E assim, tanto pela caridade lícita como pela imperada, amamos mais, e de muitos modos, os mais chegados a nós.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Não se nos ordena que odiemos os nossos próximos pelo fato mesmo de o serem, mas só por nos impedirem de nos unirmos a Deus. E por aí não nos são próximos, mas inimigos, conforme a Escritura: Os inimigos do homem são os seus mesmos domésticos.

RESPOSTA À SEGUNDA. – A caridade faz o homem asemelhar-se a Deus proporcionalmente, de modo que esteja para o que lhe é próprio, como Deus para o que lho é. Pois, podemos, com caridade, querer certas coisas, que nos convêm, que, contudo Deus não quer por não lhe convir querê-la, como já estabelecemos, quando tratamos da bondade da vontade.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Não somente é elícito o ato de amor da caridade relativamente ao objeto, mas também quanto ao amante, como já se disse. Donde se conclui ser o mais chegado a nós mais amado.